DUAS SOMBRAS

Pelas tardes divinas,

Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas,

Eu vejo duas Sombras pequeninas,

Andando de mãos dadas.

Como duas creanças que elas são,

Percorrem, a brincar,

Esta minha infinita solidão;

E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar...

Bate-me o coração; caminho... Na distancia,

Através do crepusculo divino,

Vejo a Sombra infantil da minha infancia

E a Sombra do Menino!

E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo

De as vêr fugir, assim...

Seus Vultos de chimera e de segrêdo

Tremem deante de mim...

E como se parecem!

O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura...

E ao pé d'elas as cousas se enternecem,

E este meu coração aberto em sepultura.

Durante a tua vida, meu Amôr,

Quantas vezes, ao ver-te, imaginava

Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr!

E ainda mais: pensava

Que eras a minha propria Infancia novamente,

Mesmo deante de mim, resuscitada

E brincando comigo alegremente,

N'esta velha Paisagem bem amada,

Terra da meia noite, alma do outomno...

N'esta casa velhinha, evocadora,

Tocada de luar, de sombra e de abandono,

Da alegria de outrora...

E por isso, no dia em que morreste,

Quando tudo era lagrima, a distancia,

Coração, duas cruzes padeceste;

Duas mortes soffreu a minha infancia.

Elegias · 第 28 / 41 题