I
A criança dormia tranqùilamente, deitada no seu pequenino berço vaporoso
de rendas e resplandecendo de brancura, por êsse glorioso meio-dia de
calor e de luz, no grande e benéfico silêncio que envolvia a vivenda
feliz. A sua carne viriginal e transparente, ainda mal formada, parecia
exalar claridade e tinha a coloração suave de certas rosas pálidas e
orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, como uma ligeira
nuvem de ouro, na alvura da almofada, macia e fôfa, que servia de
travesseiro; e sôbre essa fronte angélica não profanada por impuros,
venenosos pensamentos, baixava um halo de inocência luminosa e de graça
imaterial.
Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa que refrescava o ambiente
inefável e que tornava mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as
formas do mobiliário. Na pacificação deleitosa tudo repousava docemente.
Em cima do mármore do toucador, em frente dum largo espêlho em que se
reflectiam imagens baças e indecisas, floriam perfumados ramos de cravos
brancos em jarras de cristal cheias de água límpida; e da parede alta
pendia, como a protecção celeste da infância adormecida, uma cópia a
óleo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, extasiava os puros
olhos nos fulgores siderais. Cá fóra, o sol--um ardente sol de
junho--rutilava e ardia na atmosfera pesada e abafadiça.
Brandamente, na ponta dos pés para não fazer barulho, Júlia entrou no
compartimento solitário, aproximou-se do casto leito do filho, que tinha
apenas meses de vida, contemplando-o com enlêvo e ternura. Ela contava
então vinte e quatro anos, estava em pleno esplendor da sua beleza e do
seu encanto de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a ventura
iluminava-se-lhe na alma. Duma elegância natural e sóbria, vestia um
amplo roupão de cassa creme apertado na cinta por laços de veludo preto.
O curto decote deixava a descoberto a pele do colo que era setinosa,
dourada e sem o mais ligeiro vinco. Um pente de tartaruga com embutidos
de ouro segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados no alto da
nuca. Os seios direitos e rijos formavam uma delicada curva sob os
tecidos flexíveis, ao arfarem. Dois anos antes, em Vizela, apaixonara-se
sériamente por Nuno Aragão, para quem fôra levada por um forte impulso
de sentimento; e com êle casara ao fim dum romântino idílio em que os
seus sonhos de felicidade deram flor. Essa união íntima que a fizera
espôsa e mãe e a que se devotou com um admirável espírito de abnegação,
completou-a. Os dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem que
dêles ficassem resíduos de tédio...
Absorvida na visão do frágil sêr que lhe trouxera, com a sua pureza e a
sua formosura, uma revelação à inteligência e à subtileza emotiva, Júlia
ajoelhou junto do berço, compondo a roupa à volta da cabecinha ideal,
que a virgindade aureolava, com dedos mais ágeis do que asas--e nem
sequer notava a presença de Nuno que a seguira de perto e que, por
detrás dela, sorria comovido. Houve um momento em que Júlia se curvou
sôbre a face gorda e picada de còvinhas do filho, roçando-a com os
lábios.
--Cautela, não vás acordá-lo!--murmurou o marido em voz de segrêdo.
Ela voltou a cabeça, sorridente: e, fitando-o com uma emoção que o olhar
traía, interrogou:
--Estavas aí?
--Quis acompanhar-te na tua amorável visita--respondeu.
--Olha, vem cá!...-- pediu Júlia. Não é verdade que é lindo?
Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia o sussurro brando da
respiração, passou-lhe um braço à volta do pescoço, puxou-a tôda para o
peito e ambos se embeberam na adoração da criança que continuava
dormindo com a gracilidade e a poesia dum botão de rosa, fazendo um
pequeno volume sob as lãs quentes e as cambraias ténues.
--Não é lindo?--insistiu Júlia. Fala!...
--Como não havia de ser lindo, se veio de ti, da tua purificação, do teu
amor!...
--Do nosso amor!--emendou ela, com palavras de mimo e de queixume,
beijando-o demoradamente na bôca.
--Do nosso amor, dizes bem!--confirmou Nuno, enleado.
--E é curioso como já na sua carinha se desenham as tuas feições. Vê...
O nariz, a testa, o queixo...
--São os teus...
--Não! São os teus!--atalhou Júlia, indicando com o dedo os traços
fisionómicos do filho. Ora observa com atenção...
--Não lhe toques, que podes magoá-lo, coitadinho!--exclamou êle. A sua
carninha é tam tenra, que até tenho mêdo de amolgá-la, quando a beijo.
--Que tolice!...--exclamou Júlia, rindo.
Por um instante, as cabeças de ambos, unidas, fizeram um docel animado
sôbre o berço inocente que agasalhava, embalava, um destino misterioso
para o qual aspiravam tôda a grandeza, todo o génio, tôda a bondade,
todos os favores generosos da sorte enigmática, nessa hora bemdita e
profética em que os seus corações palpitavam com o mesmo ritmo e a mesma
ânsia, as suas vontades se fundiam numa só vontade e as suas ambições se
irmanavam. Depois, com os olhos humedecidos de lágrimas de gôzo
interior, ergueram-se, sempre estreitados num apertado abraço,
fitaram-se com enternecimento, emmudecidos, penetrados por idêntico
júbilo, com a imaginação perdida no encanto das mesmas idealizações.
--Abençoada sejas!--disse Nuno.
--E tu tambêm, por esta paz, esta certeza, esta confiança, esta bôa
fortuna que comunicaste à minha vida--atalhou Júlia com convicção,
afagando-o no rosto.
Saíram do quarto, mirando ainda o filho--que fôra como que a visitação
duma divindade propícia à adoração que nunca deixara de aproximá-los
mais desde o instante admirável em que pela primeira vez se conheceram e
que, entre os ternos cuidados dos dois, cresceria, se faria homem,
prolongaria as suas existências, iria para as éras vindouras, cantando
um hino de esperança. Êle representava a expressão definitiva e tangível
do amor que os identificara, do desejo puro que os fizera vibrar e que
alvoroçara a sua carne, da simpatia física que os juntou. Nas suas veias
corria um sangue que era de ambos; no seu corpo latejava uma carne que
lhes pertencia; e, mais tarde, quando fôsse grande, teria a mesma fé, as
mesmas crenças, as mesmas ideias, as mesmas piedades, as mesmas finuras
de sentir, a mesma nobreza de aspirações.
--Estou hoje tam contente!--afirmou Júlia já na sala, dispondo um
_bibelot_ sôbre a mesa do centro, coberta com um largo pano pintado,
enquanto Nuno acendia um charuto. E êste contentamento vem-me de ti, da
tua fidelidade, da tua delicadeza, e vem tambêm do nosso filho. A luz e
a ventura que esta criancinha veio trazer à nossa casa, Nuno! Pois não é
assim?
--É, querida!
--Parece um milagre! Às vezes, nem quero acreditar!...
--Um milagre que merecíamos.
--Antes dêle nascer, tudo em mim eram sustos, receios, hesitações. Em
certos momentos, tinha dúvidas que me faziam chorar!...
--Dúvidas?
--Sim, dúvidas! Que queres? Aterrava-me o pensamento da morte, do
abandôno em que ficavas... Não era de ti que eu duvidava, isso não; mas
não sei que tristeza me pungia, ennegrecendo, obscurecendo o meu
cérebro... Agora, porêm, tudo se apaziguou, serenaram as inquietações,
tranqùilizaram-se os sobressaltos...
Foi para o marido, que a esperava no meio da sala, com um sorriso de
fadiga que a tornava mais graciosa e mais bela, as pálpebras meio
cerradas, os braços caídos e sem acção, e, encostando-se-lhe ao ombro
forte, acrescentou:
--E sempre te direi que o nosso filho me inspira uma veneração maior por
ti e me fez melhor, mais compadecida por todo o infortúnio, por tôda a
humana desgraça, por todo o vasto sofrimento.
--Se tu és uma santa!--disse Nuno, abraçando-a novamente e com uma
comoção imperceptível na voz.
--Não! Sou apenas mulher e mãe. E é por isso que me lembro
constantemente da desdita das outras mulheres e das outras mães. Ainda
ontem, por exemplo, não pude reter o pranto--oh! um pranto que me
desoprimiu!--ao ver brincar na quinta os filhos do caseiro, descalços e
tam rotinhos, com as faces chupadas e macilentas e uma funda melancolia
no olhar... Antigamente, êstes espectáculos lamentáveis passavam-me
despercebidos, Nuno...
--O mundo está cheio de desigualdades, com efeito.
--Mas é doloroso que haja fome ao lado da nossa abundância!...
--Há de fazer-se alguma coisa, sossega...
--Porque a verdade é que o nosso filho, se fôssemos pobres, andaria por
aí tambêm faminto e nú como os outros, os que nada teem!... É êle que me
pede pelos deserdados...
--Não digas isso!--acudiu Nuno, de repente, muito perturbado... O nosso
filho esfomeado e rôto!... Bem sei que não pretendes acusar-me de
injustiças que não pratiquei... Eu mal conhecia esta quinta e a gente
que a habita; ainda hoje não conheço o caseiro e ignoro as suas
misérias. Antes do nosso casamento, só uma vez vim aqui, porque a
existência tumultuosa das cidades solicitava-me, reclamava-me e
aturdia-me. Há uma semana apenas que nos encontrâmos neste sitio e
nestas terras, que são nossas. Não tive tempo para familiarizar-me com a
sua população, para tudo saber minuciosamente...
--Oh! meu amor, quantas palavras inúteis!
--Não!... É que me fizeste vislumbrar, de repente, possíveis castigos,
terríveis calamidades, abatendo-se sôbre criaturas sem culpa!...
--Eu não queria...--atalhou Júlia, perturbada.
--Certamente, certamente!--disse Nuno, beijando-a na fronte e nos olhos.
É escusado defenderes-te... Mas é que as palavras das mulheres que amam
como tu amas e que no seu amor abrangem tôda a vida consciente, teem uma
profundidade, uma vastidão e uma inflexão que conturba... De resto, tu
só foste justa:--e esta noção exacta da justiça significa a
superioridade das almas femininas sôbre os homens, duros, sêcos,
implacáveis. Com efeito, para sermos absolutamente felizes, é necessário
que à nossa volta só haja felicidade...
--Então, bem vês!...
--Pois está claro, querida... Obrigado pela tua lição tam digna e tam
eloqùente. A tua elevação moral sublima o que em mim ainda existe de
grosseiro e de egoista. Sem o teu aviso, continuaria a haver, perto de
nós, privações e amarguras. Eu nada via; tu, com a subtileza dum amor
materno incomparável, viste tudo, num relance. Ensina-me sempre. Não sou
mau, com certeza, mas incompleto: felizmente, tu completas-me e por isso
a minha gratidão subirá perpétuamente para ti como o perdão dos crentes
sóbe para o céu...
Tinham-se sentado num amplo sofá de molas flácidas que, a um canto,
convidava ao repouso. O sol vivo que se filtrava pela vidraça da janela
respirando para o jardim, batia, já atenuado pelo _store_ de linho cru e
pelo tule dos cortinados, sôbre as rosas que morríam nos solitários,
faùlhava sôbre os móveis, dourava fugidiamente o papel verde que forrava
as paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo no meio dum imenso
campo de milho e produzindo um ruído especial e ritmado de tear. Júlia,
encolhida perto de Nuno, com as mãos esquecidas no regaço, tornava-se
mais pequenina, mais humilde, como se temesse pesar demasiadamente sôbre
aquele amor que pressentia isento de tôda a mácula, perfeito de
dedicação e de constância--um amor que era a razão do seu sêr e o seu
maior orgulho. As expressões carinhosas de Nuno faziam-na còrar,
causavam-lhe uma sensação de inexprimível bem-estar e de pacificação
interior. No seu sobressalto, nem sabia que responder, não encontrava os
termos precisos com que manifestar a sua gratidão.
--Que maravilhosa manhã eu passei hoje na tua companhia, minha
preguiçosa!--exclamou Nuno, quebrando a monotonia dum silêncio que se ia
prolongando.
--Estou tam cansada!--afirmou Júlia, pousando-lhe a cabeça no ombro. E
olha que não tenho feito nada.
--Anunciará êsse cansaço alguma doença?
--Não, que ideia! Nunca me senti com tanta saúde. Êstes ares campestres
teem-me feito muito bem. Por mim, não saíria mais daqui!
--Então, encontramo-nos na mesma ambição, o que não me surpreende,
porque já nos havíamos encontrado no mesmo sentimento.
--Pois queres, na verdade?...--perguntou ela, fitando-o com infinita
meiguice. Que prazer me dás com isso!...
Arrependendo-se, porêm, dum contentamento que não soubera esconder e que
lhe parecia impuro, atalhou prontamente:
--Não, não!... Que loucura! Na cidade, tens os teus amigos, os teus
passatempos, as tuas conversas, as tuas distracções. Aqui não há nada
disso. Terminarias por aborrecer-te, por enfadar-te...
--É necessário que saibas que não há coisa que me cative, longe de ti,
fóra do nosso lar, para alêm do berço do nosso filho. Nem sequer tenho
pensamentos que não sejam os teus.
Júlia, no entanto, teimava na certeza de que a permanência constante na
quinta seria o sacrifício de Nuno, segura de que se não pode romper sem
violência com hábitos contraídos e fundamente enraízados: e, para que a
sua teimosia encontrasse vibração no marido, asseverava:
--Eu mesma viria a sofrer neste êrmo, mais tarde. Enquanto durar o
verão, isto será, realmente, bonito. Há luz, há horizonte, podemos dar
largos passeios, admirar tôda essa paisagem deliciosa, sentir tôda a
poesia rural... Mas depois, quando aparecer o inverno, com os seus dias
e as suas noites de chuva, a sua desolação, os seus frios, as suas
tempestades, a cidade, que é o movimento, a variedade, a sociabilidade,
voltaria a apetecer-nos...
Falando assim, Júlia estava intimamente convencida de que defendia a
continuidade da adoração de Nuno, a sua felicidade permanente, a
inalterável placidez de relações conjugais que um mal entendido seria
capaz de comprometer irremediávelmente. A ternura que sentia pelo marido
e que se lhe apoderara do sangue, da substância nervosa, de todo o seu
organismo psíquico e material, afinava-lhe a inteligência, tornava mais
arguta a sua capacidade de analisar e de compreender. Não aspirava,
únicamente, ao amor de Nuno, mas tambêm à sua gratidão e ao seu
respeito. Residir para sempre na quinta, distante dum bulício que a
desgostava e de episódios sociais que a não interessavam, sería o seu
supremo desejo--um desejo a que Nuno acederia alegremente: mas
considerava que o isolamento, a ausência de convivências e de amizades,
a falta de ocupações recreativas, viriam fatalmente a deprimir e
entristecer aquele homem que era o mais fiel dos homens e que, para a
amar mais puramente e mais intensamente, renunciara a tudo o que fôsse
estranho à sua paixão.
--Ah! se é por isso!...--disse Nuno. Na verdade, não te habituarias a
êste deserto, minha filha... Eu sim, porque gosto da solidão, porque as
multidões fazem-me mal. Mas, o que eu não permito é que te
sacrifiques...
Uma criada entrou, trazendo o correio que acabava de chegar. Eram
jornais e cartas que Nuno começou a abrir distraídamente, enquanto Júlia
continuava a arrumar com mais ordem e mais elegância as peças do
mobiliário, a deitar água nas jarras das flores, a espanejar o pó leve
que maculava o verniz das _étagères_.
--Tu não tens quem faça êsse serviço?--perguntou Nuno, parando um
momento de lêr a sua correspondência.
--Oh! filho! Deixa-me ocupar em alguma coisa... Depois, é uma séca. Por
mais que recomende e que ralhe, nunca me atendem, não fazem nenhum caso
do que digo. Isto de criadas...
--Procuram-se outras melhores.
--Ora! São tôdas piores!...--exclamou Júlia, rindo.
--Mandam-se fabricar por um modêlo que tu escolherás à tua vontade, com
molas vindas das oficinas de Londres, movendo-se por um sistema de
relojoaria... E tu verás então como obedecem, como são atenciosas e
pacientes...--respondeu êle, rindo tambêm e reencetando a leitura
interrompida.
A vélha habitação, onde outrora tinham vivido os avós de Nuno, que eram
abastados proprietários rurais, parecia cabecear de sono sob o dourado,
faíscante banho do sol, sem que o menor ruído perturbasse a sua
sonolência. Altas roseiras de trepar subiam pelas paredes cobrindo-as de
vermelhas e míudinhas rosas de toucar. No pombal, que ficava ao lado,
perto da capoeira, arrulhavam as pombas aos pares. Errava no ar um
dormente zumbido de moscas.
--E esta?--bradou Nuno, de súbito, pousando sôbre uma cadeira a carta
que tinha entre as mãos.
--Que é?--inquiriu Júlia, aproximando-se. Alguma novidade?
--Uma novidade estupenda. Nem tu calculas. Sabes quem vem aí, fazer-nos
uma visita?
--Não sei, não posso adivinhar...
--Pois devias, para seres absolutamente perfeita, dispor dêsse dom...
Quem vem aí visitar-nos é Frederico, aquele rapaz que foi meu camarada e
que é o meu, o nosso melhor amigo!...
--Tinha-lo convidado?... E não me dizias nada!...
--Escrevi-lhe, antes de partirmos para aqui, como me obrigava o meu
afecto. Ofereci-lhe, na nossa casa, uma enxêrga e uma tigela de caldo, à
severa moda de Esparta... E êle aceitou. Bom, excelente Frederico!...
--Quando chega êle?
--Estará, entre nós, àmanhã ao romper do dia. Já almoça. Dá as tuas
ordens para que se arrange um quarto a êste vagabundo que tam
amávelmente se lembra do nosso exílio... Será uma companhia.
De dentro, da alcova, veio um débil vagido que deteve repentinamente a
conversa de Nuno e de Júlia.
--Sua ex.^a despertou e reclama, naturalmente, o _lunch_--disse êle,
levantando-se. Onde está a ama?
--Lá em baixo, a brunir. Vai chamá-la, enquanto eu entretenho a
criança--murmurou Júlia, dirigindo-se ao quarto.
Nuno pegou nos jornais e nas cartas apressadamente lidas e desceu ao
pavimento inferior, gritando pela ama do filho, que acudiu tôda
afogueada do calor do ferro. Era uma rapariga na fôrça da vida,
saùdavel, bem constituída, de fortes seios estalando de seiva sob o pano
do colete, braços gordos e estriados de rija musculatura.
--Corra lá acima à senhora. O menino acordou agora mesmo.
Ela galgou logo as escadas ágilmente, num rumor de saias engomadas,
exclamando jovialmente:
--Aí vou, meu amorsinho, aí vou!...
Nuno, satisfeito com as suaves emoções daquela clara e plácida manhã
familiar, saíu para o jardim que, à roda da vivenda tranqùila, rescendia
e refrigerava, com os seus canteiros coloridos onde desabrochavam os
cravos rajados e as derradeiras rosas do estio. Estava um tempo
maravilhoso. O céu luzente e translúcido arqueava-se sôbre a quinta como
um enorme pálio de sêda azul sem uma ruga. Os negrilhos, as tílias, os
amieiros e os plátanos deixavam caír das suas espêssas folhagens a
consolação afável das sombras. Pelas ramagens que sussurravam à brisa
adejante, cantavam as aves. A cada passo, amplos bancos de cortiça, que
as copas dos vetustos arvoredos amenizavam de fresquidão, solicitavam ao
descanso e às séstas aprazíveis. Nuno, passeando vagarosamente, ia
pensando que por ali se teriam sentado outrora, nas tardes de calor, as
senhoras da sua casa com os livros dos poetas esquecidos no regaço,
sempre que de verão vinham procurar ao campo a saúde e as bôas côres que
a cidade lhes roubava. Aquele retiro estava cheio de recordações, de
saùdosas memórias dos antepassados. Sua mãe, que havia falecido dois
anos antes de êle se casar com Júlia, passara no doce refúgio--em que
agora se encontrava com a família que constituira e que era todo o seu
enlêvo--a primeira infância, saltando pelos arruamentos que o Jacinto
jardineiro trazia sempre bem areados, regados e varridos. Evocando
piedosamente a figura de mamã, que fôra tam gentil e que uma doença
cruel bem cedo arrebatara, Nuno concentrava-se, recolhia-se para com
mais intensidade sentir. Pobre, pobre mãe precocemente morta e que com
tanto fervor lhe queria! Revivia-a na imaginação, reconstituia-a com
nitidez. Parecia-se ainda um pouco com Júlia na bondade, na afabilidade,
nas maneiras, no timbre da voz, na candura e na meiguice materna.
Existiam nelas mesmo determinadas semelhanças exteriores que o
surpreendiam--nos olhos que, em ambas, eram negros, profundos e húmidos,
na finura das linhas plásticas, na brancura da pele, na nobreza da
expressão fisionómica que reflectia conjuntamente a paixão, a gravidade
e a graça. Sobretudo, quando observava o sorriso de Júlia--um sorriso em
que havia qualquer coisa de castidade infantil, de seriedade ponderada e
de ternura ingénua, Nuno assistia, deslumbrado, a uma verdadeira
ressurreição. E foi por isto, de-certo, que amou desvairadamente a
espôsa desde a primeira noite em que a viu, no salão dum hotel de Vizela
onde se dançava, e que ainda a amava e amaria sempre com o mesmo
transporte e a mesma firmeza. A mãe, que não fôra feliz no
casamento--porque o marido desertava do lar conjugal para correr atrás
doutros amores, para atirar ouro aos punhados sôbre as bancas do jôgo,
para dissipar uma existência que nunca encontrou sossêgo senão na
sepultura--ressurgia na mulher admirável que era a sua doce companheira
e que, com geito divino, devotando-se-lhe, lhe fizera a revelação da
felicidade!...
Continuando o passeio e embebendo-se em lembranças, que aviventava para
seu gôzo espiritual, Nuno chegou, insensivelmente, a meio da
propriedade, que era de vastas dimensões. Para lá do parque frondoso,
com uma rica decoração de troncos nodosos e recobertos de musgos
parasitários, ficava o pomar que vergava de frutas pelos outonos
elegíacos, quando as fôlhas amarelas caíam como asas que cessassem de
bater: e mais abaixo, espraiavam-se as terras de cultura, as pastagens
para o gado, abundantemente regadas por águas espertas e vivas que
desciam, cantando, das bôcas negras das minas, frias e saborosas: o
casebre dos caseiros pegado aos currais: a eira todo o dia batida de
sol. Ao fundo, um pinheiral cerrado de rama verde-negra, que dava a
lenha para o lume, fechava à vista a linha do horizonte. Das bandas do
norte, elevavam-se espinhaços de serranias escarpadas, correndo dum
extremo a outro e azulando-se, no crepúsculo, com os nevoeiros que, como
um fumo ligeiro e branco, ascendiam das profundidades do vale, afogado
em vegetações exuberantes. A quinta, situada nos arredores de Guimarães,
pertencia já a Nuno ainda em vida dos pais. Legara-lha seu avô materno,
aterrado certamente com as dissipações do genro que fundia em orgias, em
viagens que não tinham fim, em ligações ilicitas, o dote da mulher
legítima e que ameaçava deixar na miséria, aos acasos incertos do
destino, o filho único. Ah! êsse pai! Nuno não queria mal à sua memória,
que venerava, recordava-o com saùdade e com mágoa, não invejava o
dinheiro que êle espalhara estérilmente com mãos perdulárias.
Desculpava-o. Era fogoso, irreflectido, embrenhava-se em aventuras
arriscadas, perseguindo uma ilusão dos sentidos que jàmais alcançou,
tinha um irónico desdêm por tôdas as convenções, caracterizava-se por
uma rebeldia de temperamento que nenhum conselho prudente e fecundo
conseguia apaziguar; o seu egoísmo de _jouisseur_ não admitia restrições
naquilo que julgava essencial ao seu gôzo próprio; fôra, talvez, um
doente, uma organização enfêrma expiando sucessivas acumulações de
hereditariedade mórbida que vinham de longe, prolongando-se em gerações
taradas e denunciando um doloroso fim de raça. Obedecera passivamente,
por ausência de vontade, aos secretos e vertiginosos impulsos do seu mal
interior--do mal que insaciávelmente o roía, lhe debilitava o carácter,
o esgotava de energia para tôdas as reacções nobilitantes...
O amor tornava Nuno generoso. Só lamentava que sua mãe tanto tivesse
sofrido sem se queixar, transida, conformada com o infortúnio,
agarrando-se ainda nervosamente ao seu verdugo como as heras se agarram
a uma árvore carcomida, negando-se com obstinação a separar-se dêle e a
voltar para o lar paterno, onde seria recebida em festa e onde a sua
existência atribulada encontraria suavidade e consôlo--porque,
a-pesar-de tudo, continuava a amá-lo com ansiedade, com loucura, com uma
constância que nunca afrouxou. Pensando neste caso singular de devoção e
de sacrifício, Nuno julgava que havia herdado da mãe as virtudes
afectivas, a rectidão, a lealdade, a sensibilidade aguda--e
considerava-se feliz por isso...
Meteu-se resolutamente por um fechado milheiral, onde amadurecia ao sol
de Deus o pão sagrado que daria alento e fartura às bôcas famintas e
pálidas. Largas fôlhas compridas como espadas roçavam-lhe o rosto,
açoutavam-lhe as mãos; as suas botas atolavam-se no terreno remexido de
fresco e humedecido das regas que levavam o alimento às raízes; um
cheiro acre de seivas e de ervas esmagadas impregnava a aragem. Nuno
aspirava-o a fundos haustos, murmurando, regalado:
--Ah! isto vigoriza, tonifica!
Da banda do nascente, uma poeira de luz flutuava sôbre os píncaros das
montanhas escalvadas que, por vezes, na sua imobilidade, tinham atitudes
quáse humanas, sugerindo formas gigantescas e animadas, curvando-se
sôbre a sombra, o vazio dos abismos. Enquanto caminhava e admirava êste
maravilhoso trecho de paisagem, Nuno ia recebendo uma lição de coisas
ignoradas. Com efeito, era aquela a primeira vez que visitava tam
minuciosamente a quinta, que fôra a morada pacífica e venturosa dos seus
avós, da sua gente. Só ali tinha vindo uma vez, de fugida, para conhecer
uma parte dos domínios territoriais de que era senhor, mas não passara
do jardim, onde por sinal havia colhido um cravo branco com que floriu a
lapela do seu casaco de casimira inglesa. Ao cabo duma curta hora, logo
abalou para o Pôrto, onde nascera e onde vivia, alarmado com tanta
solitude, penetrado de melancolia e de desalento, sem compreender como
certas criaturas podiam permanecer longe das cidades, do seu movimento,
das suas seduções, dos seus aliciantes espectáculos. Nesse tempo, estava
ainda solteiro, completava na Academia Politécnica o curso de
engenharia, era revolucionário como todos os seus camaradas, freqùentava
com assiduidade as reùniões políticas em que se conspirava contra a
Monarquia, tinha rixas com a polícia e namorava as costureiras. Agora,
porêm, via com olhos diferentes dos dessa época, possuía uma compreensão
mais lúcida, tudo nêle se havia modificado, existia na sua alma um
sentimento mais equilibrado e mais justo. A inquietação antiga apenas
servira para transmitir um grato sabor á paz actual: a reflexão e o
estudo tinham-lhe revelado o mundo e as sociedades por um outro aspecto.
Para êle, as _urbs_ onde se agitam os densos formigueiros de seres
conscientes, gritando os seus desesperos e as suas cóleras,
representavam a tentação corruptora, a deliqùescência, eram as sinistras
geradoras da dor e dos pessimismos modernos: e o campo, a aldeia,
constituíam os reservatórios da vida salubre, os últimos santuários da
crença religiosa e da felicidade onde os réprobos deviam retemperar-se
anualmente. Como a sua mocidade fôra inconsiderada! Em compensação, como
os seus trinta e cinco anos eram sábios e estavam na verdade!... Ao
romper do milheiral em que se perdera, encontrou uma clareira bucólica
de terra que andava a horta, onde cresciam e enconchavam as couves
tronchudas, verdejavam as tiras das alfaces e os talhões de feijoal
ondulavam ao vento brando. Um homem, em mangas de camisa, magro, esguio,
de rosto queimado pelos ardentes bafos das soalheiras, cavava, com uma
grande tristeza na face, em que se emmaranhava a barba crespa e negra, e
nos olhos que fulguravam. Nuno foi direito a êle, saùdando-o
amigávelmente. O cavador, tirando o chapeú esburacado e sujo, murmurou
com humildade:
--Salve-o Deus, meu senhor.
Durante um momento Nuno entregou-se à contemplação do pobre trabalhador,
de cara macilenta e mãos calejadas e nodosas, em que os dedos deformados
lembravam negras raízes. A camisa aberta no peito deixava a descoberto
uma pele macerada, repuxando sôbre os ossos salientes: e uma grande
piedade comoveu Nuno por tanta miséria.
--Vocemecê--perguntou êle--é que é o caseiro?
--Saiba vossa senhoria que sim. Já lá vai um ror de anos depois que para
aqui entrei, e tenho pago honradamente as rendas.
--Bem sei, bem sei! Eu sou o dono da quinta...
--Pois vossa senhoria é que é o netinho do snr. Vicente, que Deus haja?
--Sou eu mesmo...
--Oh! meu senhor! Desculpe, que eu não o conhecia.
--Mas, desculpar o que, bom homem?...
--É que eu nem sequer fui vê-lo lá acima, ao palácio... Não podia
adivinhar... Tinha-me dito o snr. José, procurador, que vinham viver na
casa grande por algum tempo uns senhores, mas eu não contava... Sempre
uma assim! A gente anda cá nas nossas apoquentações, não tem vagar para
nada...
E imediatamente, vergado ao hábito da obediência, submetido ao jugo da
escravidão que sempre, no decurso duma vida trabalhosa e amarga, o
coagia a rojar-se, a fazer-se mais pequeno diante dos poderosos,
atirando a enxada para a leiva revolvida, aproximou-se de Nuno, baixando
a cabeça descoberta como para receber o justo castigo duma grande falta.
--O senhor perdôe... Eu não sabia...
--Homem, já lhe disse!... Não tenho que perdoar. Está claro que a sua
visita era-me agradável:--mas como amigo e não como dependente. É boa...
Ponha o chapéu.
--Como amigo, como amigo!...--mastigou o caseiro, com a língua
embrulhada na bôca e os olhos rasos de água, conservando o chapéu nas
mãos.
--Como amigo, certamente... E ponha o chapéu. Agora, mando eu. Ponha o
chapéu, avie-se.
--Isso é que não... O respeito não fica mal a ninguêm. É um dever...
-Se não pôe o chapéu, zango-me e vou-me embora...
--Ora essa!... Pois!...
--Afirmo-lho! Ou faz o que lhe peço ou retiro-me...
--Então, com sua licença, fidalgo...
--E vamos conversar à bôa paz... Está contente com os terrenos que traz
arrendados?
--Eu não me queixo... Vão dando para viver, com a ninhada dos filhos e a
mulher entrevada, melhor ou pior, como Deus é servido.
--Pois, não tira lucros?
--Umas vezes pelas outras tiro, sim, senhor, que a terra anda bem
tratada. Não lhe roubo ao sustento preciso... Mas lá vem um ano mau em
que parte das colheitas se perde, lá morre um boi, e vão-se as economias
escassas, para uma pessoa não ficar envergonhada... Adeus, minhas
encomendas! Percam-se os aneis, mas conservam-se os dedos, como o outro
que diz...
--Ah! eu julgava que a lavoura era remuneradora.
--A terra é quáse sempre ingrata para os que dela vivem, senhor... Alêm
disso, para recolher é necessário semear e o dinheiro não me sobra...
Mas isto não é chorar-me. Não quero aborrecê-lo. Vive-se com o muito e
vive-se tambêm com o pouquinho...
--E a mulher entrevada, disse?
--É verdade, coitada! Fiquei dum dia para o outro sem o braço que me
ajudava, e ando consumido, cá por dentro, de vê-la sofrer. Depois que
teve o último filho, nunca mais se ergueu...
--Infeliz!... E os médicos?!...
--Os médicos... São muito caros. Veio aí um algumas vezes, para me dizer
que o mal não era de morte mas que não tinha cura!... E o que mais me
custa, meu senhor, é que a pobre de Cristo está sempre a pensar na
labuta, na canseira do trabalho, e quando vou para comer a migalha,
costuma dizer:--«Oh! meu homem, que te matas... Oh! criatura que não
tens um momento de descanso e eu para aqui a curtir a minha doença, sem
poder auxiliar-te... Que Deus me leve!»... Enfim, corta o coração,
coitadinha... E foi sempre tam minha amiga, Senhor do céu! Estamos
casados há anos e damo-nos como Deus com os anjos...
Enquanto falava, o cavador limpava as lágrimas, que lhe corriam em fio
dos olhos, às costas da mão negra e cheia de terra. Nuno, condoído,
desviara a vista.
--Quantos filhos tem?
- Em casa tenho seis. Quatro, três raparigas e um rapaz, já casaram.
--São grandes, os que vivem consigo?
--Dois lá me vão ajudando a levar a cruz ao Calvário. Os outros são
pequeninos... Teem a fatia do pão, mas falta-lhes a mãe para olhar por
êles...
--Pois, está bem! Creio que a renda anda um pouco elevada... Hei de
falar com o meu procurador... E ouça...
--Oh! meu fidalgo, eu não pedi que me baixasse a renda...--acudiu o
caseiro, de fronte erguida por uns restos dêsse orgulho que existe
tambêm no coração dos desgraçados.
--E ouça--continuou Nuno--disse há pouco que, se tivesse dinheiro, faria
com que a terra produzisse mais. Terá êsse dinheiro. Sou eu que lho
empresto... Nada de agradecimentos. Pagar-mo há quando o tiver... Quanto
à entrevada, é preciso tratar dela. Minha mulher há de ir vê-la--porque
as mulheres entendem-se umas às outras. E adeus!--concluiu,
estendendo-lhe a mão.
O caseiro olhou com espanto a mão aberta, franca e leal de Nuno, cravou
depois no rosto do seu senhorio os olhos atónitos e fulgurantes como
carvões acesos, muito enleado, sem nada compreender, sem fazer um
movimento, sem murmurar uma palavra.
--Adeus, bom homem!--insistiu Nuno. Não se acanhe. Tenho apertado a mão
a criaturas muito menos dignas do que vocemecê é!
Então, o caseiro, entalado de soluços, rendido de admiração diante de
tanta grandeza de alma, apoderou-se daquela mão purificada que se
baixava bondosamente para levantar os que sofriam e que eram humildes,
gaguejando, com a voz entaramelada:
--Ah! meu amo, que isto é o fim do mundo! Um fidalgo como vossa senhoria
a tratar assim um ninguêm como eu!... Bemdito seja o Senhor, que ainda
há tanta gente bôa!
E, na sua exaltada gratidão, queria beijar a mão que Nuno lhe dava.
--Não, isso não! Há maneiras de reconhecimento que se não aceitam,
porque melindram quem as pratica e quem as recebe...
--Deixe-me, meu senhor!... Ainda há pouco disse: «meu amigo!» Um
lagalhé, como eu, amigo de vossa senhoria!...
Nuno, por fim, desembaraçando-se do cavador, despediu-se e afastou-se
dêle, enternecido e murmurando entre dentes:
--Creio que realizei hoje a melhor acção de tôda a minha vida... E devo
a sua inspiração a Júlia... Que horror! Tanta miséria, mulher entrevada,
criancinhas com fome e eu a alimentar a minha opulência com o esfôrço
desta penúria!...
Dirigindo-se novamente para o jardim, meditava que, para as almas
sensíveis, as transfiguradoras alegrias de bem pouco dependem. Bastava
para conquistá-las, um gesto mais espontâneo de bondade... Como o seu
dia fôra proveitoso, efectivamente! Vivera momentos inolvidáveis junto
do berço do filho, que dormia como uma doce flor por desabrochar com
tôda a alma inocente reflectindo-se-lhe na face, que era inconsciente,
que mal reparava ainda nas coisas que o cercavam e que, no entanto,
enchia tôda a casa, tôda a sua vida, todo o seu amor de encanto, de
esperança e de perfume! Depois, a adoração da espôsa dera-lhe uma lição
de magnanimidade e fizera-lhe sentir a branda promessa duma ternura
eterna, duma inalterável dedicação que o iluminaria pelos anos fóra. Em
seguida, recordara a memória venerável da mãe, no seu passeio pelo
parque--essa mãe que tanto o tinha amado e que, mesmo morta, era uma
radiante luz de que lhe vinha claridade e beleza moral, e corrigira
nobremente desigualdades sociais, decidido a conceder um pouco mais de
bem estar a sêres desditosos que activamente lidavam, acrescentando a
sua riqueza. Para que nada faltasse à formosura dêste dia magnífico, até
o seu único amigo e seu companheiro de estudos e de boémias românticas,
acabava de anunciar-lhe que viria passar junto dêle uma semana, um mês!
Levantara-se com sorte, certamente. Há horas predestinadas para a
ventura, como há outras predestinadas para a desgraça...
Entrou em casa, trazendo debaixo do braço jornais que não abrira e
cartas a que não ligara atenção, exceptuando a de Frederico, que era
sumamente grata à sua amizade. Subindo ao primeiro andar, foi encontrar
Júlia com o filho, gordo, robusto, de cabelo muito louro e uns olhos
muito azúis, nos braços amorosos. Nuno beijou a criança com mais devoção
do que beijaria uma imagem religiosa, beijou tambêm a espôsa longamente
na testa e na bôca, para agradecer-lhe a felicidade de que transbordava.
--Que é isso, que é isso?--perguntou ela, sorrindo com aquele sorriso
que lhe fazia evocar a mãe.
--É que te amo, que te amo, e que não sei dizer-te por outra forma o meu
amor!