E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.
No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle
fizera.
E riu-se.
Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle
enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu
carro insultuoso.
E riu-se.
Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um
d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.
E riu-se.
Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:
pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.
E riu-se.
Este é o cynico.
E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a
morte de cynico é uma risada na blasphemia.
X
Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel
entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.
Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a
vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração,
era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.
Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado
d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre
duas idéas: pobreza e impotencia.
Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o
desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,
que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o
sacrifica á justiça de Deus.
O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos
seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.
A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.
O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro
são machinas de morte.