O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte
de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae
lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á
dissipação.
Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.
Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns
contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de
tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.
Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava
á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca
de uma somma quasi egual ao valor d'elles.
Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se
arrependesse, apressou o contracto.
O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma
para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as
sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto
logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!
Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo
interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos
d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que
seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para
uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe
aproveitasse depois de uma lição amarga.