Era assim a carta de Maria a seu marido:
«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do
teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento,
tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer
e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo,
cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se
não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer
que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.
«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.
«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da
liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o
eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do
remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas.
Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra
aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me
surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que
exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito
de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança,
nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.
«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este
titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o
grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos
suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com
arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu
tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que
m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.
«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e
vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque
não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das
tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.
«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida
obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu
caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na
sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos
olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na
simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole.
Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá
contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me
deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar
as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.
«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração,
quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de
ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára
mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.
«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por
aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu
que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até
que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia
lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu
não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae,
tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu
conto com a bondade da sua alma.
«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo,
porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o
teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus
ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia
sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de
allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu
farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito.
Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a
mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás
sempre uma irmã.
«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de
que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha
vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não
fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem
filha do espirito.
Adeus.