A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado
em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma
tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.
Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava,
não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria,
frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da
poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos
das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que
deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema
decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se,
commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade.
O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei
Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os
seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas
vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não
interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe
brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo
calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua
intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos
que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio,
quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era
um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas
duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á
superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior
pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica»
accrescentava o mestre.
Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão.
Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e
leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito
descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo
das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda
o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois
annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na
amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a
revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser
galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos.
Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente
do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia
repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista
tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus
paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando
accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o,
quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a
moda pagava caros.
Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá
pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa
deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não
foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a
felicidade d'aquella familia.
Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes
circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o
prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas.
Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para
a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da
epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em
forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres,
ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém,
que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs,
diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos,
maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.