Fraco, pequeno, e pobre na origem, Portugal teve de luctar d

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existentes neste texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡

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o original. No final deste livro encontrar· a lista de erros

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Rita Farinha (Dez. 2009)

OPUSCULOS

OPUSCULOS

POR

A. HERCULANO

SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

SOCIO CORRESPONDENTE

DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID

DO INSTITUTO DE FRAN«A (ACADEMIA DAS INSCRIP«’ES)

DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM

DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

TOMO VI

CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

TOMO III

LISBOA

VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

73, Chiado, 75

M DCCC LXXXIV

COIMBRA--IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

UMA VILLA-NOVA ANTIGA

1843

Se passardes pelos olhos uma carta topographica de Portugal, em cada

provincia, em cada comarca, talvez em cada pequeno districto, achareis

escripto, ao lado de alguns d'esses signaes que marcam as povoaÁıes, a

palavra _Villa-nova_: Villa-nova de Rei, de S. Cruz, de Gaya, de

Cerveira;... que sei eu?--Villas-novas de todos os sobrenomes, e atÈ

villas-novas de ninguem e de nada; villas-novas espurias.

Villa-nova È o _dom_ municipal, o dom vill„o; porque, por extravagante

antiphrase, villa-nova quasi sempre indica um antigo burgo com suas

rugas de velhice, com seu castello desmoronado, com seus vestigios de

templo ou de palacio da meia-edade. Villa-nova moderna, sem pedras

amarellas, tombadas, ogivaes, È cousa descommunal, milagrosa, e ao rÈz

do impossivel. … que o passado, remoto, remotissimo, como o imaginardes,

j· foi presente, e ent„o a villa que se alevantava ou no desvio, atÈ ahi

inculto e intractavel, ou sobre os vestigios de povoaÁ„o deshabitada e

destruida, era realmente _nova_; mas os seus edificadores esqueciam-se,

ao dar o nome · obra das proprias m„os, que elles passariam bem depressa

e com elles a mocidade da sua filha querida; esqueciam-se de que o

correr dos annos brevemente havia de converter em palavra sem sentido

essa denominaÁ„o que lhes parecÍra t„o clara e precisa. Aos primeiros

respiros de paz e seguranÁa, depois das guerras barbaras de religi„o e

de raÁa que devastaram outr'ora este solo portuguez, o espirito

municipal ia semeando os concelhos ao passo que debaixo dos marcos das

fronteiras christ„s se embebia o territorio mussulmano, e ent„o

acontecia que o burgo, recentemente plantado em terra atÈ ahi erma e

s·fara, ou sobre as ruinas carcomidas de municipio romano ou godo,

sentindo-se cheio de vida e de esperanÁas, folgava de contar ao mundo no

proprio nome a sua juventude, e tomava para si o titulo t„o querido, t„o

popular, t„o casquilho--de Villa-nova.

E ·s vezes as villas-novas vinham encostar-se aos muros carrancudos e

robustos das cidades reaes ou episcopaes. Eram como uma crianÁa rosada,

risonha, travessa, que se atira ao collo da velha rebarbativa, e se lhe

pendura ao pescoÁo, e desata a rir--a bom rir. Acontecia tambem que uma

ou outra ia assentar-se · beira de um rio, defronte de povoaÁ„o

orgulhosa, e similhante a trasgo inquieto zumbia-lhe insolentemente aos

ouvidos, e desangrava-a roubando-lhe o seu commercio: mettia-se atÈ em

bandos politicos para lhe fazer perraria; e inimiga d'ao pÈ da porta n„o

havia casta de incommodo que lhe n„o causasse. Que outra cousa fez

Villa-nova de Gaya ao burgo episcopal do Porto, burgo t„o grave, t„o

serio, t„o devotamente enroscado em volta da sua cathedral, aos pÈs dos

seus sanctos bispos? Quem, sen„o Villa-nova de Gaya, assoprou

provavelmente entre os honrados burguezes da cidade do Douro aquelle

espirito de irmandade e revolta que tanto veio depois a incommodar os

successores do veneravel D. Hugo?

Lisboa--guerreira e depois mercadora--tambem teve, n„o uma, mas duas

villas-novas abraÁadas · sua cinta de muralhas: a primeira ao sul, a

segunda ao poente. Chamava-se aquella Villa-nova de Gibraltar: esta

Villa-nova d'Andrade. A segunda, nascida no seculo XV, viveu dois dias

apenas, porque Lisboa, essa _villa_[1] limitada nos fins do seculo XII a

15:000 habitantes, em quanto a mourisca Silves contava 25:000, cresceu

com tal rapidez na epocha dos descobrimentos que, rompendo ou, antes,

galgando por cima dos lanÁos occidentaes dos seus muros, a devorou ainda

no berÁo, ou para melhor dizer partiu-a em fragmentos, e aos seus

membros despedaÁados chamou Bairro-alto, Chagas, Sancta Catharina. Villa

nova d'Andrade foi uma cousa fugitiva, sem gloria, sem individualidade.

D'ella poderia dizer-se o que o psalmista dizia do impio--´vi-a exaltada

como o cedro do Libano: passei, e n„o existia; busquei-a, n„o lhe achei

rasto.ª Deixemol-a, pois, na paz do esquecimento e do nada.

N„o assim Villa-nova de Gibraltar. Fallae-me de Villa-nova de Gibraltar!

Esta sim, que viveu. A sua origem perde-se nas trevas dos tempos

chamados barbaros, entronca-se no berÁo da monarchia. Assentada · beira

do Tejo, fÛra do lanÁo de sul e sueste da muralha arabe, ou talvez goda

(quem poder· hoje dizel-o?!), que cercava Lisboa antes do seculo XIV,

saudavam-na os primeiros raios do sol oriental, aqueciam-na todos os do

alto dia, douravam-na os derradeiros que vinham do poente roÁando pela

superficie das aguas. A cidade l· estava sombria entre as torres e altos

muros da sua cerca; agachada nas faldas do seu castello soberb„o e

malcreado; prostrada em volta da sua cathedral ampla e triste. Mas que

importava isso a Villa-nova de Gibraltar? Ahi n„o havia nem muros, nem

torres, nem castellos, nem campanarios. Ella mirava-se no rio, e

achava-se bella; bella por si e pelo luxo dos seus atavios; porque

Villa-nova de Gibraltar era a atravessadora de quasi toda a mercancia; a

patria dos rendeiros e _sacadores_ das rendas e direitos reaes: era rica

e potente; e ao sobrecenho altivo da velha Lisboa, confiada na sua

epiderme de marmore, respondia ella mostrando a sua armadura d'ouro, e

depois punha-se a rir, porque bem sabia j·, como nÛs hoje sabemos, que o

ouro È mais forte que o marmore.

D. Fernando I, que foi para com Lisboa como um amante selvagem, ora

querendo aniquilal-a porque lhe preferia em amores o alfaiate Fern„o

Vasques, ora lanÁando-lhe no regaÁo riquezas, privilegios, tudo, quiz

n'um accesso de ciume escondel-a aos olhos d'estranhos. J· ella, a

namoradeira, sahindo da Porta do Ferro, pelo terreiro da cathedral,

corrÍra para o valle de Valverde e se reclin·ra por ahi abaixo indo

espreitar a barra c· da margem do rio; j· comeÁava atÈ a galgar pela

encosta fronteira para o lado do gothico mosteiro de S. Francisco e para

a ermida dos Martyres, e pela Pedreira do Almirante para o convento dos

sanctos frades da RedempÁ„o. ´Alto l·!ª disse o bom do rei D. Fernando,

e, chamando os villıes sujeitos · ad˙a por todas as villas e logares

d'arredor, lanÁou · cintura da doudinha uma nova faixa de muros, para

que n„o passasse alem. Ficou-se, È verdade, espairecendo Lisboa pelo

valle e pela encosta, mas ao menos, atraz das novas torres e quadrellas,

j· n„o podia fazer gatimanhos de presumida aos que vinham visitar em som

de paz ou de guerra os campos das suas cercanias, ou as aguas da sua

enseada.

E que era nesse tempo feito de Villa-nova de Gibraltar? L· estava

senhoril e desdenhosa, · beira do Tejo, indifferente aos arrufos de

Lisboa e aos ciumes de D. Fernando. Pacifica e fiel n„o se entremettia

em negocios alheios, n„o tumultuava, n„o se namorava d'estranhos. Assim

a muralha real que bojava para poente, passou pÈ ante pÈ por entre ella

e a cathedral para n„o a affligir: encorporou-se ahi com os antigos

muros para a deixar, como atÈ ent„o, exposta · sua t„o querida restea de

sol. Novas portas, todavia, a uniram com a antiga cidade, que t„o

rapidamente crescÍra e se fizera garrida. Foi por ahi que lenta e

traiÁoeiramente Lisboa pÙde chegar a submettel-a e devoral-a.

E quereis saber por qual raz„o, e como? Dir-vol-o-hei. Era que na fronte

de Villa-nova de Gibraltar, abaixo do seu diadema rutilante de princeza,

estava escripta uma lenda fatal e maldicta; uma lenda que por muito

tempo foi apenas ignominiosa; mas que nos fins do seculo XV se converteu

em sentenÁa de morte, em signal estampado pela m„o do archanjo do

exterminio. Esta lenda encerrava apenas duas palavras, mas palavras

blasphemas, que sÛ podiam ser apagadas destruindo-se a existencia

individual da povoaÁ„o que se atrevia a apresental-as deante da luz do

cÈu.

Villa-nova de Gibraltar era a _Communa dos Judeus_!

A edade-media, essa epocha altamente poetica, porque tinha crenÁas, e

profundamente symbolica, porque era poetica, havia feito de Lisboa um

symbolo da historia religiosa e politica. O municipio christ„o, partindo

do alto alcaÁar ou castello, dilatava-se atÈ ·s raizes do monte, em cujo

topo campeava, a cavalleiro de todos os cabeÁos dos arredores, a torre

de menagem--a guarida do alcaide-mÛr--como representante do senhorio

real e da aristocracia: · sombra do alcaÁar, e a mais de meia encosta, a

cathedral alÁava os seus dois campanarios altivos, quadrangulares,

massiÁos: entre essas duas expressıes materiaes da monarchia, da

nobreza, e da egreja, a casa da camara--os paÁos plebeus do concelho,

proximos do campanario septentrional da sÈ, ch„os e

humildes--representava o povo que em silencio se preparava para ir

estender os braÁos endurecidos pelo trabalho, e subjugar algum dia, ·

direita o alcaÁar, · esquerda a egreja. Na configuraÁ„o da cidade

resumia-se a historia social do passado e a prophecia do futuro. Como

tantas cousas da edade-media, Lisboa era um verdadeiro symbolo.

N„o o era sÛ, todavia, do pensamento politico: tambem o era da idÍa

religiosa. No amago da povoaÁ„o, no logar eminente, estava o

christianismo; ao norte, em profundo valle e apinhado em volta de

mesquita apenas tolerada, ficava o bairro dos mouros, a _Mouraria_; e ao

sueste, quasi ao oriente, lanÁada ao pÈ da _Esnoga_, a _Judearia_:--uma

crenÁa verdadeira, mas temporaria, do lado donde o sol surgia na sua

ascens„o para as alturas; a religi„o do Christo, complemento divino

d'aquella, assoberbando-a do monte sobranceiro; o islamismo,

transformaÁ„o impia e tenebrosa d'ambas, como escondido ao norte na

penumbra da cruz triumphante; e ao longe as vastas solidıes do oceano,

atravez das quaes os filhos do evangelho o deviam levar algum dia ·s

regiıes ainda incognitas de novos mundos. O velho Portugal tinha feito

da cidade do Tejo um symbolo e uma prophecia sublimes!

A monarchia, vencedora da edade-media, esqueceu a poesia d'ella; porque

nos seus velhos habitos de organisar, de legislar, de livellar, perdÍra

inteiramente o senso esthetico. A poesia estava principalmente nas

idÍas, no sentir, nas formulas das classes aristocraticas: o povo era

infeliz e selvagem, e a monarchia positiva, calculadora, e egoista. Com

a victoria final d'esta desappareceu tudo o que representava o ideal.

Belem È a agonia da arte; È o estrebuchar descomposto da architectura

christan que morria; e o cancioneiro de Resende o ultimo concerto dos

trovadores em que j· se misturam os sons discordes da poesia romana.

Neste crepusculo da vida nacional, nesta passagem da originalidade para

a copia, as ruinas tombavam sobre outras ruinas: a nova sociedade

sobrepunha as suas obras incertas, frias, ou estupidas, aos restos ainda

palpitantes do cadaver do passado; cirzia-as ridiculamente com remendos

e fragmentos das obras e factos que destruira; fazia, emfim, por um

pensamento de ordem e de organisaÁ„o exaggerado, o que nÛs muitas vezes

fazemos hoje por um amor de liberdade indiscreto e excessivo.

… curioso o vÍr como a edificaÁ„o do celebre mosteiro Jeronimitano de

Belem se liga com a destruiÁ„o da communa judaica de Villa-nova de

Gibraltar; como esse monumento de transiÁ„o da architectura, esse cahos

de todos os systemas que luctavam no principio do XVI seculo, reunidos,

e por assim dizer petrificados de subito n'um edificio sÛ, traz

forÁosamente · lembranÁa a ruina d'um facto da ordem moral que existira

inconcusso entre nÛs por quatrocentos annos--a tolerancia da

edade-media. De feito a tolerancia religiosa expirava ao passo que a

architectura christan morria, e as bullas da inquisiÁ„o vinham-nos

talvez pelo mesmo correio que trazia aos nossos architectos os desenhos

puros e materialmente formosos, mas pag„os e peregrinos, de Bramante ou

de Raphael.

Um phenomeno por certo singular nos apresenta a historia antiga de

Portugal. Na larga serie de leis, de artigos de cÙrtes, de factos

publicos atÈ os fins do seculo XV, a crenÁa viva de nossos avÛs se

limita sempre dentro dos termos d'aquella intolerancia legitima que a

verdade n„o pÛde deixar de ter para com o erro. O christianismo

proclama-se ahi franca e energicamente a unica religi„o verdadeira: o

christ„o julga-se um homem de condiÁ„o superior ao judeu. O povo vigia,

atÈ, com ciume que o israelita conserve sempre no trajo um distinctivo

da sua raÁa reproba, das suas doutrinas erradas. Mas a intolerancia

acaba neste ponto: n„o se imagina ainda que o desterro, os tractos do

potro, e o cheiro de carne humana queimada subindo da fogueira

expiatoria, sejam sacrificios agradaveis a Deus. Na gente judaica havia

mais, por assim dizer, um caracter de triste fatalidade pesando sobre

uma raÁa condemnada pelo seu peccado original do Deicidio, que o de uma

raÁa maldicta por crimes proprios. ´Os judeus, como testemunhas da morte

de Jesu-Christo, devem ser defendidos sÛ porque s„o homensª: estas

palavras de D. Affonso II resumem o pensamento da edade-media ·cerca

d'elles. … o pensamento de que Lisboa com Villa-nova de Gibraltar foram

a imagem sensivel. No alto da sÈ a cruz, abrigada · sombra do castello

christ„o, via a seus pÈs a synagoga--a humilhada _Esnoga_--que

testemunhava alli a morte do Christo, a victoria do Evangelho, e a

redempÁ„o dos homens: e o que orava na cathedral sentia sÛ desprezo, e

por ventura compaix„o, por aquelle que orava na synagoga. Se o odio se

misturava ·s vezes com esses sentimentos, motivos n„o religiosos, mas

puramente materiaes o geravam: geravam-no as riquezas dolosamente

accumuladas pela gente hebrea, os vexames que practicavam como exactores

da fazenda publica, as suas usuras como possuidores de capitaes, e mil

outros motivos humanos em que nada tinha que vÍr a opposiÁ„o das

crenÁas.

E o seculo XVI, que era erudito; que traduzia Cicero e Ovidio, e imitava

Horacio: o seculo da civilisaÁ„o, das conquistas, de todas as grandezas,

cuspia nas faces da edade-media, que jazia morta a seus pÈs, o epitheto

de barbara! E D. Manuel, o culto e venturoso monarcha do oceano,

esquecia-se do que n„o esquecera a seu rude e obscuro avÙ D. Affonso II:

esquecia-se de que os isralitas estavam condemnados pelo Rei da

Eternidade a vaguearem perpetuamente na terra _como testemunhas da morte

de Jesu-Christo_. Portugal devia ser exceptuado d'esse decreto de cima,

e a convers„o violenta dos judeus foi um dos factos mais estrondosos

d'aquelle t„o estrondoso reinado.

Da communa hebraica, da risonha e opulenta Villa-nova de Gibraltar,

apenas nos resta a sua synagoga--melhor diriamos o sitio

d'ella--convertido em templo christ„o. … uma collegiada da ordem de

Christo: È a ConceiÁ„o Velha; velha porque j· as cousas d'essa epocha

manuelina, t„o fastosa, t„o transformadora, t„o destructiva de tudo o

que quer que fosse, bom ou mau, das eras poeticas, j· hoje È caruncho e

podrid„o: os seus monumentos j· se confundem com os que ella desprezava

como barbaros. Fallae no portal rendilhado da ConceiÁ„o Velha a um

vereador, a um politico, a um pascasio de melenas, emfim a qualquer

inimigo nato das cousas mais poeticas e sanctas da patria--os

monumentos--e responder-vos-ha torcendo o nariz e com um ademan parvo de

superioridade: ´Poh diabo! isso È gothico!ª Gothico! Ouves, seculo

dezeseis, seculo romanista, seculo brilhante, seculo peralvilho? Ouves

l· debaixo da tua campa, pesada como todos os crimes que commetteste no

oriente, confundirem-te hoje com os seculos rudes e pobres da nobreza

d'alma na fidalguia e da energia popular? Mudaste a indole da naÁ„o;

tornaste-a de guerreira em mercadora; de municipal em cortezan; de

austera em voluptuaria. Acceita de m„os como aquellas a paga da tua boa

obra.

A historia da esnoga e do mosteiro de Restello È simples: tÍl-a-heis

lido em dez livros copiados uns dos outros com grande augmento e gloria

das lettras patrias. Onde hoje este edificio, amplo como o poderio de D.

Manuel, simula aos olhos do vulgo, na vermelhid„o dourada das suas

pedras, uma edade mais provecta que a verdadeira, existia um conventinho

de freires de Christo. D. Manuel vasou-os na synagoga de Villa-nova,

desentulhou o ch„o da ermida de Sancta Maria de Belem, que assim se

chamava ella, alevantou a machina que ahi vÍdes, chantou-lhe dentro n„o

sei quantas duzias de frades jeronimos de Penhalonga, e morreu deixando

a sua obra imperfeita. Tractou de continual-a D. Jo„o III nos

intervallos em que lh'o consentiam as suas incansaveis diligencias para

obter a sancta inquisiÁ„o, contra a qual reluctou muito tempo a curia

romana, que nem sempre È t„o boa como alguns a fazem, nem t„o m· como

outros o affirmam. Na regencia de D. Catharina parece ter-se acabado a

igreja como actualmente existe.

E a esnoga de Villa-nova? A esnoga estava reformada, rendilhada,

baptisada, christan e contrita como.... como os judeus allumiados

subitamente pelo Espirito-Sancto no mesmo dia e · mesma hora, por um

decreto real, redigido provavelmente pelo secretario Antonio Carneiro.

ApÛsto que n„o sabeis quem era Antonio Carneiro? Era para D. Manuel o

que fÙra Ant„o de Faria, que tambem provavelmente n„o conheceis, para D.

Jo„o II: um substituto da cadeira monarchica, um marquez de Pombal de ha

trezentos e quarenta annos, de que ninguem se lembra hoje, como d'aqui a

outros trezentos annos ninguem se lembrar· do marquez de Pombal. _Sic

transit gloria mundi._

Pois n„o o merecia Antonio Carneiro!--Foi ministro de peso e volume. Os

papeis da sua secretaria, ou antes do Estado, eram em portuguez! Quem me

dera um Antonio Carneiro! Antonio Carneiro foi atÈ homem agudo e

engraÁado: prova d'isso È o preambulo do regimento dado · collegiada da

convertida synagoga, em 29 de janeiro de 1504. Evidentemente o ritual

rabinico j· n„o tinha applicaÁ„o. N'esse preambulo conta o bom do

secretario a historia da transformaÁ„o. Eis as suas palavras: ´Como

entendemos (È el-rei quem fala segundo estylo e direito) na conuers„o

dos judeus de nosos reynos pera · nosa santa fee serem ajuntados, he no

conhecimento he obras della se saluarem, com muyta deuaÁ„o nos

oferecemos he deliberamos da casa da esnoga dos judeos que estavam na

judiaria grande desta cidade, asi como ella era a mays principal em que

o nome de noso senhor era blasfemado, he as coussas de nosa santa fee

catolica reprovadas e emmingoadas, fazermos huma solene igreja e casa da

enuocaÁ„o de nosa senhora da conseiÁ„o, na qual com muy grande

solenidade e deuaÁ„o os officios deuinos fossem celebrados, he ali, onde

a noso senhor por tanto espaÁo de annos e tempos fora feyto tanto

deseruiÁo, he o seu nome he as suas coussas blasfemadas, perpetuamente

he em toda a perfeyÁ„o seus louuores se fizessem, he o culto deuino

fosse continuamente he com grande solenidade exalÁado.ª--Basta. N„o me

digaes nada do estylo d'Antonio Carneiro: era o do seu tempo. Confessai

antes que n„o esperaveis que a transformaÁ„o da synagoga em igreja fosse

uma antithese religiosa, um trocadilho ao divino. Essa perseguiÁ„o

similhante · dos tyrannos de Roma contra os primeiros martyres do

christianismo, alevantada contra os judeus portuguezes, nos fins do

seculo XV, foi apenas uma figura de rhetorica feita por D. Manuel. ”

elegante, Û immortal Antonio Carneiro! Tu ajudavas teu senhor a acabar a

obra de D. Jo„o II, a anniquilar toda a poesia da edade-media; mas tu

eras mais poeta do que ella. CreanÁas despedaÁadas por seus pais para

n„o serem entregues aos beleguins missionados; homens, havia pouco

opulentos, reduzidos · miseria e ao desterro, ou obrigados a acceitarem

um baptismo sacrilego, porque era recebido por violencia: tudo quanto ha

negro e infame n'aquelle procedimento, em que atÈ n„o faltou a covardia

de se respeitar o direito das gentes para com os mouros (tambem expulsos

n'essa occasi„o) porque _tinham quem podesse vingal-os_: tudo isto, Û

excellente Antonio Carneiro, n„o passou de uma fÛrmula de Quintiliano,

applicada · theoria do culto! Quem poder· duvidar de que os admiradores

do _grande seculo_, do seculo XVI, teem prodigiosamente desenvolvidas as

proeminencias do bom e do bello?

Da esnoga, reconstruida em templo por Antonio Carneiro e por D. Manuel,

apenas resta a portada. Tambem era a cousa unica formosa e alegre em

toda essa negra e maldicta historia. Se quereis estudar como artistas os

seus delicados lavores, ide contemplal-a · rua da Ribeira Velha, antes

que o progresso passe por l· e a derribe. O progresso È gordo e ancho:

n„o cabe onde quer que esteja um monumento.

COGITA«’ES SOLTAS

DE

UM HOMEM OBSCURO

1846

O modo como os fragmentos que vamos publicar nos vieram ·s m„os È cousa

que n„o importa aos leitores: o que lhe pode importar È se haver·

n'elles idÈas que os levem a reflectir sobre o estado da sociedade no

meio das questıes de organizaÁ„o que se agitam entre nÛs. S„o estas

folhas avulsas como uma serie de apontamentos para um livro que talvez

fosse de algum valor se chegasse a escrever-se. Incapazes

litterariamente de preencher as lacunas e de coordenar as idÈas, que as

mais das vezes apenas est„o indicadas n'estas notas, imprimimol-as como

nos foram transmittidas pela derradeira vontade de um homem que j· n„o

existe, e que tinha mais habito de pensar que de escrever, o que, seja

dicto sem offensa de ninguem, n„o È demasiado vulgar. Cremos que todos

os partidos reconhecer„o que estes pensamentos se movem n'uma esphera

differente d'aquella em que giram as opiniıes ou as paixıes por cuja

causa combatem uns com outros e mutuamente se detestam, e que por isso

nenhum d'elles os considerar· como adversos ou favoraveis aos seus

interesses momentaneos, e, digamol-o, ·s vezes bem pouco graves. Da

altura dos systemas os publicistas olhar„o para estas cogitaÁıes como

para um sonho de homem acordado, n„o raro em flagrante contradicÁ„o com

as doutrinas das escholas. … provavel que tenham raz„o. Mas como elles

ainda n„o poderam intender-se entre si, nem sequer ·cerca dos principios

fundamentaes da sciencia politica, deixem passar o pobre sonhador, e

perdÙem-lhe a ignorancia em attenÁ„o ao seu amor de patria e · nova luz

a que nos parece ter visto um certo numero de factos sociaes

importantes. Notas, cujo destino era o serem conservadas na pasta do

auctor, atÈ se completarem e receberem a conveniente ordem, estas

ponderaÁıes n„o teem ainda as fÛrmas modestas com que deveram

apresentar-se; nÛs, porÈm, n„o nos atrevemos a revestil-as d'essas

fÛrmas com receio de diminuir-lhes a energia. Mais como duvidas sobre as

causas e remedios da febre que agita as sociedades modernas, que como

pretenÁıes de fundar uma eschola politica, esperamos sejam consideradas

as _CogitaÁıes de um homem obscuro_ por aquelles que se applicam a

reformar as instituiÁıes dos povos. S„o idÍas informes, incompletas, e

rudes: mas bem grosseira È a silex, e È d'ella que sahe a fa˙la com que

accendemos o facho que nos guia nas trevas de noite profunda.

Possam os devaneios d'aquelle que passou desconhecido ao mundo n„o serem

inteiramente inuteis para o progresso humano, e sobre tudo para a

liberdade e bem-estar futuro da terra sacrosancta da Patria!

I

Fraco, pequeno, e pobre na origem, Portugal teve de luctar desde o berÁo

com a sua fraqueza original. Apertado entre o vulto gigante da naÁ„o de

que se desmembrara e as solidıes do mar, o instincto da vida politica o

ensinou a constituir-se fortemente. Quando se lanÁam os olhos para uma

carta da Europa e se vÍ esta estreita faixa de terra lanÁada ao

occidente da Peninsula e se considera que ahi habita uma naÁ„o

independente ha sete seculos, necessariamente occorre a curiosidade de

indagar o segredo d'essa existencia improvavel. A anatomia e physiologia

d'este corpo, que apparentemente debil resistiu assim · morte e ·

dissoluÁ„o, deve ter sido admiravel.

Que È feito das republicas da Italia t„o brilhantes e poderosas durante

a edade-media? Onde existem Genova, Pisa, Veneza? Na historia:

unicamente na historia. … l· onde sÛmente vivem o imperio germanico e o

do Oriente, a Escossia, a Noruega, a Hungria, a Polonia, e na nossa

propria Hespanha a Navarra e o Arag„o. Fundidas n'outros Estados mais

poderosos ou retalhadas pelas conveniencias politicas, estas

nacionalidades exteriormente fortes e energicas dissolveram-se e

annullaram-se, e Portugal, nascido apenas quando essas sociedades j·

eram robustas, vive ainda, posto que em velhice abhorrida e decrepita.

Ha n'isto sem duvida, se n„o um mysterio, ao menos um phenomeno

apparentemente inexplicavel.

Estar· a raz„o da nossa individualidade tenaz na configuraÁ„o physica do

solo? Somos nÛs como os suissos um povo montanhez? Separam-nos serranias

intransitaveis do resto da Peninsula? Nada d'isso. As nossas fronteiras

indicam-nas commummente no meio de planicies alguns marcos de pedra, ou

designam-nas alguns rios sÛ no inverno invadiaveis. Quem impediu a

Hespanha, esse enorme colosso, de devorar-nos?

Poder-se-ha dizer que desde o seculo XVII È a rivalidade das grandes

naÁıes da Europa que nos tem salvado. Talvez. Mas antes d'isso era por

certo uma forÁa interior que nos alimentava, e que ainda actuou em nÛs

no meio da decadencia a que cheg·mos no seculo XVI, decadencia que

virtualmente nos veio a subjeitar ao dominio castelhano.

Mas durante esse mesmo dominio o instincto da vida politica, o aferro ·

individualidade, existia se n„o nas classes elevadas ao menos entre a

plebe, porque a plebe È a ultima que perde as tradiÁıes antigas, e o

amor da sua aldeia e do seu campanario.

A lucta do vulgacho--exclusivamente do vulgacho--a favor de D. Antonio

prior do Crato contra a corrupÁ„o de tudo quanto havia nobre e rico em

Portugal, e contra o poder de Philippe II, È um reflexo pallido e

impotente da epocha de D. Jo„o I; mas È um facto de grande significaÁ„o

historica. Completam-n'o as diligencias feitas nas cÙrtes de Thomar para

que a linguagem official do paiz se n„o trocasse pela dos

conquistadores. Este facto comparado com ess'outro obriga a meditar.

Philippe II foi um grande homem--astuto, activo, dotado de um character

ferreo; foi o representante mais notavel da unidade politica absoluta, e

n„o pÙde ou n„o soube delir e incorporar este pequeno povo na vasta

sociedade hespanhola, sobre a qual seu pae e elle haviam passado uma

terrivel rasoira que lhe destruira todas as asperezas e desegualdades. E

todavia Philippe II tinha geralmente por alliados entre os vencidos os

homens mais eminentes por illustraÁ„o, por linhagem, por faculdades

pecuniarias.

… que as multidıes obscuras eram ainda portuguezas no amago, posto que

corrompidas no exterior pela corrupÁ„o das classes privilegiadas. Todas

as outras explicaÁıes s„o insufficientes ou falsas.

II

Tambem os tempos que precederam immediatamente o dominio hespanhol

offerecem um complexo de factos que fazem pensar.

Na segunda metade do seculo XV resolveu-se Affonso V a conquistar

Arzilla. Aprestou trinta mil combatentes e uma frota de perto de

quinhentas velas. Os esforÁos de Portugal para supprir uma t„o poderosa

expediÁ„o parece n„o terem sido excessivos. Aquelles de quem o principe

estava descontente eram ameaÁados por todo castigo de n„o se lhes

consentir o participarem dos riscos da empreza. Para emenda de muitos

bastava o incentivo de se lhes recusar o affrontarem os combates e a

morte.

Na segunda metade do seculo XVI tractava-se de ajunctar doze mil homens

para a infeliz jornada de Alcacer-quibir. As violencias que se

practicaram para arrancar do paiz as victimas d'aquelle grande

holocausto foram inauditas, e esgotaram-se os recursos da naÁ„o para

satisfazer o custo de uma tentativa, de cujo resultado a consciencia da

propria fraqueza e degeneraÁ„o fazia com que o povo augurasse mal.

Entre estas duas epochas È necessario suppÙr um periodo de decadencia

profunda, moral e material, e esse periodo deve ser longo. Uma naÁ„o n„o

decahe de um dia para outro dia. A virtude e os recursos de Portugal

deviam ter-se consumido lentamente.

Mas o que È esse periodo intermedio? … o do estabelecimento da monarchia

absoluta sobre as ruinas da monarchia liberal da edade-media. … a epocha

dos descobrimentos e conquistas.

Entre as idÈas de engrandecimento e poderio da epocha anterior a D. Jo„o

II, e as da epocha posterior a elle, ha um abysmo que nunca deixar·

confundil-as.

A politica da edade-media era em tudo religiosamente historica: a do

renascimento era em tudo hypocritamente revolucionaria.

Expliquemo'-nos.

Portugal surgira no meio de uma reacÁ„o de crenÁa e de raÁa. A Africa e

o islamismo tinham subjugado a Hispanha e o christianismo. A raÁa goda e

christan repellia a conquista. Durante o progresso da reacÁ„o, Portugal

nascÍra e d'ella se tinha alimentado como os outros Estados da

Peninsula. Era este o grande facto da sua existencia: o mais era

accessorio e secundario.

A conquista mussulmana fÙra uma vaga dos grandes Èstos humanos que,

galgando por cima do Estreito, viera tombar e espraiar-se sobre o solo

que habitava a familia romano-gothica.

Para obedecer · natureza das cousas, para a reacÁ„o ser verdadeira e

completa, a vaga romano-gothica tambem devia transpor o Estreito e,

estourando sobre a Mauritania, dar-lhe a provar o amargor do dominio

extrangeiro. O futuro pertencia a Deus; mas as probabilidades do final

triumpho cabiam ·quelle dos dous contendores que viesse a ter por si a

superioridade da civilisaÁ„o, e o decurso dos tempos mostrou que esta

superioridade recahiu, n„o na Africa, mas sim na Peninsula.

Assim as tentativas dos nossos antigos reis para se apoderarem dos

territorios africanos eram logicas historicamente, e alÈm d'isso eram

justas. O islamismo fÙra quem lanÁ·ra a luva · raÁa christan: n„o podia

queixar-se da prorogaÁ„o do combate.

E, descendo da idÈa essencial da politica da edade-media ·s

circumstancias secundarias que podiam servir como meios de a realizar,

vÍ-se entre ellas e essa idÈa m„e uma admiravel harmonia. As conquistas

d'Africa deviam sorrir ao povo: estribavam-se nas tradiÁıes e nos odios

de uma guerra de seculos, guerra ao mesmo tempo de religi„o e de

liberdade; no habito da victoria, que desde a batalha das Navas de

Tolosa os proprios mussulmanos consideravam como devendo, mais tarde ou

mais cedo, pertencer definitivamente aos christ„os. Accrescia a

vizinhanÁa das costas da Berberia e, portanto, a facilidade de conduzir

d'aquem mar tropas, viveres, muniÁıes; o serem os sarracenos adversarios

antigos, e por isso avaliados com exacÁ„o os seus recursos, o seu valor,

os seus ardiz e usanÁas militares; o existirem necessariamente ligaÁıes

entre os mouros, livres em Portugal debaixo do dominio christ„o, e os

sarracenos africanos, o que por muitos modos facilitava a conquista.

Tudo isto conspirava em tornar nacional e plausivel o systema

d'engrandecimento da nossa edade-media; systema claro, consequente,

legitimo, e do qual j· se devisavam os symptomas, como era natural,

pouco depois da conquista do Algarve por Affonso III, isto È, no reinado

de seu neto Affonso IV.

Esta politica mudou na conjunctura em que a monarchia primitiva se

caracterisava definitivamente em monarchia absoluta.

A causa final de todas as tentativas de engrandecimento colloca-se desde

essa epocha na pessoa do rei, e n„o no paiz: a tradiÁ„o historica

perde-se. As expediÁıes maritimas abandonam o rumo da Africa

septentrional e v„o correndo ao longo das costas meridionaes. Os

descobrimentos alÈm do Bojador, que atÈ ahi eram accessorios da

intentada conquista do Maghreb, convertem-se em objecto principal das

ambiÁıes de poderio. Affonso V tom·ra o titulo de _rei_ de Portugal e

dos Algarves, d'aquem e _d'alem mar_: fÙra esta a derradeira express„o

do pensamento antigo. D. Jo„o II accrescentou a esse titulo o de

_senhor_ de GuinÈ: era a primeira palavra do symbolo moderno. As

conquistas de Affonso V representavam um accrescimo de territorio ao

reino; pertenciam ao paiz[2]: os descobrimentos de D. Jo„o II tendiam a

achar ouro e escravos para o rei. Assim, em quanto os seus antecessores

costumavam congratular-se francamente com o orbe christ„o pelas

victorias obtidas na Mauritania, este principe escondia por todos os

meios de terror e mysterio o _seu senhorio_ de GuinÈ, como o velho avaro

procura occultar o cofre que encerra o seu thesouro.

Desde ent„o a vida energica de Portugal, distrahida do caminho historico

e justo, do alvo solido e dos resultados permanentes a que a dirigira a

anterior politica, foi empregada no proseguimento da nova idÈa de

pessoalidade, da substituiÁ„o do rei ao Estado. A gloria adquirida

n'essa epocha foi das maiores que o mundo tem visto; mas compr·mol-a com

a desgraÁa futura, com a morte de toda a esperanÁa, com o tragar golo a

golo, por seculos, um calix immundo de males e affrontas.--Adquirimos um

largo patrimonio para dividir com as outras naÁıes: reserv·mos para nÛs

a fraqueza interior, consequencia de esforÁos mui superiores aos nossos

recursos para remotas conquistas: reserv·mos para nÛs a corrupÁ„o moral

e a decadencia material. Que significa, pois, qual È o valor real d'essa

gloria? Puramente negativo.

A seiva da arvore social esgotou-se no bracejar descomposto. A Asia e a

America perderam-nos. O antigo aferro · terra natal, o odio do jugo

extranho, o nobre e altivo character de homens livres, o esforÁo

indomavel, deix·mos tudo isso pelos palmares da India, pelas minas

auriferas da terra de Sancta-Cruz, pelos emporios do nosso illimitado

commercio. Puzemos hypocritamente a cubiÁa de mercadores e as correrias

de corsarios · sombra veneranda da Cruz. Pens·mos que atraz d'ella n„o

nos veria a historia. Engan·mo'-nos. Quando a febre que nos alimentava

se trocou em consumpÁ„o lenta, os povos, que vieram recolher o fructo do

nosso esforÁo ou dos nossos crimes, levaram alguns annos a verificar a

partilha, e quando acabaram olharam para nÛs e riram-se.

As naÁıes maritimas da Europa representaram n'este horrivel drama o

papel de espectadores romanos assentados nos degraus de um circo; nÛs o

de gladiadores. No fim do espectaculo ellas voltaram o pollegar para a

terra em signal de desapprovac„o. A pateada era justa: tinhamos cahido

mal.

E ainda ha quem acceite com vangloria os elogios insolentes dos

extrangeiros que, insultando a nossa decadencia presente, exaltam os

feitos admiraveis com que lhes abrimos laboriosamente atravez do oceano

o caminho da prosperidade? … um singular genero de surdez, ouvir o

elogio sem sabor e n„o ouvir a gargalhada que o segue e que o converte

n'um escarneo.

III

Quem quizer saber o que a monarchia absoluta tinha feito do Portugal

antigo leia a segunda carta de S· de Miranda, dirigida ao senhor de

Basto.

Este S· de Miranda n„o seria um grande poeta; mas era mais do que isso:

era um homem de fino tacto, que n„o tomava a febre do paiz por forÁa

normal de vitalidade, e que via a decadencia e ruina nas riquezas e

pompas de Lisboa; n'aquillo em que uma cubiÁa miope via engrandecimento

e progresso.

Desde que o rei deixou de ser rei para ser senhor, o paiz annullou-se

diante da capital. Quando o principe È o Estado, que importam as

provincias? A cÙrte È tudo; È o manto real. Cubra-se de ouro e

pedrarias, est· obtido o esplendor do _Estado_.

Se D. Sebasti„o fosse um S· de Miranda, n„o teria ido morrer a

Alcacer-quibir. O pobre rapaz era uma alma nobre e teve uma inspiraÁ„o

da politica da edade-media; quiz ser descendente dos reis cavalleiros,

dos reis municipaes, dos reis chefes da reacÁ„o christ„, no meio de uma

naÁ„o de bufarinheiros, de sobrecargas, de judeus-agiotas, de cortez„os,

e de tartufos. Pagou-o.

Malaventurado mancebo! Nunca viu passar por entre seus sonhos dourados e

puros os phantasmas melancholicos de D. Jo„o II, de D. Manuel, e do

inquisidor-mÛr D. Jo„o III: n„o soube que para resuscitar o pensamento

destruido nos fins do seculo XV era preciso primeiro reconstruir uma

sociedade que perecera com elle. D'aqui o seu mal.

Puzemos agora o dedo sobre a chaga que corroeu e corroe Portugal. O que

atÈ este momento apont·mos È uma serie de phenomenos, de factos

externos, posto que de alta importancia por nos conduzirem · avaliaÁ„o

das causas intimas da ruina do paiz.--Estas causas est„o unicamente nas

circumstancias que se deram na transformaÁ„o da indole politica da

sociedade portugueza. … essa a chaga em que toc·mos.

ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA

1841--1843

Hoje que a arte comeÁa a deixar de ser entre nÛs imitadora, pagan, e

falsa; hoje que a poesia se torna nacional; hoje que o drama renascendo

no theatro vai buscar a sua tela e as suas personagens na historia

patria; hoje, emfim, que comeÁam a apparecer nos jornaes populares

tentativas e esboÁos da novella historica, È uma necessidade litteraria

o desenterrar das chronicas, dos diplomas, e de toda a especie de

monumentos a archeologia portugueza na mais vasta significaÁ„o d'esta

palavra. Os que se tÍem applicado a escrever n'estes diversos generos da

arte, chamados poema, drama, romance, generos despresados por certos

sabios que nada escrevem, ou que sÛ copiam _profundamente_ o que os

outros disseram; aquelles que, dizemos nÛs, trabalham n'estas varias

especies de litteratura, para as quaes se requerem em subido grau duas

cousas que raras vezes se encontram junctas--imaginaÁ„o para inventar,

logica para deduzir e ligar factos e pensamentos; esses conhecem por

experiencia custosa qu„o duro È ter de accrescentar ao seu trabalho de

artistas as tediosas e mirradoras investigaÁıes de antiquarios e

eruditos. Depois d'uma larga exploraÁ„o pelos campos aridos e

empoeirados das velhas chronicas civis e monasticas, dos pergaminhos

esquecidos nas gavetas dos archivos, das obras confusas e por vezes

contradictorias dos eruditos, se n„o È difficultoso salvar a propria

logica, È quasi impossivel n„o sentir amortecida a imaginaÁ„o, sem a

qual n„o existe arte. … esta a maior difficuldade que hoje ha para entre

nÛs apparecerem obras de artistas: os estudos aridos das antigualhas

matam os engenhos, ao passo que sem a verdade dos costumes as producÁıes

artisticas s„o falsas, e n'esse caso tanto ou mais valÍra fazer poemas

epicos, tragedias com cÛros, pastoraes virgilianas, e romances como o

_Theagenes e Chariclea_, do bispo Heliodoro d'Emesa.

Mas qual È o meio de evitar gradualmente esta difficuldade? … trazer

cada qual · praÁa o seu peculio n'esta materia: assim os artistas se

ajudar„o mutuamente, poupando uns aos outros largas horas de indagaÁıes

impertinentes e aborridas. A minima circumstancia dos antigos costumes

n„o È indifferente: muitas vezes ella vai dar cÙr e vida a um verso, a

uma scena, a um capitulo: por pobre que cada um se julgue venha com sua

mercadoria que alguem lhe achar· o preÁo: para a arte de hoje n„o ha

terra de sepulchro que nas m„os d'ella n„o possa converter-se em ouro;

porque a vestidura de pedra que d· agasalho aos cadaveres encerra toda a

vida antiga.

Um jornal popular È por todas as razıes o repositorio mais accommodado

para enthesourar essas riquezas historicas. Um livro requer grande copia

de materiaes nas m„os do obreiro que commette essa obra; requer certa

disposiÁ„o e methodo para o qual poetas nem sempre s„o mui proprios, por

isso raros poderiam fazer sobre isso um livro com intuito artistico, que

ao mesmo tempo fosse uma boa obra archeologica. Por outra parte, o

commum dos leitores--os mesmos que h„o de ler o poema ou o romance, e

assistir · representaÁ„o do drama--se habituar„o ao tracto e frequencia

dos costumes e idÈas que essas composiÁıes resuscitam: as crenÁas, as

opiniıes, a vida material dos tempos passados deixar„o pouco e pouco de

ser para elles como estranhas, e as obras d'arte ser„o intelligiveis e

populares, o que ali·s difficultosamente aconteceria.

NÛs, pois, convidamos todos aquelles que comprehendem a importancia e

necessidade de similhantes materias para que venham inserir algumas

paginas avulsas, alguns capitulos soltos dos seus estudos historicos

n'esta serie que hoje abrimos: para nÛs e para os outros o requeremos;

mas sobre tudo o pedimos em nome das esperanÁas que despontam de uma

arte nacional.

N„o nos adstringindo nem · divis„o das materias, nem · ordem

chronologica, n'este caso absolutamente indifferente, comeÁaremos pelo

extracto de duas obras[3] ineditas e inteiramente desconhecidas entre

nÛs, mas preciosissimas por uma multid„o d'observaÁıes sobre os costumes

portuguezes dos fins do seculo XVI. Estas obras escriptas por

extrangeiros, que n„o tinham motivos de affeiÁ„o nem de odio contra os

portuguezes, parecem-nos de summa curiosidade por descreverem o

character de nossos avÛs n'uma epocha em que a severidade dos antigos

costumes se comeÁ·ra a corromper grandemente, e as riquezas e o luxo,

que nos perderam, tinham feito desapparecer a primitiva singeleza de

mais remotas eras.

VIAGEM DO CARDEAL ALEXANDRINO

1571

Enviando o papa Pio V seu sobrinho Miguel Bonello, mais conhecido pelo

titulo de Cardeal Alexandrino, como legado aos reis de FranÁa, Hespanha,

e Portugal, no anno de 1571, entre as pessoas que formaram a sua

numerosa comitiva vinha um certo Jo„o Baptista Venturino, que tomou a

seu cargo descrever em italiano o processo da viagem, acompanhando a sua

relaÁ„o de notas e observaÁıes sobre as terras por onde passavam e sobre

os individuos com quem tractavam. Depois de atravessarem FranÁa e

Hespanha entraram em Portugal pelo lado do Alemtejo, e È d'aqui ·vante

que a viagem do legado se torna extremamente importante para a historia

da sociedade portugueza n'aquella epocha: È pois sÛ n'esta parte que

extrahiremos as mais curiosas passagens da copia que temos diante de

nÛs, tirada do codice 1.607 da Bibliotheca do Vaticano[4].

Entrada em Elvas

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´Avistando · m„o esquerda uma torre dos portuguezes[5], que estava como

para defesa da fronteira, appareceu D. Manuel...... senhor de Monsaraz

(?), villa proxima, de cem fogos. Vinha com cincoenta cavalleiros bem

montados e vestidos, e logo apoz elle D. Constantino de BraganÁa, tio do

duque d'este titulo, e do sangue real de Portugal, junctamente com o

conde de Tentugal, seu cunhado, com vinte pagens vestidos das suas

cÙres, preta e amarella, com trezentos cavalleiros, montados em formosos

ginetes e cavalgando · gineta, que vem a ser com a perna curva e com os

pÈs mettidos em grandes estribos, que cobrem quasi todo o pÈ: e montam

assim t„o bem e est„o a isso t„o costumados, que fazem, pondo-se em pÈ

nos estribos, toda a casta de forÁas. Usam de esporas sem rozeta, e sÛ

com um bico agudo similhante ao de uma lanceta. Traziam botins vermelhos

de carneira, uns lisos outros lavrados, ou prateados e dourados, e

guiavam · dÈstra dez ginetes sellados e cobertos de brocados e veludos

extremamente bellos.ª

......................................................................

´D'ahi a pouco veiu o bispo d'Elvas, primeira cidade e povoaÁ„o de

Portugal por esta banda, homem j· muito velho. Acompanhava-o o

corregedor do civel (?), isto È, o prefeito de justiÁa, e o seu juiz ou

ouvidor, os alcaides e meirinhos, isto È, alguazis, e outros magistrados

e officiaes com vestiduras talares e varas nas m„os. Os cavalleiros que

vinham com elles seriam trezentos.ª

......................................................................

´Ao entrar da dicta porta (d'Elvas) appareceram muitos homens e mulheres

vestidos do modo em que j· tinhamos visto em Castella estando com o

cardeal Spinosa. Formavam estes tres corpos de danÁarinos. A primeira

danÁa, chamada a _Follia_, compunha-se de oito homens vestidos ·

portugueza, com gaitas e pandeiros acordes e com guizos nos artelhos:

pulavam · roda de um tambor, cantando na sua lingua cantigas de folgar,

de que obtive copia, mas que n„o ponho aqui por me n„o parecerem

adaptadas · gravidade do assumpto. Bem merecia a tal danÁa o nome de

_follia_[6], porque volteavam como loucos, fazendo ademanes uns para os

outros, como quem se congratulava da vinda do Legado, para o qual

constantemente se voltavam. A segunda danÁa, chamada a _Captiva_, era de

oito mouros agrilhoados, que, danÁando · moda mourisca, se declaravam

escravos do Legado. A terceira, chamada a _Gitana_, era composta de

ciganas vestidas e bailando como as que j· descrevi do cardeal

Spinosa[7]. Vinham entre ellas duas mouras, trazendo cada uma em pÈ

sobre os hombros uma rapariga[8] vestida de pannos cozidos em ouro e

talhados de galantes e variados modos. Com aquelle peso bailavam

levemente, ao som de um tambor, enfunando-se com o vento os vestidos das

raparigas, que faziam esvoaÁar um lenÁo por varios modos, ora com a m„o

direita ora com a esquerda; ora segurando-o debaixo do braÁo ora nas

costas: momos estes que depois repetiram com facas por diversas

maneiras.ª

......................................................................

´Elvas est· assentada em sitio mui similhante ao de Badajoz. E cingida

de muros e forte: tem falta d'agua pela altura em que est·: o seu

territorio È bom, e bello o seu aspecto: a povoaÁ„o ter· obra de quatro

mil fogos. As casas s„o caiadas por fÛra · maneira de Portugal. As

mulheres s„o gentis e desembaraÁadas: usam trajos similhantes aos das

castelhanas, mas n„o andam t„o embuÁadas, nem t„o arrebicadas e

brunidas.ª

......................................................................

Encontro do duque de BraganÁa

´¡ segunda feira seguinte, tendo saido d'Elvas, vimos um aqueducto de

oitocentos arcos murados, que d'um monte, distante legua e meia,

conduzia a agua atÈ ao pÈ da cidade. Rebentaram depois os canos, n„o

podendo subir a agua · altura que se pretendia para a fazer entrar

dentro em beneficio dos moradores, mas sempre corre perto da cidade. E

caminhando por bellos e ferteis campos de planuras e outeiros

apraziveis, encontr·mos a distancia de duas leguas D. Jo„o, duque de

BraganÁa, mancebo de vinte e nove annos[9], de mediocre estatura,

trigueiro, e de boa cÙr, vista curta, e de pouco robusta compleiÁ„o, o

que lhe serve de desconto · muita grandeza e fortuna de que gosa, como

depois se dir·. … do sangue real de Portugal, tendo por armas as mesmas

do reino. Vinha vestido com uma capa de panno razo, abotoado o capuz com

diamantes e fechos d'ouro, e as bandas compridas aprezilhadas com rubins

e ouro: o barrete era de veludo com fios de rubins, diamantes, perolas e

ouro: as calÁas eram de veludo turqui (azul escuro) agaloadas d'ouro.

Montava em um cavallo rodado, cavalgando · gineta, e precedido por dois

ginetes, que, sobre as sellas cobertas d'escarlata com franjas d'ouro,

traziam duas malas similhantes ·s que os cardeaes levam adiante de si

quando v„o para o consistorio. Eram tambem escarlates com as armas de S.

Ex.^a bordadas em brocado d'ouro com florıes e franjas de prata, na

verdade bellissimas.ª

´Vinham quatro alcaides, e quatro meirinhos ou alguazis com varas

vermelhas, ao contrario das de Castella e ainda d'Elvas, que eram

brancas. Seguia-se a pessoa de S. Ex.^a e apoz elle duzentos cavalleiros

gentis-homens montados · gineta em bellissimos cavallos.ª

......................................................................

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06 · 第 1 / 14 段