XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no

quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões

são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza

n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e

triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!

Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e

mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o

hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,

onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza

quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho...

Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.

--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um

sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que

pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a

materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é

simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que

é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_.

Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia:

esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta

alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma

solemne pirraça á tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi

para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este

silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas

de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O

conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro

seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente

chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje

conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo

gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o

olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não

pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só

agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do

discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O

predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto.

Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia

servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não

lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um

padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as

caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o

coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava

Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos

bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade,

que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem

da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com

esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e

ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a

impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado

pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte,

uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos

arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na

presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na

alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de

verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo

da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos,

que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora

entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que

nunca ouviram.

Lagrimas Abençoadas · 第 64 / 115 题