A D. Antonio da Costa

Em testemunho da regalada leitura que v. ex.^a me deu com o seu MINHO,

lhe offereço uma das novellas de cá. O Minho tem o romanesco da arvore e

o romance da familia. A paizagem suggeriu-lhe, meu caro poeta, as prozas

floridas do ridente livro. O seu estylo tem a macia luz do luar das

noites estivas, e o cadencioso murmurio das ribeiras onde o ceu

estrellado se espêlha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma

diligencia, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem

a ferretoar-nos a testa e a sevandijar nos os beiços convulsos de

lyrismo.

Viu v. ex.^a perfeitamente o Minho por fóra: as verduras ondulando nas

pradarias, os jôrros de agua espumando na espalda dos outeiros, os

fragoêdos ás cavalleiras dos milharaes, a amendoeira a florejar ao lado

do pinheiral bravio, as ruinas do paço senhorial com os seus tapetes de

ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do

negreiro a golphar rôllos turbinosos de fumo indicativo de pannellas

grandes e gallinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente,

ouviu v. ex.^a o som da buzina pastoril resonando a sua longa toada nas

gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos

espinhaços dos montes, e os rafeiros á ourela das estradas com os

focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou

de certo na pachôrra estoica do boi sevado, que parece estar

contemplando em si mesmo a metempsycose em futuro cidadão de Londres

mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a fórma objectiva do Minho

romantico, viu v. ex.^a a fóra o mais que aformosea o seu livro, os

encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que v. ex.^a

disputa primores á natureza.

Mas o que D. Antonio da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o

miôlo, a medula, as entranhas romanticas do Minho; quero dizer--os

costumes, o viver que por aqui palpita no povoado d'estes arvoredos onde

assobia o melro e a philomella trilla.

Ah! meu amigo! Romances, tecidos de cazos candidos e innocentes, apenas

os fazem por aqui os passaros em abril quando urdem e afôfam os seus

ninhos. O restante dos animaes não oviparos vista-m'os v. ex.^a no

Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecilia Fernandes, da

Travessa de Santa Justa, que eu lh'os farei representar ao vivo no

proprio coração do Minho--entre Fafião e S. João do Kalendario--as

scenas contemporaneas da fina _Baixa_ e peores.

A peste, que infeccionou os costumes d'estas aldeias, não sei decidir se

veio das cidades para aqui, se foi d'aqui para lá. Sá de Miranda

considerou isto tudo estragado quando viu

_correr pardáos

Por Cabeceiras de Basto_.

Imagine v. ex.^a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a

brunir este gentio ha tres seculos! Não faz idea, meu amigo! Até a

photographia, abarracada nas cabeças dos concelhos, tem feito collaborar

o sol e o clorureto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados»

permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando

o instincto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, ha

trezentos annos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados

em madeira, como se deprehende d'estes versos de Diogo Bernardes, o

rouxinol do _Lima_.

Pendurei n'um salgueiro a minha lyra

Ouvil-a ao som do vento é uma magua,

Em logar de tanger geme e suspira.

Marilia que _pintada n'uma tabua

Aqui no seio trago_, tambem chora;

Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe agua.

Não obstante, o fôgo, que acendrava a paixão nos peitos d'aquelles

Bieitos e Melibeus das eclogas, era uma especie de lume sacro que velava

a virgindade... dos retratos pintados em tabua. Por quanto, deve v.

ex.^a lembrar-se que os pegureiros do Minho taes fornalhas faúlavam do

peito que os visinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia,

como se collige das lastimas d'este pastor do canoro Bernardes:

A viva chamma, aquelle intenso ardor

Que brando sinto já pelo costume,

De noite de si dá tal resplandor

_Que mil pastores vem a buscar lume_.[3]

É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente

leia isto, e mais os outros lyricos seiscentistas--caldeirada de favas

classicas com as quaes o intendimento se opila e encrua; mas a lingua

cresce.

Como quer que seja, entre os retratos em tabua quaes os pintava S.

Lucas, e o retrato em photographia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a

distancia que ethnologicamente sepára as Nizes e Filis de Diogo

Bernardes d'estas Joannas e Thomazias que hão de florejar nas _Novellas

do Minho_.

Ouço dizer que a via-ferrea, sulcando o seio virginal d'esta provincia,

afugentou com o estridor das suas azas os pardaes, a mala-posta e a

Probidade.

É possivel. Os caixeiros do Porto, sadíos e sanguineos, com as suas

luvas amarellas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés,

entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias.

Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira á

innocencia espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos conegos, a

esposa de Fr. Bartholomeu dos Martyres, Braga despeitorou-se,

desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde

que um jornal da terra lhe chamou _segunda Pariz_. Eu não reparo na

desproporção do confronto, quando alli me vejo no _Café-Faria_, a

sentir-me arquejar em _uma das arterias do grande corpo da civilisação

chamada Europa_, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua _Guia

do Viajante em Braga_, por seis vintens. Tudo me leva á persuasão de que

me acho na segunda Pariz, quando a _Guia_ me assevera com exactidão,

ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros

sete procuradores de cauzas, e que ahi (pag. 28) os barbeiros

_superabundam_. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Pariz com a

superfluidade dos barbeiros!

A cathegoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra,

justifica-se principalmente nas estalagens. Ahi, é ahi onde o viajante

se sente saturado de Pariz, a ponto de, cuidando que accorda alvoroçado

pelas campainhas electricas do Grande Hotel no _Boulevard des

Capucines_, acha-se em Braga, no hotel-Aveirense, largo dos Penêdos.

Avantajam se ainda ás hospedarias parisienses, no ponto de vista

zoologico, os hoteis da princeza do Minho. Os forasteiros dados a

pesquizas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação

rasoavel, passar as suas noites em vigilias uteis estudando insectos sem

queixos e sem azas, de membros articulados, consoante a classificação de

Cuvier. Ali se lhes offerecem exemplares em barda da pulga braguez

(_Pulex bracharensis_). Convencer-se-ha que as seis pernas d'este

parazita são deseguaes, o que assim se faz mister para o salto. Não

duvidará que elle tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na

baze de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores,

dissipará suspeitas de que tem azas que realmente não tem as do _Hotel

Leão d'ouro_ nem as do _Hotel-transmontano_. Encontram-se n'estes dois

estabelecimentos larvas das mesmas, cylindricas e sem pernas. O olho

armado póde observal-as a mudarem-se em nymphas, que não são exactamente

umas de quem cantava Garret:

As _nymphas_ invoquei do Tejo ameno

Que em mim creassem novo engenho ardente,

Etc.

Cam. C. IV.

Nem as outras de quem dizia o épico:

Caem as _nymphas_, lançam das _secretas_

Entranhas ardentissimos suspiros...

Lus. Cant. IX.

Verdade é que o accessorio das _secretas_, ínclusas no verso de Camões,

deixa suppor que elle quizesse fallar das _nymphas_ dos hoteis de Braga.

Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a

Academia Real das Sciencias.

Nos hoteis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas

industrias, as refinações da decoração, a obra prima de marcenaria e

vidraria,--um luxo levantino, como em recamaras de Nababos--e sobre tudo

a hygiene expansiva de saude a dar cambalhotas na brancura virginal dos

lençoes; e á mistura com tudo isto resalta não sei que de archeologico

n'aquelles quartos! A gente, quando vae deitar-se, imagina que n'aquella

mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes

da Maya.

Por fora das estalagens ainda ha proeminentissimas feições de Pariz em

Braga. O _Jardim_, por exemplo. V. ex.^a já esteve no jardim?

Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora suffocados, ora

estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Tambem a mim.

Não pôde soletrar em sons articulados aquelle confuso borburinho? Nem

eu. Quem explica o phenomeno, trivial nos _Champs-Elysées_ e no _parc de

Monceau_, é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua _Guia do viajante em

Braga_, por seis vintens, pag. 41. A coisa é isto: _O chilrear das

creanças, o divanear das poetizas, o queixume somnolento dos poetas, a

conversação pezada e metalica dos proprietarios, todos estes murmurios

vagos ou alegres, suffocados ou estrepitosos_ (hîc) _enfundem uma vida

nova e excepcional ao passeio, que o tornam attrahente ou deleitoso_.

Theophilo Gauthier, o Benvenuto Celline da proza franceza, não

rendilharia com tão subtis filigrannas de phrase a explicação dos ruidos

babylonicos do _Luxemburg_. D'onde se colhe que Braga tem poetizas que

exhibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que

os poetas se queixam somnolentos. Pariz, tal qual. Note v. ex.^a o

contraste no sexo d'estas pessoas que bebem na Castalia: ellas

_divaneam_, apostrophando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que

cicia e se perfuma nas cilindras; elles, cabeceando marasmados pelo opio

do _narguillé_, queixam-se somnolentos, por que não os deixam dormir as

poetisas. São homens gastos, estafados, _roués_. Sahiram do _café-Faria_

intoxicados do absyntho de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Mussét.

Entraram no jardim com o cerebro anesthesiado, querem dormir; e ellas, á

imitação do femeaço da Thracia, projectam escalavrar aquelles Orpheus

dorminhôcos, Marcyas que ellas, filhas de Apollo, querem esfolar.

Segundo Pariz.

Ahi vê v. ex.^a a rasão dos «estrepitos» explicada na _Guia_. Pareciam

outra coisa peor.

Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Pariz, que

estudei, sem subsidio--intendamo-nos. Ha tres mezes senti-me ali adoecer

da nevropatia, que é molestia endemica dos grandes centros de população,

onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça--o que

succede em Londres, em Braga, em New-York, em Pariz, quando a gente

desconhece as leis da _relatividade dos prazeres_, como diz o professor

escossez Bain. Confiando nos anti hystericos, fui comprar á botica do

sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de capsulas de ether-sulphurico, e

preparava-me para pagal-as com 300 rs. (um fr. e 50 cent.)--prêço

corrente no Porto--quando o praticante da pharmacia me mandou intender o

preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o signal

arithmetico de um franco estava emendado em dois. Ainda assim,

observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portugueza eram

quatrocentos réis. O interlocutor refutou triumphantemente a minha

objecção, allegando que em Braga dois francos eram oito tostões.

Esta physionomia da botica bracharense dá feições á terra, não da 2.^a,

mas da 1.^a Pariz. A 2.^a é a outra que os geographos ignaros nos

inculcam 1.^a. Corrija-se.

Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam capsulas de

sulphur copíosamente nas suas etherisações, e que os poetas somnolentos

se despertem com ellas, não querendo usar economicamente das cocegas;

deve-se talvez ás condições especiaes das musas bracharenses o preço

superlativo dos anti-spasmodicos: assim mesmo, Pariz 2.^a não pode

arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Pariz 1.^a, nos generos que

importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda franceza, exporta

para França os seus chapeus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.

Aqui tem, pois, D. Antonio da Costa, o foco do progresso que esparge

raios de luz para as aldeias septentrionaes do Minho, em quanto o Porto

alastra no sul os caixeiros contaminadores, que levam comsigo a

corrupção dos romances e as tentações do cabello unctuoso com a risca ao

meio da cabeça, lasciva como o dorso d'um gato d'Angora.

É n'este meio que eu me abalanço a esgaratujar novéllas. Ha treze annos

que apéguei por esse Minho, em cata do balsamo dos pinheiraes e das

fragrancias das almas innocentes. Diziam-me que a rusticidade era o

derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivellados

com os saloios da Extremadura, eram os candidos pastores da Arcadia

comparados aos malandrins de Gomorrha. Um dos meus estudos, no intuito

de me habilitar para o confronto do saloio com o minhoto--da raça

sarracena com a gallega--É a historinha que lhe dedico meu nobre amigo.

De Coimbra, aos 15 de outubro de 1875.

Novelas do Minho · 第 21 / 56 题