XXVIII

Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o

seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho

alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha,

a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o

eram.

Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:

--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É

homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu

pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria

vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos

com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade

para o receberes.

E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho

Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O

claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade

onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o

velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes,

pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.

Siveira apertava a mão do padre, e dizia:

--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os

padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha

magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle,

e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...

Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos

os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a

christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as

provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.

Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O

velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza

para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma

secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias

possiveis n'um convento.

Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um

ceitil em quanto pudesse trabalhar.

Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões,

demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira

queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto

replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua

obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir

na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia

ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos,

porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.

Lagrimas Abençoadas · 第 95 / 115 题