IX

—«Visto isso, as festas encadeiam-se agora brilhantemente!? N’este

diabo de terra é sempre assim. Passa a gente um inverno inteiro sem

uma distracção que nos traga ao espirito refulgencias de luz, e depois

vem as festas todas juntas, mal a elegancia da capital arriba a estas

paragens...—dizia arrebicado, puxando os punhos engommados e estendendo

o pé pequeno, calçado em botas de _chagrin_ côr de tijolo, o Telles da

botica nova.

D’um moreno terroso, magrinho, as orelhas a fugirem-lhe para a nuca, a

pelle borbulhenta e quasi sem barba, fallando muito e depressa n’uma

verbosidade saltante de nevrotico que se orgulhava de ser, assim como

poeta incomprehendido, devorado pela Arte,—com A grande—e conquistador

irresistivel.

—«É verdade, hoje e amanhã temos a romaria da Senhora do Monte, depois o

_pic-nic_ na Matta, e no fim, a coroar a série, o baile da viscondessa.

Já tiveste convite?—respondeu o Vilhegas cavalgando uma cadeira, o

chapéo molle deitado para a nuca e embrulhando um cigarro entre os dedos

com minuciosa attenção.

—«Os Viscondes convidam me sempre, mas ainda não sei se os meus nervos me

deixarão tolerar esse ruido.

Passava a mão pelos cabellos, encostando-se, nostalgico e sentimental, á

secretária onde costumava escrever.

—«Homem, essa constante preoccupação é que te adoenta! Tens nervos como

toda a gente; tens saude por sete, deixa te de manias.

—«Se eu não sentisse os terriveis symptomas que sinto!? O que quer

dizer então este desespero de tudo e de todos, este odio ao banal que

me torturiza e me distanceia da multidão, esta febre de movimento logo

seguida das crises de passividade mais completa e absoluta?! Sou um

neurasthenico, tenho a certeza.

—«Tanto pensas em sê-lo que te hasde tornar, isso é corrente. Mas eu não

te largo, porque sem ti não vou ás festas.

—«Obrigadissimo por esse desejo, mas se eu não poder ir não vás tambem.

—«Isso é que é impossivel. A Hortensia vae e eu não quero faltar.

—«Não sei o que tu fazes com essa coisa! Casar com a Pillar,

comprehendia-se, era a fortuna, era um futuro sem sobresaltos que

preparavas; approvei a ideia desde que em Coimbra me contaste os teus

sonhos de ambição.

—«Lembras te d’esse tempo, oh Telles?—perguntou o outro, a sério.

—«Se me lembro! Quando tu entraste pela porta dentro e me disseste que te

matarias se te não emprestasse o dinheiro para a matricula!...

—«Era verdade. No ultimo anno, era a minha vida inteira que perdia!

Quando penso!...

—«E afinal nunca se descobriu quem te roubou o dinheiro, pois não?

—«Nunca! O que diria o Antonio de Mello e meu pae e todos!?... Que eu

tinha jogado, naturalmente. Ficava desacreditado! Salvaste-me a vida, crê.

—«Ora que ideia! Fiz o que tu ou outro qualquer faria no meu logar.

—«Fizeste o que poucos seriam capazes de fazer: pôr a tua casa, a tua

bolsa, tudo quanto tinhas á minha disposição...

—«E tu não me pagas com amizade?!

—«E sincera que ella é: a unica grande amizade que tenho. A prova está em

que não guardo um segredo para ti, não tenho pensamento que te não confie.

—«Ahi está o que desejo: como não tenho grandes ambições com as tuas me

contento. E a proposito—que tolice é essa agora da Hortensia?

—«Então que queres? A Pillar era uma escada d’oiro para subir, esta é

uma escada de corda, mas tambem por ella se trepa... Questão de tempo e

de vontade. Metteu-se o diabo com aquelle negocio e foi um desastre!...

Este é de mais trabalho, mas n’um paiz como o nosso tem tambem maiores

vantagens.

—«Isso está muito bem, mas o que dirá a Candida? Não tencionas casar com

ella?

—«Com ella, eu?!... Se a prima lhe tivesse deixado a fortuna, não digo

que não.

—«Vê lá em que te mettes! Olha que essas mentiras e enganos não pódem dar

bom resultado. Suppõe que a Candida falla...

—«O que hade ella dizer que a não comprometta mais do que a mim? Deixa,

que ella não é tola e tem um medo ao João que a não deixa abrir bico.

Além d’isso creio bem que desistiu da minha pessoa em favor da fortuna do

Braga.

—«Pobre Braga! Paga na velhice todos os crimes da sua vida de avarento.

Ella não tem escrupulos... Como tu cahiste na asneira de a namorar!...

—«Tu, que és o unico senhor d’este segredo, a perguntar-me isso! A

culpada foi só ella.

—«Sim, eu sou o unico a quem o disseste, mas quem o diria á Pillar?

—«Não posso comprehender. Na minha vida dão-se coisas que eram para fazer

succumbir outro de menos coragem.

—«Seria a propria Candida?

—«Cheguei a pensar isso, mas pelo susto da ultima hora convenci-me de que

não foi. A Engracia é que talvez desconfiasse... Não sei! Acautellava-me

tanto...

—«Foi um desastre. A Pillar gostava de ti a valer.

—«Isso!...

—«Era o menos para ti, homem pratico, mas era alguma coisa.

—«Já passou o tempo do _teu amôr e uma cabana_... Não se compra nada com

essa moeda.

—«Mas quando se allia a fortuna ao amôr é a felicidade na terra.

—«Homem, já parece estylo de noticiarista!

—«Faze troça, faze... Mas, emfim, com essa vá, comprehendia que

sacrificasses a tua liberdade, agora com a Hortensia que não tem

vintem!...

—«Vocês, os poetas, não sabem nada da vida. Pois uma protecção como a do

Maximiano Carneiro não vale uma grossa fortuna? Deixa me casar com ella

e tu verás como me hasde ver deputado, chefe de repartição, director de

companhias, ministro, sei lá!... Tudo.

—«Tu? mas como?

—«Pois o Maximiano, que tem empregado a familia inteira, que tem criado

logares para simples parentes da mulher, para amigos, para influentes

do bairro, pode-se dizer; o Maximiano, que custa ao país com a sua

parentella e afilhados mais de um conto de réis por dia, não ha de pôr

toda a sua influencia e esperteza em campo para fazer subir o marido da

filha?...

—«Talvez tenhas razão.

—«Já se vê que tenho.

—«Bom, isso é que eu desejo. Mas tu gostas da pequena?

—«O bastante para me divorciar sem desgosto, se me fôr preciso.

—«Tem graça! És impagavel!...—E ambos desataram a rir, n’um gosto franco

de rapazes que se divertem com futilidades.

—«Agora outra coisa,—disse d’ahi a momentos, quando já acalmado o riso, o

Telles:—o que me dizes áquella inglezita que veio com a Viscondessa, será

rica?

—«Creio que não. A Hortensia disse me que é filha d’um _trampolineiro_

que, depois de ter roubado meia Lisboa, fugiu para o Brazil. Ella foi

educada com um tio riquissimo e inglêsmente excentrico. Parece que lhe

não deixa nada porque ella até veio para aqui por estarem mal.

—«Essa é que é interessante e bonita, d’uma graciosidade de _bibelot_, um

verdadeiro encanto physica e intellectualmente. Vou fazer-lhe a côrte, tu

que dizes? Tenho bastante para me conceder a extravagancia de casar por

paixão.

—«E passares a vida a dedilhar a lyra. É bonito, mas pouco substancial. O

que me parece é que o João te toma o passo...

—«Ora! Entre mim e o João não pode haver hesitações para uma mulher

intelligente como ella é.

—«Pois se queres começar o cerco vamos até á romaria.

—«E eu que os acompanho, disse da porta o Padre Mathias que entrava

precisamente na occasião.

—«Olá, caro _bispo_, por aqui?! Com todo o gosto o levamos na nossa

amavel companhia—respondeu expansivamente o medico, querendo já tornar-se

popular á moda do Maximiano.—Sabe se o conselheiro já foi?

—«Venho agora de lá, tinham o carro á porta.

—«Sempre vieram os taes hospedes?

—«A baroneza d’Amieira, veio. E muita gente tambem para casa do Visconde.

Este anno vae ser animadissima de concorrencia _selecta_ a nossa romaria.

—«Pois vamos nós tambem até lá. Anda d’ahi, oh Telles, chama o rapaz e

entrega-lhe a chave.

Dadas as ordens de patrão e recommendado tudo ao rapaz que servia ao

pharmaceutico, dirigiram-se os tres para o largo á procura de carro que

os levasse até lá cima, á capella da Senhora do Monte, que se destacava

cheia de luzes no fundo escuro do céo.

Era desusado o bulicio em toda a terra e estradas da redondeza pois

a romaria annual da Senhora do Monte tinha fama de ser a melhor da

provincia. Com a civilisação que trouxera as diligencias e os comboios

a preços reduzidos, perdêra talvez um pouco d’aquelle caracteristico

verdadeiramente popular que a tornára das mais falladas e rendosas;

começava a accentuar-se na villa o elemento burguez com suas

mirabolancias de gostos e desdens pelo povo, que por lhe estar perto na

origem cuidam affastar deixando de o comprehender.

Pelas estradas era ainda povo e bem portugues e regional o que cantava e

dançava em ranchos, ao som da viola e dos ferrinhos.

Os carros de bois com suas pipas enramalhetadas, passavam para se irem

collocar no sitio onde seriam esvasiadas pelos amadores da _bôa pinga_

até que o carroceiro e vendeiro as levantasse n’uma exclamação de

triumpho; e outra viria, e outra depois, fazendo—quantas vezes!—com que

o vinho espumoso se tornasse em sangue rubro n’alguma d’essas richas de

romarias e feiras em que ninguem tem razão, nem culpa... senão as pipas

enramalhetadas que sobre os carros de bois são esvasiadas copo a copo.

Os pequenos negociantes da limonada, com as mesas á cabeça, mais as

mulheres dos bolos e do pão corriam açodados para apanhar o melhor

sitio da venda; e por toda a terra se sentia esse fremito de enthusiasmo

que trazem as festas que estão bem dentro da alma e dos costumes d’uma

população.

No largo da Fonte não havia quem se entendesse á procura de carros; a

villa em peso ia para o fogo, e achavam de somenos importancia percorrer

aquelles tres kilometros a pé, por entre o povoléo; mas o padre Mathias

tinha conhecimentos e influencias e depressa arranjou uma _carriola_ que

levou os tres pela estrada nova em seguimento do _char-à-bancs_ onde os

Maximianos se tinha resolvido a acamar, como sardinhas em canastra, não

tendo maneira de arranjar mais carros.

* * * * *

Como tinham combinado, João e Bella apearam-se na bifurcação dos caminhos

e deixaram que a Viscondessa e a Candida, o dr. Ramalho e o Visconde,

continuassem em carruagens pela estrada nova, com os mais hospedes,

vindos propositadamente para assistir ás festas, e seguiram elles pelo

caminho velho.

Subiram depois as escadas de pedra que se espreguiçam serra acima em

largos degraus orlados de sobreiros seculares e capellinhas brancas em

cada patamar.

Todo o campo estava cheio de gente, e desde a villa que um vozear surdo,

como de mar batendo ao longe na penedia da costa, chegava aos ouvidos.

Grupos alegres estendiam-se pelo chão, chalaceando para espantar o somno,

á espera do fogo d’artificio, outros dormiam já, no costume das noites

começadas logo ao pôr do sol.

Os pobre aleijados e esfarrapados, começavam aqui e alli a escancarar as

suas miserias, supplicando em vozes ladainhentas cinco reisinhos para

tamanha desgraça... De tempos a tempos, para entreter o povinho, um

foguete de lagrimas enchia o céo d’estrellas multicôres e abria todas as

boccas n’um prolongado _oh!_ admirativo.

Bella ia subindo ao lado de João, divertindo-se em observar esse «vivo

muzeu ethnographico,» como ella dizia.

Achava graça a tudo, e parava a cada passo para ouvir uma cantiga ou vêr

um rancho de raparigas a dançar. Desde o primeiro degrau, que começára a

dar dinheiro a todos os mendigos, a comprar bonecos de pão e bugigangas

sem importancia, só pelo prazer de comprar, de ter muita coisa que lhe

recordasse mais tarde aquelle espectaculo novo para os seus olhos de

quasi extrangeira.

Por mais que João lhe dissesse que era muito lá em cima, no alto do

monte, no terreiro da capella, que a verdadeira feira se juntava, ella

não queria crer que fosse mais pittoresco.

A noite puzera-se escura e quente, com relampagos de calor para as bandas

da _Serra_.

Á maneira que iam subindo, a multidão dos romeiros ia augmentando,

apertando-se n’uma gritaria, n’um desmancho e rudesa que quasi a

allucinava, a ella que nunca estivera tanto em contacto com o povo.

Insensivelmente tomou o braço que João desde o principio lhe offerecêra

e ella recusára na independencia orgulhosa de rapariga habituada a andar

só.

Caminhavam difficilmente, empurrando a multidão que se entrechocava

subindo e descendo pelo pequeno espaço deixado no meio das escadas pelas

vendedeiras e mendigos.

Raparigas com lenços cahidos, os chales atados á cinta, as chinellas de

côr com biqueira de verniz preto, riam alto, saracoteavam-se e fallavam

mais desembaraçadas e vivas do que os homens que as seguiam. Esses,

com chapeus braguezes enfeitados com imagens da santa, bonecas de pão

e flores de papel, desciam deitando o tronco para traz e firmando-se

bem nos sapatos de salto de prateleira e no varapau, cambaleantes, como

se o habito de andar dobrados sobre a enxada lhes tirasse o de andar

verticalmente.

Por entre a multidão festiva, amortalhadas de branco, pobres raparigas

que a morte tinha poupado, iam depôr aos pés do altar onde morava a

esperança da sua crença, com as tranças dos cabellos as ultimas lagrimas

do seu piedoso reconhecimento. Penitentes, homens e mulheres, novos e

velhos, com velas na mão, amparados por amigos e parentes seguidos pelos

olhares respeitosos de todos, subiam de joelhos ou de costas os trezentos

e tantos degraus de pedra, cumprindo promessas, quem sabe de quantas

lagrimas feitas!...

—«Oh João, como é possivel que isto se faça e se consinta!?—dizia

Isabella nervosa, apertando-lhe o braço quasi phrenetica.

—«Pois não se havia de consentir a consolação d’uma tão grande fé?

—«Fé?! Não diga isso. É ignorancia, fanatismo, loucura a d’estes

desgraçados que nenhuma luz de razão illumina. É maldade da parte das

leis e dos seus encarregados, deixar ao povo, que não tem liberdade para

coisa alguma, liberdade para este horror... Subâmos depressa; ainda falta

muito? O caminho parece-me hoje mais comprido...

—«É porque está aborrecida e cançada do barulho. Sentêmo-nos um

bocadinho, quer?

—«Pois sentêmo-nos, mas alli mais no escuro, onde houver menos passagem,

que sinto a cabeça esvaída.

Sentaram-se fóra da escada, sobre umas pedras, na sombra d’uma capella.

Ao lado d’elles e por toda a parte empurravam-se—fallavam, riam,

apregoavam ou dormiam centenas de pessoas que assim se julgavam felizes,

emquanto Isabella se sentia triste,—d’uma pungitiva tristeza que mais a

encommodava por lhe vir assim, tão contra sua vontade e espectativa.

—«Estou arrependido de a ter acompanhado n’esta estravagancia, porque é

uma verdadeira estravagancia, que devia prever a encommodaria deveras.

—«Porque? Estravagancia e desusada em mim, é isto. Pois que tenho eu de

mais ou de menos para não sentir como elles, para não me divertir da

mesma maneira, para me encommodar até o contacto d’esta bôa gente, que é

portuguesa como eu, nascida sob o mesmo céo?!...

—«Miss Bella é um pouco mais inglesa....

—«Oh, mas muito pouco, quasi só pela amizade que dedico a meu tio. Mas

sou toda portuguesa pela alma. Que differença ha pois entre nós?

—«A educação, minha senhora.

—«Que despresivel coisa ella é, para assim nos distanciar dos nossos

irmãos!

—«Pelo contrario, que supremo ideal, que divina conquista do espirito

sobre a materia... O que me differenceia a mim filho d’um homem nascido

no povo, d’esses que por ahi se estendem sobre as urzes a dormir pezados

somnos d’inconsciencia? Se meu pae continuasse a guardar ovelhas até

homem e depois se agarrasse ao cabo da enxada, como os irmãos e parentes

que por ahi ficaram, o que seria eu mais do que elles?!

—«Tem razão, comprehendo que deve ter razão; mas que quer? Eu esperava

outra coisa, alegrias novas para o meu espirito na aproximação do povo,

que só conhecia dos livros. Cheguei a sentir a sensação de que sonhava,

de que me esmagava um pezadello. Agora estou melhor, podemos continuar.

—«Quando quizer.

Apezar de toda a sua boa vontade, Isabella não podia vencer o mal

estar que lhe causava sempre o contacto com a multidão, e que sentira

como nunca n’essa noite de festa; e foi, silenciosos, quasi tristes,

que continuaram a subir por entre os vendedores e vendedoras que os

disputavam uns aos outros, mostrando-lhes, uma a canastra de pão alvo,

descobrindo outra a toalha de largo _crochet_ para que vissem os loiros

bolinhos d’ovos, ou mettendo-lhes á cara as bonecas de centeio cobertas

de assucar, ou puxando-os para que escolhessem um cravo com verso ou uma

imagem da Senhora, que era reproduzida infinitamente com o mesmo immovel

sorriso d’imagem, a saia e o manto em balão e o menino nos braços... Foi

quasi uma batalha vencida quando conseguiram chegar ao primeiro terreiro

onde as barracas se enfileiravam como um acampamento: as do peixe frito

á direita, com o vinho ao lado, e atraz as melancias em monte, as de

quinquilharias sempre cheias de compradores, as mezas com os bolos e

limonadas, os ourives estatelando sobre empoeirados cartões forrados de

velludilho preto os cordões, as arrecadas e os anneis, ambição suprema

das raparigas casadeiras.

Os assobios e os gritos guinchavam e estridulavam de todos os lados,

punham uma nota de inconcebivel desafinação por sobre aquelle vozear

ensurdecedor, onde mal se distinguiam as cantigas e os toques.

Bella parou, n’um assombro. Nunca os seus limpidos olhos azues tinham

visto coisa que se assemelhasse á loucura d’esse remecher de gente que

berrava e folgava de mil maneiras, sob a luz desegual e fumarenta dos

candeeiros de petroleo sem vidro, n’uma alacridade verdadeiramente

animal. Kermesse barulhenta e nocturna, que assumia por vezes, pela sua

intensidade e desmanchamento, as proporções d’uma allucinação de _sabbat_.

Fechava os olhos e continuava a ver as boccas escancaradas que riam

alvarmente e fallavam uma lingua que parecia desconhecida; tapava os

ouvidos e a memoria reproduzia-lhe a mesma musica descompassada dos

assobios e pequenos instrumentos rudimentares que enchiam o arraial, os

pregões da agua fresca, a offerta persistente dos vendedores...

João arrastava-a, n’um atordoamento de inconsciencia, pela rua dos

ourives, menos concorrida, e por onde lhes seria mais facil chegar

junto da Viscondessa, que os esperava no terreiro da igreja em coreto

reservado, expressamente feito para a occasião. Quando alli se viram,

um suspiro d’alívio lhes alevantou o peito n’um tomar fôlego de quem

atravessou a nado, e com perigo de vida, um rio caudaloso.

A Viscondessa fazia as honras do coreto com a mesma simples e nobre

lhaneza—sem uma falsa amabilidade de burgueza que quer agradar, nem

distracções prenunciadoras de pouca consideração—com que recebia na sua

casa, á Lapa, tudo que Lisboa considera elegante e distincto.

Escutava, como se isso lhe fosse d’um grande interesse, o bisbilhotar

das Sr.ᵃˢ Rebellos—muito importantes, com suas luvas d’algodão cinzento

e vestidos côr de mel bordados a seda—que lhe desfiavam a historia de

quantos lhes passavam ao alcance da vista.

Respondia ás perguntas impertinentes dos hospedes lisboetas, dispostos a

troçar a provincia; conversava com o dr. Ramalho ou com o velho abbade,

que ás romarias já não ia senão para estar de _palanque_, dizia.

A Candida, a um lado, escutava os galanteios cada vez mais insistentes

do Visconde e animava com sorrisos as tolices do Braga, que passára ao

estado de suggestionado permanente, tendo ainda monosylabos animadores

para um dos elegantes da capital que punha o monoculo e fazia uma careta

a cada phrase que julgava de effeito seguro.

Defronte, em coreto semelhante, os Maximianos recebiam tambem os seus

intimos, teimando em disputar aos viscondes primasias de ostentação e

popularidade á custa de dividas e de favores feitos com a politica.

O Vilhegas inclinava-se sobre o hombro da Hortensia, que se voltava n’um

sorriso triumphante torcendo o esguio pescoço de chlorotica; fallavam com

intimidade de noivos...

Mas o Telles, mal descobriu o vulto esvelto de Izabella, que conversava

em pé com o dr. Ramalho e com João, apressou-se a ir comprimenta-los,

perguntando com ar de superior:—se ella se não sentia mal entre a bruta

multidão, que a elle lhe fazia tanger os nervos n’um desespero de quem

se sente perdido entre animaes d’uma outra especie. E ainda havia quem

dissesse que as almas eram eguaes; nem que a sua se parecesse com a

d’aquelles selvagens!...

E Bella, que contava ao doutor a dolorosa impressão que sentia no meio

d’uma alegre multidão que não correspondia a nenhum dos seus sentimentos

e gostos, voltou-se para o pharmaceutico e respondeu n’um ligeiro tom

de ironia, que o não magoava porque a tola vaidade a fazia receber como

verdadeira:

—«Selvagens, não! Por não terem o talento e a cultura do sr. Telles, não

os poderemos chamar assim!... É o povo, na sua inconsciencia e rudeza,

dando-nos um espectaculo verdadeiro, humano, superior pelo colorido e

espontaneidade ao que a multidão dos civilisados nos dá por vezes.

João sorria intimamente satisfeito por a ver tratar assim o Telles, que

detestava, por o saber amigo intimo, quasi irmão do Vilhegas, connivente

porventura no crime que imaginava, e pelos ares de artista neurasthenico

e _raro_ que elle affectava.

—«O quê—respondeu elle passando os dedos abertos pela cabelleira de

romantico, n’um gesto familiar—pois V. Ex.ᵃ não acha brutal, não sente

que os seus nervos se crispam, que o seu espirito delicado se confrange

n’esta feira franca de vulgaridades?!...

—«Não, sr. Telles! Em primeiro logar porque os meus nervos são as

_pessoas_ mais pacatas e commodas d’este mundo; depois porque o meu

espirito comesinho se compraz com as alegrias simples do povo. Repare

como cantam e como é excepcionalmente movimentado este _motivo_.

Inclinaram-se todos sobre o paredão para melhor destinguirem um côro de

vozes que entre as outras avultava, pela uniformidade e enthusiasmo com

que acompanhavam a roda sapateada:

«Liberdade, liberdade,

Quem a tem chama-lhe sua.»

Repetiu Izabella cantarolando o que em baixo se cantava a plenos pulmões.

—«Quem poderá ter liberdade junto de V. Ex.ᵃ?!...—commentou amavelmente o

Telles.

—«O quê, acha-me com cara de policia ou figados de

carcereiro?...—respondeu a rir.

—«É o mais terrivel dos carcereiros porque nos algema com a etherial

graça do seu espirito e nos prende para sempre só com a força d’um

sorriso...

—«Por quem é, não desperdice a poesia, sr. Telles! Dizer coisas tão

lindas, d’um perfume tão pronunciadamente _ancien régime_, em plena

_kermesse_ popular, e em prosa, confesse que é commetter um crime de lesa

arte... Espero que me repetirá o mesmo em alexandrinos.—Voltando-se para

o Ramalho:—sabe que estou com um desejo immenso de vêr ámanhã a romaria

á luz do sol, com muita poeira e moscas, como dizem que são boas as

toiradas, que para mim não passam d’um espectaculo monotono... Isto hade

ser mais pittoresco, pois não, doutor?

—«Muito mais! Como não sou tambem um _aficionado_, acho mais caracter e

movimento n’uma romaria ou n’uma feira.

—«Mas quer voltar pelas escadas?—inquiriu receoso o João.

—«Não,—assegurou, sorrindo do susto—podemos vir no seu _phaeton_, que por

ser descoberto tem as mesmas vantagens sem os inconvenientes da travessia

a pé.

—«Então amanhã tambem me abandonas?—perguntou-lhe quasi ao ouvido a

Viscondessa.

—«É só amanhã, querida, para vêr bem este bello espectaculo que tanto

interessa e diverte o meu espirito banal...—frisou n’um meio sorriso

escarninho, olhando o Telles que amuára.

—«Então ajuda-me agora a levar a cruz...—murmurou a Viscondessa

percorrendo com os olhos a roda dos convidados.

—«Ai filha, tenho tão pouca coragem e força para Cyrenéo de cruz tão

pesada!...

X

Onze horas. O sol, a prumo, punha na terra incandescencias de dia

tropical.

O largo sem arvores fazia ophtalmias com a sua areia granitica a

escaldar, reverberando sob esse sol que pesava e se cingia ao corpo como

as tunicas de fogo de que nos faliam os livros santos descrevendo os

tormentos infernaes.

Apesar d’isso, a animação e concorrencia á romaria da _Senhora do Monte_

não afrouxára desde a vespera. Pelo contrario, até o sol parecia ter

subido ás cabeças, a pôr mais vivacidade e mais ardor nos risos e nas

cantigas.

Desde a madrugada que os carros se desconjunctavam n’uma pressa de

despique, levantando pela estrada, falha de brita, nuvens de poeira.

Os cocheiros, congestionados, nem tendo tempo de limpar o suor que lhes

escorria pelas faces, atavam ao pescoço os lenços d’assoar e chamavam os

freguezes n’uma pressa d’aviar, como se fosse empreitada carregar com

toda aquella gente lá para cima, a tempo de assistirem á missa da festa

e ouvirem o sermão do conego Almeida, o melhor prégador da provincia.

Cruzavam-se na estrada, paravam no meio do caminho para voltarem a cima

com algum descorajoso que não tinha pernas para mais, ajustavam por

todos os preços, gritavam para o povo que seguia a pé, obrigando-o a

saltar para fóra do caminho, para o matto curto da serra, que parecia uma

fornalha a arder.

O pequeno _phaeton_ de João de Mello passava, elegantemente posto e

guiado com firmeza, por entre toda aquella inferneira de carros, desde

o envernizado _char-à-bancs_ ás galopadas, trasbordando de gente até

ao tejadilho, a velha _victoria_ comprada em segunda mão, a caleche, o

_coupé_, até ao classico carro toldado com vistosas colchas de ramagens,

vindo das terras onde o _macadam_ não chegava ainda e que só os bois

podiam arrastar. Dentro, as senhoras levantavam os vestidos para os não

enxovalhar ao pé das canastras da merenda e riam e gralhavam como quem na

roda do anno tem poucas festas assim.

Bella, vestida de branco, com um largo chapéo egualmente branco, que lhe

punha uma tenue sombra no rosto enrubecido, endireitava-se risonha e

firme na almofada, segurando as redeas nas pequenas mãos muito habeis.

João, ao seu lado, concentrava toda a attenção na maneira de seguir por

esse caminho eriçado de impedimentos, e pedia-lhe que tivesse cautella,

que fosse devagar. Mas quê? ella sentia um prazer louco e uma certa

vaidade em levar o cavallo a trote, furtando-o a todos os perigos,

não deixando que nenhum outro carro lhe passasse á frente. As azas do

seu fino narizito batiam nervosamente, os dentes apertados, a testa

franzida n’uma unica préga de poderosa attenção e vontade energica, tudo

demonstrava n’ella a excitação da partida. Para traz tinham ficado ha

muito as carruagens em que o visconde e os hospedes seguiam, com mais

segurança e menos alegria.

Ranchadas de raparigas com as saias arregaçadas, a mostrarem os saiotes

amarellos e vermelhos, descalças, para irem mais depressa, lenços

vistosos cahidos para traz, blusas frescas as da villa, de casacos

azul Prussia algumas, ou brancos e engommados as da aldeia,—sorriam

e commentavam com sympathia a passagem d’esse carro novo, duma graça

artistica, que assim ia guiado por uma criança vestida de branco como

a mais linda fogaceira. Velhos e novos desviavam-se de motu-proprio e

seguiam com louvores a mocidade e a formosura triumphantes.

Dir-se-hia que esta festa em plena natureza, resto de paganismo que ficou

na ascetica religião christã, como remendo de purpura em fato de burel,

commovia e expansibilisava a ingenua e rude alma popular, e resuscitava

por momentos o nobre culto da belleza humana.

Á entrada da romaria tiveram que parar; a turba multa dos festeiros

impedia os carros de seguirem adeante. Bella, entregando as redeas ao

criado, saltou airosamente e n’uma confiança fraternal tomou o braço de

João para atravessarem a multidão que ondeava como um revolto mar.

Logo ao apearem-se, uma mulhersinha que alli estava desanimada, n’um

sitio de pouca venda, junto á mina, pediu por esmola que lhe comprassem

alguma coisa.

Sem esperar que João a ouvisse, atirou-lhe o dinheiro para o regaço

e pegou na primeira coisa que viu, um buzio com assobio de chumbo

que pretendia imitar o silvo do comboio. Achava engraçado mettê-lo

disfarçadamente na bocca e fazê-lo resoar n’um apito prolongado, que se

ia confundir com todos os outros que enchiam o arrayal.

Um bando de homens descia então, cantando e dançando pezadamente adeante

de duas guitarras, um harmonium e um violão, que vagarosamente os seguiam.

Os dois pararam e afastaram-se para dar passagem ao _toque_ e seus

admiradores. Quando Bella ia levar o assobio á bocca, n’uma tentação

infantil, um dos homens cantou, abrindo os braços n’um gesto largo que

lhe attingiu a mão e lho fez voar não soube mais para onde:

O amôr tem gestos lindos,

Tem preitos enganadores...

Riu divertidissima com o desespero de João, que já queria ir bater no

bruto.

—«Ora deixe lá—dizia.—Não vê que aquillo é um _gesto lindo_ do amôr?

Olharam-se e, sem bem saber porquê, córaram violentamente, depois

desviaram os olhos a um tempo, e sorrindo encetaram a gigantesca empreza

de atravessar a multidão.

Estavam na maior balburdia da romaria. O sol de setembro enchia de fogo

toda aquella variegada e ruidosa confusão de côres e vozes, que, á força

de disparatadas, chegavam a dar um conjuncto harmonico.

Izabella, n’uma alegria de excitação lembrou, logo que chegaram ás

barracas, comprar alguma coisa que podesse trazer sempre a recordar

aquelle bello espectaculo.

Mas, por mais que procurassem entre as bugigangas empoeiradas, não viam

coisa que lhes désse uma idéa local.

Depois de muitas e muitas pesquizas, lembrou Bella a uma mulhersinha, que

por força lhe queria vender alguma coisa:

—«Mas vocemecê não tem nada que dê felicidade, que livre de feitiços e

maus olhados?

—«Isso tenho, mas é uma coisa tão _somenos_...

—«Deixe lá vêr, avie-se—acudiu João, um quasi nada impacientado com

aquella demora sob o sol, na passagem contínua dos feirantes.

—«Eu mostro, mas os senhores não hão de querer...

A custo, como que envergonhada da pobreza da mercadoria, apresentou na

tampa d’uma caixa uns anneis de ferro toscamente gravados com um _X_ ao

meio.

—«Deixe cá vêr, é isto mesmo, tem até muita graça!—E, descalçando a luva

da mão direita, tirou os anneis preciosos, cujo brilho deixou a vendedora

estarrecida, para enfiar o pobre e primitivo aro de ferro de que a

mulhersinha affirmava as grandes virtudes para afugentar feiteiceiras e

maus olhados...

—«Quer isto?—perguntou João sorrindo e escolhendo o mais pequeno d’entre

os que lhe apresentavam.

—«Então, não tem caracter?

—«Tem!... É para trazer sempre, não é?—perguntou á mulhersinha,

entregando um tostão para pagar o vintem do custo.

—«Decerto que é para trazer sempre—respondeu Bella sorrindo, emquanto se

affastavam—se não fôsse isso não era talisman.

—«Quando olhar para esse infimo annel, tão deslocado entre os outros,

pensará em mim, Bella?—sorriu melancholico.

—«Dúvida? Mesmo sem esta recordação eu pensaria em si. Então não somos já

dois velhos amigos?

—«Eu sou... muito, muito seu amigo.

—«E, eu não?... Olhe que essa dúvida offende-me.

—«Se o fosse!...

—«O que aconteceria?

—«Nada, não é nada... Sempre quer ir á igreja?—perguntou n’outro tom.

—«Quero, mas é melhor esperarmos pela Maria Helena, não acha?

—«É melhor. Esperemos aqui.

Como estavam no meio do arrayal, ainda que um pouco desviados da

passagem, viram a Hortensia, pelo braço do Vilhegas, esticada n’um

vestido de seda, ás riscas, com _boléro_ côr de cereja e um grande chapeu

enflorado que lhe cobria a pequena cabeça de passaro tonto.

—«Não reparou que fingiu que nos não viu?

—«Talvez não visse.

—«Isso sim!... Ainda a não conhece pessoalmente?

—«Devo tê la conhecido em criança; mas, como sabe, ha uns poucos d’annos

que n’esta epoca vou para fóra. Aborrece-me toda esta pretenção de terra

de provincia a acapitalar-se.

—«Pois tem perdido bastante, porque ha interessantissimos exemplares

d’esta sociedade que cae de podre. Esta m.ᵉˡˡᵉ Hortense Mouton, por

exemplo, é deliciosa de tolice.

—«_Mouton_, quem é?

—«Pois não sabe que ella traduziu o appellido infamemente portuguez?

—«Ora póde lá ser! Diz isso por graça, não diz?

—«Não; é certo. Affiançou-me, pelo menos, uma das suas mais intimas

amigas que tem cartas assignadas assim.

—«O que prova a eterna perfidia feminina...

—«Nem que os homens a não tivessem egual, ou peor! Olhe, não procuremos

mais longe. Vê aquelles tres elegantes que seguem no coice do prestito

_maximiano_, levando em triumpho a baroneza da Amieira?

—«Só conheço, e mal, o visconde de Alvora.

—«Esse é _attaché_ na legação da Russia, onde nunca poz os pés, mas

recebe uns mil reis diarios como official do ministerio dos estrangeiros,

onde só vae nos princípios dos mezes para lhe darem o ordenado. O outro

é o sr. D. Manuel Pereira de Vasconcellos, que se diz descendente do

condestavel Nuno Alvares Pereira, não sei porque bullas, nem mesmo quero

perguntar, para não ficar esmagada sob uma alluvião de nobiliarchias.

Esse é bacharel formado e espera collocações varias; não escolhe

profissão. O terceiro é o sr. Jorge Cabrella, filho d’um rico negociante

de cordas, mas que tem o defeito maximo de apertar os cordões á bolsa

quando se trata das extravagancias do filho. É um bom homem, sem

educação, mas que tem trabalhado muito e sabe o que lhe custa a vida. A

mulher é que faz do filho o inutil que vê, querendo-o fazer fidalgo. Em

geral são as mães que perdem os filhos, em Portugal, porque conservam o

estupido preconceito da bastarda fidalguia que para ahi ficou depois da

extincção dos vinculos e dos conventos—de que o trabalho é um desprezo.

Sabe o que estes tres homens procuram? Uma mulher que lhes traga em dote

a certeza de poderem continuar as suas vidas de ociosos. E lá vão atraz

da viuva riquissima, que se fosse pobre ninguem receberia em sua casa...

—«Conhece pessoalmente a baroneza?

—«Conheço e até sympathiso com alguns traços do seu caracter, que, apezar

de tudo, é energico e tem certa grandeza. Mas quem me tem fallado d’ella

é meu tio, que é das suas relações desde o tempo em que deslumbrou

Lisboa com o esplendor das suas carruagens e a extravagancia do seu

procedimento. Dizem que muitas vezes se vestiu de homem para andar á

vontade. Muitas pessoas se lembram ainda de a ter visto percorrer a

cavallo as alamedas de Cintra, de charuto na bocca, acompanhada de

rapazes, novos como ella, quando o velho marido se torcia nos ultimos

ataques que a livraram da sua incommoda pessoa. Conta-se que alguns

assassinios se fizeram por sua causa... não sei! Do meu tempo não é mais

do que aquillo, uma viuva rica que se diverte a arrastar uma cauda de

pretendentes.

—«São-no aquelles?

—«Com certeza. Mas a baroneza faz-lhes partida, a todos. Não creio

que venha a casar, ella que comprou a liberdade e a riqueza que hoje

disfructa com os melhores annos d’uma mocidade torturada por um velho

avarento e mau; mas, a casar, será com o administrador que lhe tem

augmentado a fortuna. Entre todos o que mais merece, o pobre Bento da

baroneza, como lhe chamam por lá.

—«Mas tudo isso não prova que aquelles tres rapazes vão alli com essa

pretenção ignobil, porque nenhum decerto lhe tem amôr.

—«Mas teem-no ao dinheiro, e procuram-no onde o encontram.

—«Como se pode affirmar isso?

—«Perfeitamente. Na capital eram meus admiradores...

—«E não são aqui?

—«Achei um pó insecticida para os afugentar...

—«Não poderei saber a receita?

—«Talvez precise... tem o merito que eu tinha lá...—ria com muita vontade.

—«Então diga.

—«É segredo entre a Maria Helena e eu, mas ao João digo, vá lá.

—«Obrigado pela confiança, vamos então a saber.

—«Fiz constar que vinha para aqui de mal com meu tio... Percebe?

—«Não, confesso que não percebo.

—«Pois não sabe que meu tio representa uma das maiores fortunas que

habitam Lisboa? Pois bem, meu tio criou-me como filha e não tem mais

parente nenhum. Quem é, pois, a sua presumida herdeira?... Bom, agora

supponha que estou mal com esse tio, eu, que não tenho fortuna propria...

—«Não diga isso! Rapazes a entrarem na vida são lá capazes d’um cynismo

d’esses!

—«Creia que é a verdade mais verdadeira.

—«Pensando assim, como pode ter relações com elles?

—«Que ingenuidade a sua! Se fossemos a só fallar aos bons, aos honestos,

em pouco tempo teriamos que nos esquecer da linguagem, por inutil...

A comedia social diverte-me, porque me não prende nas suas mentiras e

vaidades.

—«V. ex.ᵃ poderá fazer isso pela sua educação muito ingleza e pela

independencia em que a colloca a fortuna de seu tio. No entanto,

parece-me que ainda ha de soffrer com o contacto d’essa gente tão pouco

digna. Cá por mim prefiro viver só.

—«Tambem eu preferiria, mas como estou na sociedade em que elles estão,

divirto me a observá-los e ás vezes a fazer-lhes partidas. Pois não acha

engraçado que elles me julguem de mal com meu tio, aquelle adorado tio

_William_ que nunca teve para mim senão palavras consoladoras e risos de

approvação?!

—«É muito seu amigo, não é?

—«Muito! É toda a minha familia, e não havia mãe nem pae que fossem mais

bondosos e disvelados do que elle tem sido. Não ha ninguem melhor, mais

delicado, mais instruido, mais consciencioso, mais artista!

—«Mas que enthusiasmo!

—«E tudo elle merece, creia. Depois me dirá.

—«Espera o aqui?

—«Recebi carta hontem e diz-me que não supporta a Inglaterra sem mim...

que vem buscar-me ou estar commigo, como eu quizer. A minha vontade é a

sua.

—«Como estão, _miss_ Isabella Burns e o sr. João de Mello?—comprimentou

por traz d’elles e com um risinho de mofa o Conselheiro, que o padre

Mathias acolytava.

—«Nós perfeitamente bem, e o sr. Conselheiro parece tambem que não ha mal

que lhe chegue—respondeu Bella, olhando o d’alto, com um ligeiro tom de

impertinencia.

—«Então os Viscondes não vieram?

—«Estamos esperando que cheguem para irmos á igreja. Creio que o sermão

não se dirá sem a comparencia de quem tanto dá para a festa.

—«Ora! A Senhora do Monte não precisa das esmolas dos ricos, tem bastante

dos pobres—acudiu brutalmente o padre Mathias.

—«No entanto, a missa não principiou ainda, pois que vemos por aqui o sr.

padre Mathias.

—«Já lá estão a cantarolar. A mim é que só na ultima extremidade me

apanham para aquellas maçadas. Logo de madrugada disse o _missóte_ a uma

gentinha que me pagou bem e ainda logo me dão da merenda...

—«Bom negocio, hein?—sorriu o conselheiro para aquelle seu infatigavel

agente.

—«É como diz.

—«Miss Bella não está aborrecida com esta algazarra?

—«Não, pelo contrario, diverte-me, porque é uma novidade para o meu

espirito. Agora o Conselheiro aqui é que é para admirar.

—«Os negocios... Aborrecimentos e cuidados é que passeiam por aqui os

meus cabellos brancos. Miss Bella tem melhores companhias...

João franziu o sobrolho e ia responder azedamente, mas a rapariga não o

deixou, continuando com malicia:

—«E no entanto já me não acompanham titulares nem descendentes de figuras

primaciaes como Nun’Alvares...

—«Quem tem essa ascendencia illustre?

—«Pois será possivel que desconheça esse avô ao seu hospede sr. D. Manuel

Pereira?

—«Tambem não é grande honra descender d’um assassino e ladrão—intrometteu

se a dizer, o padre, querendo sempre saber de tudo.

—«Não se trata de Diogo Alves, o assassino celebrado pelas figuras

de cera. É do santo _Condestabre_, D. Nuno Alvares Pereira.

Conhece?—respondeu João muito a sério.

—«_Ná_, esse não sei quem é.

Isabella, com o lenço na bocca, ria perdidamente, emquanto o conselheiro,

imperturbavel, fazia as suas despedidas.

—«Que estupido!—dizia depois para João.

—«Não é! Ignorante, faccioso e maledicente sim, mas de bruto não tem nada.

—«O que a Maria Helena se demora! São capazes de faltar ao sermão. Vamos

vêr se os encontrâmos?

—«Vamos lá.

Tornaram a atravessar o arrayal. A um lado, sobre uns penhascos, toda

uma familia de padre acampára comendo o farnel. João, que era conhecido,

foi chamado pelo padre Miguel, que esbrugava uma perna de gallinha com

os seus rijos dentes de velho sadio.—Que não acceitava, mas agradecia,

respondeu João tirando o chapéo delicadamente.

—«Homem, não seja esquisito, nas romarias não se olha a etiquetas. A sr.ᵃ

sua prima talvez goste do nosso vinhito branco...

Isabella pensou, pela primeira vez, que era na verdade temerario

affrontar assim os preconceitos portugueses e provincianos

principalmente, apresentando-se n’uma festa tão publica com um rapaz

que lhe não era familia. Na sua altiva honestidade de rapariga educada

para se guardar a si mesma e responsabilisar-se pelos proprios actos,

não comprehendêra o que o seu procedimento podia ter de inconveniente

aos olhos de toda essa gente, habituada a tudo fazerem menos desprezar

_as linguas do mundo_... Fizeram-na córar mais do que o proprio sol,

os olhares curiosos das mulheres que arranchavam com o padre Miguel e

melhor a distinguiam da Candida, por quem o velhote a tomou. Lembrou-se

do risinho do Maximiano ao encontrá-los, e essa lembrança feriu-a como

um insulto. A garganta apertou-se-lhe n’uma crise de choro, vencida com

esforço.

Quando a Viscondessa se apeou, correu para ella n’um impeto de

reconhecimento e disse-lhe, desopprimida d’um certo mal estar que lhe

obscurecia a alma:

—«Como se demoraram tanto?!

—«Nós viemos cuidadosamente, porque a estrada esta má e a concorrencia é

enorme. Vocês é que parecia que tinham azas; fizeram successo...

Beijaram-se; Bella tomou-lhe o braço e não mais a largou, como criança

atemorizada que se acolhe á protecção materna e só alli encontra valor

para resistir.

* * * * *

Na igreja a missa da festa ia effectivamente em meio, mas o sermão

demorara-se porque o conego Almeida, pago pelos Viscondes e seu

commensal, aguardava na sachristia que elles chegassem para subir ao

pulpito e encher a igreja com a sonoridade da sua voz.

Curvou-se deante da Viscondessa com requintes de cortezia, a que

ella correspondeu sorrisonha, apresentando-o aos seus hospedes e

comprimentando-o antecipadamente pelo seu discurso, que devia ser bom,

como sempre... Depois, com o seu pisar firme e gracioso ao mesmo tempo,

atravessou a capella-mór, onde tinham logares reservados, baixando a

cabeça aos Maximianos, que os defrontavam, como potencia a potencia.

O templo, bastante grande, doirado e pintado de fresco pelas ultimas

eleições, estava cheio a não poder mais...

Isabella, que na vespera o tinha visto a meia luz servindo de dormitorio

aos romeiros pacatos, quasi o desconhecia na gloria do sol entrando

pelas janellas com cortinados vermelhos, no triumpho das luzes, do

incenso subindo em espiraes e dos ricos paramentos.

Desinteressada das lithurgias, deixava que os seus olhos e o seu espirito

vagueassem pelo recinto sagrado sem que a isso a levasse uma consciente

vontade, e sem mesmo pensar deixou-os perderem-se na contemplação dos

_ex-votos_, que se alinhavam como um rosario de lagrimas na parede

fronteira. Sorriu complacente aos laudatorios quadros em que a cama e o

doente, na ausencia de toda a perspectiva, se alevantam no mesmo plano,

em agradecimento á milagrosa santa que arrancára o infeliz condemnado da

escuridão sepulchral... Tranças de cabello, roídas pela traça, junto das

offertas de cera, amarellecidas umas pelo tempo, diaphanas ainda, como da

ultima hora, outras, cabeças, pernas, braços, todo o corpo humano sujeito

á dôr, baralhado e destruncado pelo acaso do soffrimento... Mortalhas

amarfanhadas e destingidas, pequeninos caixões com bonecos representando

a vida d’uma criança resgatada de prematura morte, caixões esguios para

homens, outros brancos para virgens...

Tanta desgraça, tanta miseria a acolher-se á crença no milagre, como

se a vida sem elle não fosse mais do que um desterro! Bella evocava

as dôres que representavam essas offerendas, e a sua alma energica

confrangia-se n’uma duvida, n’uma como ansiedade de quem presente que o

temporal se aproxima e não tem a certeza de se achar bem couraçado para a

resistencia.

Como um raio de sol a alegrar uma enfermaria, as _fogaças_ lá estavam

tambem com as suas offertas de milho ou pão de ló em açafates armados em

alta roca com flôres e laços enastrados. Nem todas formosas, mas alegres

e sadias na graça hesitante do sahir da infancia, com seus vestidos

brancos e os peitos cobertos de oiro, ellas representavam tambem um

reconhecimento e uma crença, mas a sua offerta significava abundancia

e vida; a sua crença ingenua transformava-as em oblata inconsciente ao

culto da alegria e da mocidade.

Por fim os seus olhares cahiram sobre os homens de sorriso unctuoso,

que recebiam as esmolas, e pensou com amargura na ingenuidade que a

hypocrisia explora sempre...

N’esse momento todos se levantaram e sentaram, tossindo, escarrando,

installando-se com a maior commodidade compativel com o espaço, para

ouvir o sermão.

Depois d’alguns momentos de recolhimento, o conego Almeida ergueu-se

no pulpito; alto, moreno, a bocca n’um risco de amavel sorriso, a face

azulada de muito escanhoada, o olhar firme, de quem tem a certeza de

possuir o auditorio.

Isabella olhou-o e logo recahiu no inconsciente scismar que a levava não

sabia para onde, que a tornava tão estranhamente indifferente ao que se

passava.

—«O amôr—dizia o conego com a sua voz propositadamente espaçada, para que

as palavras se seguissem umas ás outras, n’uma ordem de formatura—é a

base da vida. É o principio e o fim de todas as coisas...

Bella ouvia phrases truncadas que lhe entravam na alma e mais a

mergulhavam no mysterioso cogitar em que se embebêra.

O amôr!... Era a segunda vez que n’essa manhã o ouvia proclamar, por bem

differentes vozes, e com intenções diversas. Sim, porque devia ser o

amôr divino esse a que o orador se referia, mas era _amôr_, alguma coisa

superior e forte que transforma a vida e das mais aridas almas faz brotar

flores de poesia...

A Viscondessa julgou-a adormecida quando, no fim da festa, lhe tocou no

braço e a viu estremecer n’um sobresalto de estremunhada.

—«Dormias? Estarás doente!?

—«Não... O espirito é que me parece que sonhava...

—«Então gostaste do conego?

—«Gostei, é eloquente.

Os Maximianos abeiraram-se, a comprimentar. Era para o dia seguinte o

_pic-nic_ projectado e era preciso pormenorizar os ultimos arranjos. A

Viscondessa pedia que se não encommodassem; era mais um jantar dado na

quinta, para evitar etiquetas, do que verdadeiramente _pic-nic_, em que

todos são obrigados a fornecer iguarias.

Despediram-se depressa para irem até á porta, onde os homens esperavam

já; mas ahi pararam estonteadas.

Toda a gente corria, gritando n’um terror pânico; as mulheres agarravam

as canastras e fugiam, encolhendo-se, cobrindo-as com o corpo;

outras seguravam os homens ou chamavam os filhos; crianças gritavam

desesperadamente e todos gesticulavam e fallavam sem que fosse possivel

comprehender o que assim alarmava e varria o arrayal, havia pouco tão

animado e alegre.

—«O que foi, o que foi?!—perguntaram as senhoras vendo o dr. Ramalho

dirigir-se apressado para casa do sachristão.

—«Um homem morto, um homem morto—commentava-se de todos os lados.

—«Não se assustem—disse o Visconde—nós vamos acompanhá-las á carruagem e

depois lá iremos ter a casa.

—«Oh Duarte, será melhor não sahirmos d’aqui—aventou a Viscondessa.

—«Não póde ser. Se o povo se lembrasse de invadir a igreja, o que seria

de vós? O mais seguro é partirem já.

—«Oh sr. Visconde, não nos abandone, ai que horror! Eu morro de mêdo!...

Só de vêr este barulho já estou mal—gemeu a Candida enfiada.

—«Não se afflija, minha senhora, isto não é nada, não ha perigo nenhum,

vamos aqui por detraz da igreja, não chega cá, a balburdia!...

—«O melhor é tu dares o braço á sr.ᵃ D. Candida, Duarte. Bella e eu

vamos com o João; como somos mais corajosas, basta um defensor para as

duas... V. Ex.ᵃˢ sigam-nos de perto, ou se preferem vão adeante, como

entenderem...—determinou a Viscondessa, voltando-se para os hospedes, não

deixando de aflorar-lhe nos labios o mesmo sorriso de calma delicadesa.

A confusão e a berraria vinham do primeiro largo, de ao pé das pipas

desramalhetadas do vinho forte da região, e elles affastavam-se seguindo

por detraz da igreja e descendo um bocado de serra até á estrada real,

que se desenrolava em caprichosas curvas costeando o monte.

—«Gostava de vêr aquillo de perto—disse Isabella para a Viscondessa e

João, ouvindo distinctamente o entrechocar-se dos varapaus e a grita

descompassada—deve ser um simulacro de batalha.

—«Isso sim! Tudo aquillo é do vinho a rôdos... Não tem grandesa nem

belleza. É raro o anno que não ha desgraças n’esta romaria.

—«Lembra-se de ha dois annos, prima? Ficou ferido o morgado Albuquerque.

O que a Pillar se impressionou de o vêr lavado em sangue, cuidando que

estava morto! Lembra se?

—«Lembro-me muito bem...

—«Quem serão este anno as victimas?!...

Ambições: Romance · 第 12 / 23 题