Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto
era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica
com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela
mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão
rico e tão nobre como elle.
Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma
seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade
nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a
tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina
era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue
das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de
dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua
irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que
rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida
em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o
ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua
familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas
praças, ou nos salões.
Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de
uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E,
depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o
desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua
liberdade.
Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia
moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.