O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no
quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões
são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza
n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e
triviaes.
O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!
Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e
mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o
hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,
onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza
quizera algumas vezes abafar.
--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.
--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.
--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho...
Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.
--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um
sorriso motejador.
--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que
pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a
materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é
simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?
--Sim.
--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que
é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_.
Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia:
esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta
alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma
solemne pirraça á tristeza.
O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi
para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este
silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas
de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O
conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro
seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.
--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente
chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje
conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo
gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o
olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não
pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?
Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só
agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do
discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O
predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto.
Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia
servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não
lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um
padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as
caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o
coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava
Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos
bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade,
que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem
da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com
esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e
ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a
impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado
pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte,
uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos
arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na
presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na
alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de
verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo
da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos,
que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora
entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que
nunca ouviram.