Pois eu que sou o espirito das cousas,

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MANOEL D'ARRIAGA

CANTOS

SAGRADOS

LISBOA

MANOEL GOMES, Editor

LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

_70--RUA GARRETT (CHIADO)--72_

1899

DEDICATORIA

_Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia encontrei conforto,

fortalesa e fé na bondade e na virtude,_

_e_

_Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino

humano segundo o novo Ideal de Justiça_

_offerece e consagra estes CANTOS_

_O SEU AUCTOR._

AO PUBLICO

A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que

chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós,

n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a

morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos

nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias

que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde

1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a

inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas.

Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos _Cantos_, é o

que damos hoje á publicidade.

O segundo com o nome de _Irradiações_, é dividido em quatro

livros--_Devaneios_--_Imagens d'um mundo extincto_--_Nas Alturas_--_No

Lar_.

O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos.

O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no

concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as

tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura

solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça.

Foi este poema, a que démos o titulo de _Synthese Suprema_, escripto nos

tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica

militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz

ficou por completo isolada e perdida...

Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças,

então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem

esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas

horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.

A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.

Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje

tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião,

e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que

á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus

tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou

scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...

A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a

nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os

crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da

religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á

entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé

religiosa!...

A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia _O que

eu vi_, que adiante publicamos, e nas immediatas.

Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum

tempo.

Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas

metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o

homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações

scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no

foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e

levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de

interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um

ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os

actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema

social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no

fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.

Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de nossos

competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra

d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim

que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.

Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez

possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.

Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa

carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.

Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no

respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este

momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas

opiniões, os nossos sentimentos!

Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos

verdadeira, menos justa, menos bella?!

E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a

julgar-nos?!...

Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de

melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa

consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o

que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?!

Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer

para os enganos dos outros?!

Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a

imprimir estes _Cantos_ e esperámos sempre que um mais maduro exame os

auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr

mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos

leitores!...

Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão

largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode

aspirar o auctor d'estas linhas.

Lisboa, 15 de março de 1899.

MANOEL D'ARRIAGA.

LIVRO PRIMEIRO

DEUS E A ALMA

I

O QUE EU VI

Sahi um dia a contemplar o mundo,

Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha

Na multipla e gloriosa maravilha,

Que anda suspensa em o azul profundo!

Vi montes, vales, arvores e flôres,

Limpidas aguas, múrmuras torrentes,

Do grande mar as musicas plangentes,

Dos céus sem fim os trémulos fulgôres!

Trouxe os olhos tão ricos de belleza,

O coração tão cheio de harmonia,

De quanto havia em terra, mar e céos,

Que interpretando a sós a Natureza:

Dentro de mim esplendido fulgia,

N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus!

II

MUNDO INTERIOR

Materia ou Força, Lei ou Divindade

Quem quer que seja que dirige o mundo,

Esparze em tudo o espirito fecundo

Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade.

Á luz d'esta Santissima Trindade,

Cercado d'esplendor, clamo e jucundo,

Sorri-me em volta o universo; ao fundo,

Por synthese Suprema, a Humanidade!

Dos homens rujam temporaes medonhos...

Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento,

Meus dias correm limpidos, risonhos!

Estrellas que brilhaes no firmamento!

É menos bella a vossa luz que os sonhos

Que gera na minha alma o Pensamento!

III

TRISTEZA

Como isto cá por fóra é tudo alegre!

Quão bello o sol! que esplendida harmonia

A terra, o mar e os céos!

Porem dentro de mim que mundo á parte!

Que embate de paixões! Que noite funebre!

Que magoas, Santo Deus!

Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde

Tem sobre o mundo alguem onde projectem

A triste escuridão,

Minha alma é como o espelho onde ellas caem,

Tão profunda é a mágoa que me lavra

Aqui no coração!

E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula!

E o sol d'esta alma fulgurante e limpido

Banha-me todo em luz!

Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo

A alumiar-me com a luz da frouxa lampada

D'um templo de Jesus!...

Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre!

Que lave o pavimento de meu peito

De muita ideia vã,

Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a

E transforma-a na prata, ouro e purpura

Das nuvens da manhã!

Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados,

Que lanças no meu peito os ais plangentes

D'esses gemidos teus!

Desprende da minha alma as azas negras,

E deixa entrar alegre a luz do dia,

A luz vinda dos céos!

E vós, filhos do sol, tribus innumeras

Da familia de Deus, plantas e flôres

Insectos e animaes,

Que engolfados nos gozos do Universo,

N'esse concerto immenso de harmonias,

Nos céos a Deus louvaes:

Ah! venho-vos tomar por meus mentores,

Pois vale bem mais a luz do vosso instincto,

Que a luz d'esta razão,

Se eu não sei como vós viver contente,

Trazer o azul dos céos na consciencia,

E a paz no coração!

Lisboa

Na tapada d'Ajuda,

1869

IV

PRESENTIMENTOS

Eu bem sei que devia

Causar-te muito dó,

Em noite tão sombria

Vêres-me aqui tão só!...

Nem sei que sol m'alegra!

A sós com a minha cruz,

Sou como a nuvem negra

Que encerra muita luz!...

Como arvore sombria

Vergada sobre um val,

Assim vivo hoje em dia

Á sombra do Ideal...

Que eu tenho muita fome

De Justiça e d'Amor,

E aqui não ha quem tome

A serio a minha dôr...

O mundo vê e passa,

Como sempre passou,

Sorrindo da desgraça

Dos tristes como eu sou...

E este sonho dourado

D'amôr, que a gente vê,

Não póde estar guardado

N'esses homens sem fé!...

Ah! não! já não m'illudo

Foi isso o que suppuz;

Mas vi mudar-se em tudo

Em sombra a minha luz...

E os sonhos que já tive

Tão bellos, afinal,

São hoje um céo que vive

Sobre este lamaçal!...

Um céo que vejo, ao longe,

Exposto aos olhos meus,

Co'a mágoa com que um monge

Veria outr'ora a Deus!...

E onde ha maior castigo,

Mais dura provação,

Que ter por inimigo

O homem nosso irmão,

Aquelle a quem nós démos,

Com toda a candidez,

Os sonhos que hoje vêmos

Desfeitos a seus pés?!...

Ah! suppõe-me o desgosto,

De eu vêr desparecer

A cópia do meu rosto

Aos pés d'uma mulher,

E isto em desacato

Do meu mais santo amor:

E ahi tens um retrato

Da minha immensa dôr,

Quando vejo desfeito

Por gente ingrata e má

Um sonho do meu peito,

E muitos vi eu já!...

Por isso eu n'esta vida,

Apoz tanta illusão,

E tanta flôr perdida,

Tanta corôa no chão...

Ai! sinto com o anceio,

Que é proprio do infeliz,

Um mal n'este meu seio

Lançar muita raiz!...

Espero vêr a morte,

Eu proprio a invoquei,

Levar-me d'esta sorte

Para onde?! É que eu não sei!...

Como eu não sei dizer-te,

E isto que me consol',

Como é que se converte

Em vida a luz do sol!...

Como nasce a ventura

Do homem que morreu,

Dormir na sepultura

Para acordar no céo!...

Aqui tudo é mysterio!...

Mas visto que assim é,

Onde ha melhor criterio

Que á luz da nossa fé?

E eu creio firmemente

Que o martyr de Jesus,

Não fica só pendente

Dos braços d'uma cruz...

Que o homem que prosegue

A luz d'um Ideal;

Embora a turba o pregue

Na sua cruz fatal...

O céo é bem profundo,

O fundo nem tu vês,

E ha n'elle muito mundo,

Para onde irá talvez!...

A vida continúa,

E a alma, emquanto a mim,

Avança e não recúa

Por esses sóes sem fim!

Do sol se um raio ardente

No mar vier cahir,

Em nuvem transparente

Nós vêmol-o subir!

Não ha suster-lhe o rumo

Que o leva para os céos,

E assim é que eu presumo

Voarmos nós a Deus!...

O ponto é merecel-o,

Que Deus é justo e pae,

E eu sei com que desvelo

A si os bons attrae!

Mas quando eu vejo a lua,

Não sei que ideia má

N'esta alma me insinua

A luz que n'ella ha!...

Emquanto em torno d'ella,

Ao norte, ao leste, ao sul,

Refulge tanta estrella

Pela amplidão do azul,

Tu vêl-a solitaria,

Em paz cruzando o céo,

Como urna funeraria

D'um mundo que morreu!.

Ali já não ha vida!...

Ali não ha calor!...

N'aquella luz, vertida

Em lagrimas de dôr,

Ha só tristeza e lucto,

E confrange-se e doe

O coração, se escuto

Mulher, porque isso foi!...

Ah, tenho medo

Que o Supremo Juiz

Nos julgue assim tão cedo!...

Não sei que voz m'o diz...

Não sei... mas, se contemplo

Os crimes que ahi vão,

Mulher, aquelle exemplo

Conturba o coração!...

E assim só n'outra parte

Verão os olhos meus

Os sonhos que reparte

Commigo a mão de Deus!...

O mundo onde abre o cardo

E o lyrio ao mesmo sol;

Onde ama o leopardo

A par do rouxinol;

Que tem de andar na sombra

Para viver na luz;

E, o que inda mais m'assombra,

Onde ha Nero e Jesus:

Por mais bello e risonho

Que seja, ainda assim

Não vale qualquer sonho,

Que trago dentro em mim!...

Isto é um fraco esboço

D'uma outra vida e crê,

Que sinto-a, mas não posso

Dizer-te onde ella é!...

Se a Vida em nós começa,

Por esses sóes d'além,

Sobre a nossa cabeça.

Trabalha-se tambem!...

Mulher! mulher! quem sabe

Se é isto o que m'attrae

Aos céos, pois, tanto cabe

A Deus, que é justo e pae...

Lisboa, 1870.

V

CONSCIENCIA

Para um homem que aspira

Ao ideal da Belleza,

Não ha maior tristeza,

Magua maior não ha,

Que vêr escurecer-se-lhe

O ceu da noite escura

D'alguma ideia impura,

D'alguma paixão má!

Paixão que muitas vezes

A luz da nossa Ideia

Accende, inflama, atêa,

E depois nos attrae

Com tanto magnetismo,

Com tal encantamento,

Que o homem n'um momento

Vacilla, cega e cae!...

Cae, sim, do seio esplendido

Do mundo onde vivia

Na mais doce harmonia

Em paz co'os dias seus,

Para apagada a febre

Do seu fugaz delirio,

Achar-se co'o martyrio

De te perder oh! Deus!

Sem Ti, meu pae, que assombro!

Que noite tão completa!

Que acerba dôr me inquieta

Meu fragil coração!...

Voltar a vêr a alma

D'esperanças povoada,

E achal'a transformada

Em lugubre soidão!

Senhor! se desabassem

Á tua vóz as bellas

E limpidas estrellas

Dos ceus que não teem fim,

Eu creio que assombrado

Do horrendo cataclysmo,

O Sol, d'além do abysmo,

Seria egual a mim!

Eu lembraria a aguia,

Que a prole ainda implume

Deixando sobre o cume

De monte erguido ao ceu,

A fosse achar de subito

Na rocha alcantilada,

No ninho, fulminada

D'um raio que desceu!

Egual seria o quadro

Da minha consciencia,

Ao ver a tua ausencia

Fazer-se em mim, Senhor!

Que em volta do teu astro

Minha alma de poeta

É pallido planeta

Buscando o teu amor!

E eu sem ti nem vivo!...

Tu és, oh, doce esperança,

O seio onde descança

Meu ser e afinal

Não sei até dizer-te

O quanto soffreria,

Se vira extincto um dia

Em mim, teu Ideal!

Oh não mil vezes antes

Em carcere ermo e escuro,

Achar-me de futuro

A sós c'a minha dôr;

Extincta a luz dos olhos,

E as bellezas do mundo,

E o ceu azul profundo

Com todo o seu fulgor!

Tu crê que nem demandam

Os mundos inferiores

Fócos de luz maiores,

Por esse infindo azul,

Como eu o eterno centro

Das leis da natureza,

Do _Amor_, e da _Belleza_,

Que são meu norte e sul!

Oh Pae! se n'algum dia,

Eu vir, n'uma miragem,

Alguma falsa imagem

Do Bem prender-me aqui:

Desvenda a tua face,

E mostra-me o teu seio,

Que, mesmo embora em meio

Do abysmo, irei a ti!

Irei, tão instinctivo,

Tão amoroso e firme,

Eu sinto a attrair-me

A ti o teu poder,

Que eu vejo em ti o Norte,

Para onde se encaminha

A pura essencia minha,

Que sente, pensa e quer!

Irei vencendo, indomito,

Innumeros attrictos,

E escolhos infinitos,

E infindos escarceus,

Como essa vaga enorme

Do mar que não recua,

Seguindo sempre a lua

Que vê passar nos ceus!

Irei bem como a Terra

Seguindo eternamente

O rumo do oriente

A demandar a luz;

Bem como Jesus Christo

O rumo solitario

Da senda do calvario

Á busca d'uma cruz!

Irei cá d'este mundo

Onde tu me cedeste

A dadiva celeste

Da Rasão e do Amor:

Raios vitaes que mudam

Em luz a nossa essencia,

E a luz em Consciencia,

E esta em ti, Senhor!

Lisboa, 1869.

VI

REVELLAÇÃO

O LAGO

Scismava um dia na cruel sentença

Com que a Egreja fulmina a raça humana,

Deixando impura a fonte d'onde emana

O sangue que me anima, e a alma que pensa:

E ao passarem no ceu do meu destino

As nuvens da tristeza e da saudade,

Revellou-me o Senhor alta verdade,

Junto ás margens d'um lago crystalino!

Isto foi pelo mez do abrir das flôres,

Quando a vida celebra os seus noivados,

E o mundo, sob os verdes cortinados,

Parece um doce thalamo d'amores!

Estava um dia esplendido! a animal-o

Eu via o seio azul do ceu mais lindo

Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo

E tepido: era um gosto enamoral-o!

Como fecho da abobada infinita,

O Sol nos ceus, riquissimo objecto,

Com barras d'ouro irradiava o tecto

Do vasto pavilhão que o mundo habita!

Côres variadas, fórmas differentes,

N'um conjuncto de graças sem egual,

Debuxavam-se ali ao natural

Sobre o crystal das ondas transparentes!

Alvas manchas d'insectos pequeninos,

Envolvendo-se em giros caprichosos,

Como tríbus de povos venturosos,

Fruiam junto ao lago os seus destinos!

Pelas balsas cantava a toutinegra,

E as rolas modulavam doces côros,

No ar passavam fremitos sonoros

Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!

No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra,

Como notas d'uma unica harmonia,

Revellaram-me á plena luz do dia,

Enlevos que o prazer da vida encerra!...

E eu via tudo, e extatico scismava:

Se por ventura a colera divina,

Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina,

Do gremio dos felizes me affastava!...

E não podendo crer, embora obscuro

Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta,

De tanto sonho explendido replecta,

Atollada estivesse em lôdo impuro...

Ai! quando a Deus pergunto se prendeu

N'um pó que é vil o espirito divino,

Olho o espelho do lago crystalino

E não encontro o lago: encontro o ceu!

O mesmo que era em cima azul, immenso,

E a lampada brilhante que o alumia,

Lá no fundo do abysmo aos pés os via,

De sorte que em dois ceus era suspenso!

E quanto se ostentava em torno ao lago,

Os muros de verdura, a flôr mimosa,

O deslisar da nuvem vaporosa,

E a voltear do insecto incerto e vago:

Outro tanto animava, ao longe, e ao perto,

Aquella região d'azul vestida,

Onde a minha alma, em extasi embebida,

Contemplava na Terra um ceu aberto!

E emquanto extasiado a sós fitava,

Nas bellezas do lago transparente,

Aqui uma flôr, além, para o poente,

A nuvemsinha branca que passava,...

Eis senão quando, uma ave, porque visse

Insectos junto da agua socegada,

Desceu subtil, aerea e delicada,

E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...

O ponto ferido, em ondas borbulhando,

Desabrochou em curvas graciosas,

Como as folhas concentricas das rosas,

Ou lusidias cobras imitando!

E emquanto o impulso em torno se propaga

Em circulos risonhos: n'um momento,

Toda a cupula azul do firmamento

Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,

E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem,

Em doce paz, seu rosto reflectia

No crystalino espelho, por magia

Da lei do amor, a doce lei da imagem!...

Fere-me então bem intima tristeza,

Ao vêr aos pés, em sordido tumulto,

Um lymbo verde e escuro onde occulto

Estava um ceu tão rico de belleza!...

Lembrei-me então da minha vida insana,

De quanto sonho lindo anda desfeito

Nos intimos arcanos do meu peito,

Co'o tropel das paixões da vida humana!...

E as lagrimas cahiram-me uma a uma

Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram,

E ao contacto das coisas se extinguiram

Como aereos balões feitos d'espuma!

N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara,

Converte-me de novo o charco immundo

N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo

Formoso como os bens que imaginara!...

Scismei então por longo espaço e digo,

Que aos olhos meus por Deus fôra patente:

Que a alma humana póde, ingenua e crente,

_Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!_

Ah muito embora a dôr seu peito opprima,

O espirito, que abrange o mundo inteiro,

Póde vêr, quanto justo e verdadeiro,

Nos seios d'alma os ceus que estão por cima!

Maxima grande, maxima tamanha,

Tão repassada d'intima poesia,

Porventura d'egual sabedoria

Á predica de Christo na montanha,

Ah! sê, por entre as sombras da desdita,

A ponte aerea, o arco d'alliança,

Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança,

A Deus eleva a Humanidade afflicta!

Coimbra

Quinta de Santa Cruz

1871.

VII

MISSA PONTIFICAL

UM EVANGELHO

Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo,

E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo,

Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo

Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo.

Sentei-me sob um bosque estenso e solitario,

Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida;

O accaso conduzira-me a um vasto santuario,

Onde ia celebrar-se a communhão da Vida!

Debaixo do docel da mûrmura floresta,

Se um culto universal é justo a Deus se vote:

Estava o templo augusto armado todo em festa,

Faltando unicamente agora o sacerdote!

O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade...

E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente,

Surgindo como um Deus no azul da immensidade,

N'um carro triumphal, de raios resplendente!

Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas

Um sopro mysterioso, o espirito do vento,

Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas,

Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!...

Nos multiplos florões das trémulas janellas,

Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora,

Com magico fulgor scintillam, como estrellas,

Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora!

Nas naves, que sustêm a abbobada elevada,

Penetra triumphante a luz, suprema artifice!

Interprete de Deus, celebra a sua entrada

Com pompas, do Universo o maximo pontifice!

Assim que o sol sahio das brumas do horisonte,

A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos,

Trocaram entre si mil intimos segredos!...

Os passaros gentis, aladas creaturas,

Soltaram festivaes Hossana nas alturas!...

O sol triumphador, do mundo a vida accorda,

E esplendido festeja o eterno _sursum corda_!...

Estava em plena festa a Terra, mãe querida!...

E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!...

Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente,

Me disse a mim que sou seu terno confidente:

Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;...

Em intimo convivio unido o sol á terra,

E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso,

Permutam entre si os bens que a Vida encerra!...

A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!...

A todos por egual, a infindas creaturas,...

Que, em multiplo labor, e por differentes modos,

Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...

Áquelle que transpõe as portas da existencia

Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica

Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia,

Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..

Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade,

Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!...

É quem fecunda e rege os soes na immensidade;

Quem dá ao universo a paz em que repousa!...

Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!...

E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã!

E vens de longe aqui, sedento de poesia,

A namorar-me a mim, que sou a tua irmã!

Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos

Eternos de Verdade, e a missa vae findar!

Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos,

Em nome do Senhor, te quero abençoar!

Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso,

Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...

Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr,

Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!

Quinta da Beselga

1885.

VIII

AVÉ CREATOR!

Desprende pelo espaço as azas d'ouro,

Águia de Deus, no mundo extraviada!...

Pela patria celeste, a tua amada,

Vae em busca de Deus,

Cantando um hymno em honra do seu nome,

Que meu querer e instincto insaciavel

Te guiarão, qual bussola admiravel,

Pelos infindos ceus!

Senhor! venho invocar teu nome augusto,

Em face d'estes vastos horisontes!...

Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes,

Fallando-me de Ti,

Lançam-me n'alma um teu olhar divino,

E, com elle, um occeano de luz pura,

Que me trasborda em ondas de ventura

O que eu t'offereço aqui!

Não sob o tecto do sombrio templo,

Que a fé christã do povo erguera outr'ora

Como um tumulo, onde o homem commemora

A tua morte, oh Pae!...

Mas sob o tecto azul do Templo Eterno,

Perante o sol que passa dando a vida

Em teu nome, que esta oração sentida

Buscar teu throno vae!

Pois é--me triste a mim que as cousas brutas,

Ellas, sem alma, em gratidão me vençam:

E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam

Da sua eterna luz,

Converte-a em flôres, canticos e fructos,

E, n'um concerto alegre e harmonioso,

Tributa ao Sol um culto tão piedoso,

Que o peito meu seduz!

Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios

Do seu formoso olhar durante o inverno,

A amante debulhar-se em pranto eterno,

Das gallas se despir;

Em valle e monte as folhas, com tristeza,

Dos troncos com os ventos desprendendo-se,

E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se,

Raivoso aos ceus bramir!...

Mas quando o Sol de novo a aquece e anima:

Oh que effluvios d'amôr então contemplo!...

Traz o amante a alleluia ao escuro templo,

E as trevas dão fulgôr;

Espalma a folha o ramo resequido,

E, ao som do mar que canta de mansinho,

Da terra brota a flôr, da haste o ninho,

Do ninho surge o amor!

Seja assim o meu peito! Que a minha alma,

Buscando o foco eterno e resplendente

Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente:

Me eleve o coração

A trasbordar torrentes de harmonias,

Que entoem pela voz das creaturas:

Santo! Santo! tres vezes nas alturas,

Ao Deus da creacão!

Pois eu que sou o espirito das cousas,

O verbo inspirador, a alma, a vida;

Sinto em meu peito a gratidão devida

Á tua mão que attrae

Em giro eterno os mundos do Universo;

E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto,

Não hei de só ficar injusto e ingrato

Para comtigo, oh Pae!

Seja pois o meu canto a voz do interprete,

Que moldando nas formas da palavra

A vida universal que em tudo lavra

Co'o sopro animador:

Eu possa vêr a Terra envolta em canticos,

Sobre as azas de luz da alma humana,

Remontar-se ás origens d'onde emana,

As tuas mãos, Senhor!

Quinta da Beselga

1871.

IX

SURSUM CORDA!

Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento

D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha,

Por entre um fogo eterno, expande o movimento

Da machina febril do mundo que trabalha!

E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa,

Qual perola engastada em fulgidos brilhantes,

Derramas tua luz serena e voluptuosa

Nos seios virginaes das timidas amantes:

C'o os vossos esplendores,

Pela amplidão dos ceus,

Cantae altos louvores

Ao espirito de Deus!

E tu, mar rugidor! austero cenobita,

Que em vastas solidões gemendo os teus pesares,

Levantas o teu canto á abbobada infinita,

Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares!

E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas

Fontes que derivaes das fendas dos rochedos,

Ás flôres murmurando, em musicas divinas,

De amor e de ventura uns intimos segredos:

Mudae as harmonias

Da vossa eterna vóz

Em ternas homilias

Ao pae de todos nós!

Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas,

Altivas demandando o azul do firmamento;

Que encheis as solidões de musicas estranhas,

Se passa sobre vós o espirito do vento!

Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso

Da luz que envia o sol da abbobada azulada,

Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso,

Como o habito subtil d'uma alma enamorada:

A musica e o perfume

Que desprendeis, votae

A quem em si resume

O mundo inteiro e é Pae!

Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas,

Altivos como os reis, indomitos senhores,

Debaixo do docel das mûrmuras florestas,

Rugis como um trovão os fervidos amores!

E vós, corças gentis e timidos cordeiros,

Que em vossos corações e almas bem formadas,

Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros,

E á carne em podridão as hervas perfumadas:

Louvae a quem fizera,

Co'o mesmo engenho e amor,

As fauces d'uma fera,

E o calice d'uma flôr!

Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes,

E todos vós que entraes no giro da existência;

Que haveis nas regiões das cousas immortaes,

Por synthese suprema, a _luz da consciencia_:

Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade,

Louvemos todos nós n'uma oração sentida,

Em côro festival que attinja a immensidade,

O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida!

Cantemos, creaturas!

Pela amplidão dos ceus,

Hossana nas alturas

Ao espirito de Deus!

Carvalhaes, 1886.

X

AOS CATHOLICOS

Todos vós que sois sinceros crentes,

Que oraes a Deus no intimo do peito,

Oh mysticos christãos;

Embora tenha crenças differentes

D'aquellas que seguis, eu vos respeito,

E julgo como irmãos!

Eu amo a Deus; depois a Humanidade;

Depois os bons, e d'estes o primeiro,

É Christo, o Redemptor!

Não sendo egual em tudo á Divindade,

É, como justo e homem verdadeiro,

Meu mestre e meu mentor!

Embora por fanatico me tomem

Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso,

Que o Martyr da Paixão

Parece-me tão grande como homem,

Que até sinto vertigens quando messo

Seu terno coração!...

Oh meu Jesus! nas luctas pela vida,

Por onde tanto naufrago fallece

No meio da viagem:

Minha alma soffredora e dolorida,

Cahiria tambem se não tivesse

A tua doce imagem!...

Eu que creio que o facho da sciencia

Nos ha de revellar, ao fim de tudo,

Que em nós se concilia

Rasão e Fé, Justiça e Consciencia:

Ah quero-te Jesus! por meu escudo,

Por meu amparo e guia!

Na Sé de Lisboa

na quarta feira de trevas

1888.

XI

FÉ E RASÃO

A CRUZ E O PÁRA RAIOS

Da velha cathedral, esbella e rendilhada,

Votada a ser mansão do Deus, author do mundo,

Na flecha a mais gentil, campeia abençoada

A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo!

Nos impetos da fé, cortantes como a espada,

O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo,

Aponta á multidão, humilde e ajoelhada,

Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo!

Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa,

E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios,

Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta!

Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios,

Temendo que a derrube o fogo da tormenta:

Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!...

Outubro de 1888.

XII

AMOR E PROVIDENCIA

Em quanto eu, alta noite, velo e lido,

Por vós mantendo innumeros cuidados,

Dormis, caros filhinhos, socegados

Em torno a mim o sonho appetecido!

Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido

Meus esforços por vêr realisados

Vossos sonhos gentis e perfumados:

Ampara-vos um peito estremecido.

Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço:

Com suprema bondade e sapiencia,

Rege os mundos que rolam pelo espaço!

Esse Alguem é o Amor por excellencia,

O formidavel e invisivel braço,

E o olhar que nunca dorme==_a Providencia_==!

Lisboa, 1885.

XIII

Á GUERRA!

O QUE EU SINTO...

Se vejo com pavor as luctas carniceiras

Que empenham as nações, chamadas as primeiras,

Nos campos da batalha,

Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro,

Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro:

==É Deus que ali trabalha==!

Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve,

Nos ceus ha um limite além do qual em breve

Fallece a aza e taes

Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne.

O dia ha de chegar em que Deus os condemne

E brade-lhes==Não mais==!

No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca

A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca

Que engeite o vôo alado!...

Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra

A fonte de chrystal, de cujas aguas medra

A arvore, a flor, o prado!...

E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!...

Ou odio figadal, intrinseco, tamanho

Que a todos nos divida?!

Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco

Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco

D'um Cezar que decida,

D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo,

Que um homem, cujo peito infinito e profundo

Abrange a Terra e os Ceus,

Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia,

A luz, o ar, a vida, a força, a providencia,

Que deste-lhe, meu Deus?!

Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça

Obrigue-os a expiar com fronte submissa

Dos crimes o estendal

Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia,

Servindo de lição, ficando por memoria,

Em prol do teu Ideal!...

E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio,

E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio

Signaes _de nova Luz_!...

As crenças do Passado estando já em terra,

Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra

Os sonhos de Jesus!...

E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo,

Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento,

E o espirito divino

Aos nossos corações! Que a toda a creatura,

Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura,

A todos deu destino!

Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos,

Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos,

De fito no Senhor,

De fito no Ideal, minha alma não se inquieta:

Confia e sobe a Deus, é como a borboleta

Que vae poisar na flor!

Bussaco, 1870.

XIV

Á PAZ DOS POVOS

HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR

De lobo te foi dado outrora o nome,

Lobo que a propria especie devastava

Cruento e fero, qual não viras nunca

Leões, pantheras, tigres ou chacaes!...

E a fera, quando a fome

A incita, é quando crava

O dente e a garra adunca

Nos miseros mortaes.

Da massa do teu cerebro colhendo

A luz consciente e pura das ideas,

Concebes mil engenhos homicidas,

Inventos d'infernal destruição!

Com elles, monstro horrendo!

Ha seculos semeias,

Em guerras fratercidas,

A morte e a assolação!...

Mas como as forças cosmicas da Terra

Cessaram suas luctas de gigantes,

Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta,

Dois mundos revestidos d'esplendores,

O mineral que encerra

Os fulgidos brilhantes;

E o vegetal que ostenta

O olhar gentil das flores:

Assim as mil paixões que a tanto custo

Contem teu peito e o rubro sangue agita,

Por ultimo hão de ter a vida calma

Que impõe por norma a tudo a Providencia;

E o Bello, o Bom e o Justo,

Na sua acção bemdicta,

Levar-te aos seios d'alma

A paz da consciencia!

Do sol os raios que dão vida ao globo;

Da vida a força multipla que actua

Em prol de cada qual, para que tomem

Quinhão no Bem, que é dado como a luz:

Reclamam nos que o Lobo,

Da historia se destrua,

E dê lugar ao homem

Sonhado por Jesus!

Se o cahos do teu peito foi sequencia

Do cahos primitivo da natura:

Terá tambem destino egual ao d'este;

Dará um quarto mundo, o da Verdade!...

O da alma, cuja essencia

Incorruptivel, pura,

Procria a luz celeste

Do Bem, na Humanidade!

Ver-te-has então qual Semideus Consciente!

O sangue que pecorre em tuas veias,

Origem dando a fulgidas doutrinas,

Ás nitidas noções das coisas bellas:

Tua alma um resplendente

Santuario, onde as ideias

Serão luzes divinas,

Mais puras que as estrellas!

Antithese da Vida do Passado,

Compete-te integrar na Terra os Povos;

E, chave do vastissimo problema

Da Vida humana: honrando o Redemptor,

Nos ceus tem Deus traçado

Aos teus destinos novos,

Por synthese suprema,

A Paz, o Bem, o Amor!

25 d'abril de 1898.

XV

AO HOMEM

Segundo as tradicções que vão sumir-se

Na noite secular das priscas eras:

Rugiram contra ti, Homem, as feras,

E as coleras do mar;

Dos ceus revoltos os trovões e os raios;

Qual reprobo vivias no universo

Inerme, nu e só, na sombra immerso,

Sem Deus, sem luz, sem lar!...

Apoz infindos seculos de lucta

Co'as forças implacaveis da materia,

Soffrendo, em toda a escala da miseria,

O frio, a fome, a dôr:

Venceste, e oppões ás lugubres cavernas,

Á escura habitação dos trogloditas,

Os fulgidos palacios onde habitas,

Conscio do teu valor!...

Imperios contra ti ergueram despotas,

Quaes moles collossaes architectadas,

Assentes no prestigio das espadas,

Nas mãos d'um Pharaó,

D'um habil Julio Cesar; mas as moles,

Minadas pela acção do povo obscuro,

Cahiram como cae um fragil muro

No chão desfeito em pó!...

No intuito de livrar teu grande espirito

Dos vinculos do mal e enobrecel-o,

Tomas-te a Jesus Christo por modelo

Das tuas concepções;

D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma,

De ti fizeram novamente escravo,

Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo,

Partiste os teus grilhões!...

Por ultimo lançando mão das forças

Da Terra tua mãe, das leis da Historia:

Apenas em tres seculos de gloria,

Com mil prodigios teus,

Mudas-te totalmente a face ao mundo,

E propões-te a fazer o mesmo á alma,

Porque esta, resplendente, justa e calma,

Triumphe á luz dos céus!

Forjou a mão de Deus no sol teus raios!...

D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio

Do teu almo poder! o grão prodigio

Das tuas concepções,

Que em marmore e crystal, em prata e ouro,

E em tellas formossissimas, transmittes

De mão em mão, sem conta, e sem limites,

Ás novas gerações!...

Na terra, erma de Luz, Homem surgiste,

Trazendo no teu rubro sangue a Ideia,

A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa,

E o faz descer do céu

Humilde como um cão!... Poder terrivel,

Que Jupiter temeu, quando, iracundo,

Mandou prender, por dar exemplo ao mundo,

Na rocha a Prometteu!...

D'ahi a mola occulta, a força ingenita,

A causa porque tu, no ardor da guerra,

Revolves sem cessar o céu, a terra,

A alma e o coração,

E fazes e desfazes, sem descanço,

Systemas, religiões, philosophias;

Depões a Deuses, reis e tiranias,

Em nome da Rasão!...

Por veres quem tu és e quanto vales:

Das proprias obras faze o claro espelho,

E escreve em face dellas o evangelho

Da nova religião,

O authentico, o real, o verdadeiro;

Que em vez do degradado filho d'Eva,

Com ligitimo orgulho a Deus eleva

Tua alma e coração!

Senhor das energias infinitas

Do mundo, com que Deus teu pae reforça

Teu multiplo poder: expulsa a força

Que os despotas produz;

Levanta novamente altar e templos

Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia,

Afim de que na Terra a Consciencia

Impere em plena luz!

Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!...

E Amôr, se toma as normas da Justiça,

Fará com que, empenhando-te na liça

D'um ideal melhor:

Floresçam sobre a Terra, em prol de todos,

Honrando a Deus, servindo a Humanidade,

Os sonhos de pureza e de bondade

De Christo, o Redemptor!...

Terás no espaço os soes por companheiros,

Comtigo permuttando noite e dia,

Na sua eterna e placida harmonia,

Os mil problemas seus!...

D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra:

Verás com resplendor a tua Ideia,

Chamando-a á vida, em tudo onde campeã

O espirito de Deus!

1892.

XVI

Á MULHER

Senhor da Força, nós, o heroe lendario,

Da Terra o domador, o sabio, o forte,

Dir-se-ia que jurámos ante a morte

Guerra d'irmão a irmão!...

Mais féros do que os tigres, destruimo-nos

A ferro, a fogo, a polvora, a metralha,

Deixando, pelos campos de batalha,

O sangue, a assolação!...

Mudou agora o Eterno ao mundo a rota

Que ha seculos trazia,... e novos astros

Despontam no horisonte, e em nossos mastros

Mais rutilos tropheus!...

Em vez da guerra truculenta e impia,

Impõe-nos por principio a Paz dos Povos,

Que impavidos demandam mundos novos,

Nova luz, novo Deus!...

Fechado para sempre o ferreo cyclo

Da guerra universal, obscuro berço

Do velho mundo barbaro, inda immerso

Nas lendas dos heroes:

Compete a Ti, Mulher, filha dilecta

De Deus, c'roar na Terra a grande obra,

Que em fulgido progresso se desdobra,

Á clara luz dos soes!...

Missão mais nobre á vida humana é dado:

Juntar e repartir de muitos modos,

Por cada um de nós, e em prol de todos,

Do Bem a eterna luz,

Fazendo com que caiam na nossa alma,

Qual chuva em messe loira e movediça,

N'uma missão d'amor e de Justiça,

Os sonhos de Jesus!...

Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo!

E amor, tomando as gallas da Belleza,

As normas de Justiça, a mãe, a deusa

Das novas gerações:

Ao teu celeste influxo, posto á sombra

Da mãe de todos nós, a _Humanidade_,

A paz será na Terra, e na Verdade

Os nossos corações!...

Belleza e Amor, unindo-se, fizeram

Do teu mimoso ser um relicario,

Onde a mão do divino estatuario

Os sonhos seus guardou!...

D'encantos mil, conjuncto incomparavel!

A Deus já mereceste tal conceito,

Que só do amor divino do teu peito,

A vida confiou!...

Teu lindo rosto, espelho da sua alma,

Transporta-me a ideaes de tal apreço,

Que em frente d'elle extatico estremeço,

E ponho-me a scismar:

Se entre as ondas de graça e de belleza,

Que lançam sobre mim seus olhos ternos,

Está ou não occulto a bemdizer-nos

De Deus o proprio olhar!...

Tem jus as niveas formas do teu corpo

Ao flácido velludo, á fina seda,

Primor da industria humana que arremeda

As petalas da flôr!

Rainha! traja mantos d'ouro e purpura,

A doce perl'a, o fulgido brilhante,

E tudo quanto esplendido levante

Na Terra o teu amor!

Amor se symbolisa n'um menino,

Dos ceus gentil e alado mensageiro,

Trazendo atraz de si, como um cordeiro,

Pacifico leão!

O magico poder que a fera doma,

A força de que se arma esse innocente

És tu mulher, e a fera obediente

O nosso coração!

Conscia de Ti, das leis da vida, impera!

E aos pés verás as almas subjugadas!

Tem mais poder que o fio das espadas,

Um riso e olhar dos teus!

Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo,

Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique,

Nos faça com que a alma humana fique

Mais proxima de Deus!

1892.

XVII

AOS FILHOS

Trazidos pelo Amor, que por instantes,

O veu ergue á Verdade,

Por nós á luz vieram, quaes prestantes

Peões da Humanidade!...

Amor é quem dos ceus nos abre a porta,

Nos deixa vêr o intuito

De Deus na Terra, e a elle nos transporta

Da amante o olhar fortuito!

Em nós n'um sonho lindo tendo origem,

Se o sonho a Deus encerra,

As sabias leis da historia humana exigem,

Que o sonho desça á Terra!...

Dos paes vingasse o amor, que este o faria

Entrar na realidade,

Expondo a divinal sabedoria

Em plena claridade!...

Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia

Seus raios sempre novos;

E a Terra os bens innumeros que cria

Em paz, a bem dos Povos!

Em vez de irmãos maleficos eivados

De odios que o sangue atiça,

Os bons e os maus ver-se-iam congraçados

Em nome de Justiça!

Em frente das pacificas moradas,

Jasmins, lyrios e rosas!...

E as ruas que pisamos marchetadas

De pedras preciosas!

Tal o sonho que passa pela mente

D'um pae creando os filhos,

E n'essa fé remove deligente

Milhares d'empecilhos!...

Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto

Cruel co'o odio eterno,

Lhe põe em derredor, injusto e ingrato,

Em vez do ceu, o inferno!...

Ás vezes chega a ter-se horror ao homem,

Ás suas impias luctas,

Ao termos de entregar o peito joven

D'um filho ás feras brutas!...

Antithese do Bem em que inda espera,

Pergunta dolorido

Um pae a Deus: se accaso lhe valera

Seu filho ter nascido!...

Emfim é lei, e a lei, ideal supremo

Bemdicto e sublimado,

Fará com que passemos d'este extremo

Do mal, ao Bem sonhado!...

De Deus a Idéa amplissima, infinita,

Qual filha ao lar paterno,

Em torno a Deus explendida gravita,

No seu percurso eterno!

E tal como do cahos pavoroso,

Que a custo eu mal devasso,

Surgio mais tarde o mundo esplendoroso,

Que rola pelo espaço!

E á eterna luz dos soes no firmamento,

Celeste peregrino,

Caminha sem cessar no seguimento

D'um Ideal Divino:

Assim o coração febril se arrasta,

Na sua lucta immensa,

Atraz do Bem Supremo, e tanto basta

Por base á minha crença!...

Buscando o summo Ideal por entre antitheses,

Fazendo e desmanchando:

O espirito concebe as largas syntheses

De Deus, de quando em quando!

Ao fim de cada qual resurge a Vida,

E muda os moldes velhos

Por outros que se ajustam á medida

Dos novos evangelhos!...

Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!...

Os criticos deparam

Co'os netos desmachando um dia os templos,

Que seus avós sagraram!...

D'ahi os odios vãos de fanatismo;

Os multiplos revezes,

Que assolam as nações co'o cataclysmo

Das crenças muitas vezes!

Quem do alto vé, no entanto, a historia humana,

Contempla sorridente

A marcha dos destinos porque emana

D'um Pae ommisciente!

Passem nos ceus, com rapidez tamanha,

Os astros diamantinos;

Que a terra os segue; a terra os acompanha

Eguaes são seus destinos!...

Aquillo que ha de vir e que deriva

D'aquillo que hoje somos,

Que em si contém do Eterno a parte viva,

Nos filhos o depomos!...

Os filhos são da arvore da vida

A flôr dos novos fructos,

A quem de Deus a essencia é transmittida,

Com os seus mil attributos!

E os paes então o fructo assasonado,

Já proximo da queda;

Com elles cae a parte do Passado

Que é morta, e Deus arreda!

E quem nas leis divinas confiando,

Á fulgida seara

Do bem se consagrou, não morre quando

Dos vivos se separa!...

Contente desce em paz á sepultura,

Na crença de que os filhos

Verão mais tarde em plena formosura

Dos sonhos seus os brilhos!

Na marcha ascencional da humana historia,

Que a mão de Deus conduz,

O filho entrou na Luz que é transitoria,

O pae na eterna Luz!...

Á farta os vermes seu cadaver róam

Na campa onde se esvae!

Sua alma triumphante e os soes entoam

Hossana a Deus que é Pae!

Abril de 1898.

XVIII

Á HUMANIDADE

Estrellas que rolaes no espaço ethereo

N'um vertice de luz vertiginoso,

E em numero sem conta e sem repouso,

De Deus cumpris altissimo mysterio!

E vós flôres gentis, purpureas rosas,

Roxas violetas, candidas boninas,

Que abris, tomando formas peregrinas,

Á luz do Sol as petalas mimosas:

Commigo erguendo a vóz

Ao throno da Verdade,

Saudae a Humanidade,

Que é mãe de todos nós!

Materno amor, que tanto admiro e acato,

Perenne luz vital do Ser Supremo,

Ante cujo esplendor confuso eu tremo,

Se sondo o teu Santissimo mandato!

Ou sejas tu mulher juncto do berço

Com terno olhar velando o teu filhinho;

Ou tu maviosa rola no teu ninho;

Bemditas no concerto do Universo:

Por tão divinos bens,

No intimo do peito,

Votae sentido preito

Ao symbolo das mães!

Mulheres que prestaes culto a Maria,

Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça,

Doçura, vida e esperança onde se enlaça

O vosso coração de noite e dia!

E vós ingenuas multidões que hei visto

Com ar tristonho, humilde e miserando,

Nos templos de mãos postas adorando

Por vossa padroeira a Mãe de Christo:

A Virgem que adoraes,

Tornou-se a precursora

Da mãe que surge agora

Aos olhos dos mortaes!

A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva,

Levanta aos ceus os filhos redemidos!

Em cantigos transforma os seus gemidos!

No Bem o mal, na doce luz a treva!

A mãe que os filhos todos encaminha

Ao Summo Bem, que traz no peito occulto;

Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto;

Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha==

«Bemdito sê nos ceus!»

«Bemdito sê na Terra!»

«Sacrario onde se encerra»

«O Espirito de Deus!»

Oh povos que viveis sob a vigilia

Do olhar supremo em toda a redondeza,

Formando pelas leis da natureza

E os vinculos moraes, uma familia:

Sabei que cada qual, tendo-a comsigo,

Trará como um clarão na consciencia,

Um rutilo fanal, a Providencia

Que o pode redimir na hora do perigo!

Interpretes de Lei

Divina, e para exemplo,

Em honra d'ella um templo

Na alma humana erguei!

Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes,

Vós todos que formaes a eterna cahorte

Dos bons, dos que perante a vida e a morte,

De Deus esparsem raios resplendentes:

Por preito á obra santa e redemptora,

Que põe a Terra e os ceus em harmonia,

Como alto solta alegre a cotovia

A limpida canção á luz d'aurora:

Á minha unindo a vóz,

Cantemos creaturas,

Hossana nas alturas

Á Mãe de todos nós!

1897.

XIX

AO NOVO CYCLO HISTORICO

AO TRIUMPHO DO ESPIRITO

Homem! sob o docel das fulgidas estrellas,

Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo,

Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas,

A custo iniciando o teu Poder no mundo!...

A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio,

Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria,

Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio

Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!...

No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem,

Rompia ainda incerta, envolta em serração,

Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem

Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!...

Que seculos sem fim primeiro que desvendes,

Dos vinculos da carne, esse fanal divino!...

Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!...

Que espiritos do mal, turvavam teu destino!...

Que o digam as ficções do extincto fetichismo!...

O numero sem fim dos deuses dos selvagens!...

As tetricas visões da Fé no Judaismo!...

Do inferno dos christãos as lobregas voragens!...

Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora

De veres sem pavor a estrada percorrida!...

De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora

Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!...

Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha

Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas,

Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha,

Medonhas convulsões e guerras fratricidas!...

Decerto obedecendo a occulto e grão motivo,

No plano universal da Vida a que és sugeito,

As mil conflagrações do cahos primitivo

Vieram a surgir de novo no teu peito!...

Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita,

Dos povos do universo ás multiplas colmeias:

Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita;

O outro ao resplendor sereno das idéas!...

Inicio da missão primeira a que és chamado,

Tu vês, em pleno horror, da força o predominio

Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado,

Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!...

Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno,

Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!...

Tem odios figadaes, que lembram os do inferno,

Que foi a projeção de tempos tão sombrios!...

Em face então do mundo acceso todo em guerra,

Proclamas-te senhor e rei da creação!

E levas sem quartel a morte a toda a Terra,

Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!...

Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre,

Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria,

Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre,

Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!...

Atraz de mil visões formadas como especulos

Que alcançam do Ideal a luz sempre distante,

Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos,

Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante!

Os proprios animaes, aquelles que escolheste

Por symbolos fieis do teu poder, é certo

Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe

Com elles por fatal e superior decreto!...

A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema,

É a mesma a que attingio o propio cahos por meta;

Nos páramos do azul os soes a teem por lemma

Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!...

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