Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o
desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser
intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.
Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito
embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada,
porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos
desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a
resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.
Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella
nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a
propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente
com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta
carta.
Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle
vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o
offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro
preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções
de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.
Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.
--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?
--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me
d'elle.
--Minha sobrinha?!
--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse
dos meus rendimentos por vinte annos...
--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.
--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui
creado na opulencia, e ella...
--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha.
Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.
--Não entendo...
--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.
--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?
--Migalhas.
--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe
esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem
castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha
especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o
homem que teve.
--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.
--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou
deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,
esse tudo era meu.
--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!
--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella
me repellisse.
--E se ella o abraçasse na sua pobreza?
--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria
hoje a feliz virtuosa que foi.
--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela
esperança...
--Esperança!...
--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me,
sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é
um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este
mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam
empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da
pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe
fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de
ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem
se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro
da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e
esperança...
Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão
de palavras qual d'ellas mais tocante.
Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:
--Vae, sr. Alvaro?
--Irei, se assim o quizer.
As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas
que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a
florir, para fructos abençoados.
V
O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia
constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém,
desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.
Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas
accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe
esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si
proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas
primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar
sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia
quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.
A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as
acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro,
tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da
soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca
poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora
entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria
constante lh'a estava descarnando sempre.
Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se
Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em
miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará
no coração d'esse Lucifer despenhado.