MEDITAÇÃO

A nocturna lembrança consumida

Da tua horrivel morte dolorosa,

Enevôa de lagrimas a vida...

E sinto a luz tornar-se duvidosa,

Tocando a minha fronte que lhe gasta

A seiva etérea, a fluida côr viçosa.

O meu olhar maldito logo afasta

O Sêr que ás suas lagrimas empece,

E o perfil animado lhe desgasta!

O meu olhar as cousas anoitece...

E elas choram na sombra e na incertêsa,

A minha propria dôr... E eis que aparece,

Deante de mim, o Espectro da Tristêsa...

E tudo transfigura... E eu fico a vêr,

Como através da Morte, a Naturêsa...

O berço é cova. Que é nascer? Morrer.

Quem abre ao sol os olhos, escravisa

A alma, a luz espiritual do sêr...

Um rio de emoção, em mim, deslisa...

Para cantar se fez pequena fonte;

Seu canto é bruma pálida e indecisa.

E fito, de olhos tristes, o horisonte:

Nele me perco em nevoa: sou distancia...

Intima cruz a erguer-se em tôsco monte...

Vésper, sorriso de oiro, luz, fragancia

Da noite que amanhece, ao teu fulgôr,

Vejo Espectros que são da minha infancia...

Formas mortas que nem meu proprio Amôr

Anima,--ele que d'antes animava

A sombra, a pedra, as arvores em flôr!

E como outrora tudo me encantava!

Como perdi no turbilhão dos dias

O sabôr que nas cousas eu gostava!

Tristêsas são phantasmas de alegrias...

E entre Phantasmas vivo... Ó meus amôres,

Folhas mortas, outomno, ventanias!...

Sombras da meia noite! Mãe das Dôres

Em teu altar sósinho, na capela

Do monte sem romeiros e sem flôres!

Ó Noite! Virgem triste! Êrma Donzela!

Se eu fôra sombra de alma adormecida,

Silencio de alma, solidão de estrela?...

Mas não; eu vivo e penso n'esta Vida;

No Mal victorioso e na Bondade

Quasi sempre ultrajada e perseguida!

Vejo a Inocencia ás mãos da Crueldade

Morta, desbaratada, e vejo a aurora

Alumiando esta negra, ferrea edade!

Vejo um pequeno Anjinho que enamora

Meu comovido espírito encantado...

E divinos sorrisos ele chora,

E só de vê-lo, eu sinto-me sagrado!

E fica todo em flôr meu coração,

Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado!

E, súbito, lá vae: é sonho vão!

E sobre mim, afflicta, a noite desce:

Maré cheia de treva e solidão.

E o sangue em minhas veias arrefece...

Á altura do meu rôsto, vejo o Mêdo

Que, nos êrmos crepusculos, me empece!

E como tudo é sombra, dôr, segrêdo!

De longe, aspectos de alma que nos falam;

De perto, brutas formas de rochedo!

Quantas intimas dôres nos abalam!

Porque não ha no mundo quem as ouça,

As dolorosas vozes que se calam!

Ó gente enamorada! Ó gente môça!

Que, de repente, ao tumulo baixaes,

Qual o vosso pecado? a culpa vossa?

Ó Procissão das lagrimas, dos ais,

Deante de mim, passando eternamente

A caminho das sombras sepulcraes!

Dôr sem fim, sem principio, dôr presente,

Martirisando as almas, e sobre elas

O sorriso de Deus indiferente!

O Deus que põe na face das estrelas

Nodoas de sombra e enfeita com as flôres

Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas;

O Deus acêso em tragicos furôres,

Que mata as creancinhas sem peccado

E parece viver das nossas dôres,

E fez do nosso chôro o mar salgado,

E fez da nossa angustia um êrmo outeiro,

E sobre ele Jesus crucificado;

O Deus que me tornou prisioneiro,

E que transforma tudo quanto eu amo

Em desfeita visão de nevoeiro;

Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo,

É profundo silencio, indiferença,

A propria sombra morta que eu derramo...

Remoto Deus--Phantasma, sem presença,

Que em materia de dôr edificou

As arvores, o Sol, a noite imensa,

E em doloroso barro alevantou

Minha figura tragica e reprêsa,

Num impotente, empedernido vôo;

É o Deus do Abysmo, o Pae da Naturêsa,

Nocturno Deus da vida material,

Divindade da fúnebre Tristêsa;

O Deus creador das Trevas, contra o qual

Sósinho, se ergue em mim, mas sem temor,

O meu divino Sêr espiritual;

Meu Sêr heroico acêso em puro amor!

Sol comovido, ardente meio dia,

Trespassando de luz a noite e a dôr!

Meu Sêr, onde se muda em alegria

A corporea tristêsa; onde a Materia

Se faz alma perfeita de harmonia;

Meu Sêr que afirma o Bem, ante a miseria

Das transitorias cousas; que alevanta,

Contra a sombra do inferno, a Luz etérea!

Meu Sêr espiritual que, alegre, canta,

Se, por ventura, eu choro desolado,

E que os Phantasmas lúgubres espanta;

Meu Sêr creador do Espírito sagrado,

O Redemptor das lagrimas, dos ais;

Senhor dum novo Olimpo sublimado...

Novo Orféu nos Abysmos infernaes.

Elegias · 第 30 / 41 题