IX

E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.

No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle

fizera.

E riu-se.

Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle

enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu

carro insultuoso.

E riu-se.

Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um

d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.

E riu-se.

Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:

pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.

E riu-se.

Este é o cynico.

E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a

morte de cynico é uma risada na blasphemia.

X

Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel

entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.

Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a

vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração,

era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.

Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado

d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre

duas idéas: pobreza e impotencia.

Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o

desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,

que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o

sacrifica á justiça de Deus.

O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos

seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.

A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.

O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro

são machinas de morte.

Lagrimas Abençoadas · 第 31 / 115 题