IV

Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o

desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser

intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.

Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito

embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada,

porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos

desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a

resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.

Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella

nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a

propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente

com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta

carta.

Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle

vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o

offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro

preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções

de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.

Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.

--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?

--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me

d'elle.

--Minha sobrinha?!

--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse

dos meus rendimentos por vinte annos...

--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.

--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui

creado na opulencia, e ella...

--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha.

Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.

--Não entendo...

--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.

--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?

--Migalhas.

--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe

esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem

castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha

especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o

homem que teve.

--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.

--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou

deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,

esse tudo era meu.

--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!

--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella

me repellisse.

--E se ella o abraçasse na sua pobreza?

--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria

hoje a feliz virtuosa que foi.

--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela

esperança...

--Esperança!...

--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me,

sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é

um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este

mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam

empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da

pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe

fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de

ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem

se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro

da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e

esperança...

Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão

de palavras qual d'ellas mais tocante.

Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:

--Vae, sr. Alvaro?

--Irei, se assim o quizer.

As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas

que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a

florir, para fructos abençoados.

V

O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia

constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém,

desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.

Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas

accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe

esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si

proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas

primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar

sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia

quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.

A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as

acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro,

tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da

soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca

poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora

entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria

constante lh'a estava descarnando sempre.

Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se

Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em

miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará

no coração d'esse Lucifer despenhado.

Lagrimas Abençoadas · 第 99 / 115 题