Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando os mares, fez
echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham
capotes á Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem outro
tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram
a duas mil leguas de distancia.
Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua
mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes.
Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e
tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta das differentes facções
da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez á
America.
No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e é talvez
o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples
applicação do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcançado um tal
prestigio que só elle valia muitos exercitos.
A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o pé de si o
maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra
brandindo na mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os
mais bravos faziam conhecimento com o medo.
Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre
alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leão e não a do
tigre.
Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito
prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu
chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa.
Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar.
Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram
feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do
castigo do seu camarada, os conduziram sãos e salvos á presença do seu
chefe.
Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das
suas ordens.
Um acceitou, outro recusou.
--Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e
vamos vêr fuzillar o seu camarada.
Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a obedecer, e
conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava já
ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com
as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.
Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga mandou ajoelhar o
official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se
preparasse para morrer, e quando o viu prompto:
--Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava já morto, és
um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte.
E designava o cavallo do renegado.
--E eu? perguntou este.
--Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque vaes morrer.
E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a
quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar.
Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio
americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis
batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses
jovens republicanos o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta
contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez
o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e
desde essa época Quiroga foi invencivel.
Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal,
Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias interiores sendo na
volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram
fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasião doente,
estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito
uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e
abriu a portinhola. Vendo-o em pé, apezar de estar quasi cadaver, os
assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga
e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.
Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. Eram os irmãos
Renafé, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta
expedição. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas
as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em
similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito
assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e
fuzillados.
Falta Cullen.
Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na
cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu
ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na
republica argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez de Cullen
uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraça, Rosas
proscripto emigrou para Santa Fé, recebeu de Cullen toda a especie
de serviços, mas esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro
dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado
da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu
odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade.
Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa Fé
consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em
logar de se mostrar inimigo da França, mostrou por esta nação muitas
sympathias, considerando que a sua alliança era um grande passo para
as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma revolução, que
appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido
refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu
amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado
Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociações com Ibarra afim de
lhe entregar Cullen.
Durante muito tempo estas negociações não obtiverão resultado algum,
julgando-se Cullen, seguro pela confiança que tinha no seu amigo, mas
um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o
mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta
dirigida ao governador de Santa Fé que tinha succedido a Cullen, o seu
_processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_.
Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e d'um coração generoso.
A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a
especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general
Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu em mandar
fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que
poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario.
Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus talentos eram
mediocres.
Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não teve nenhuma gloria
militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraçou dos
chefes d'este partido, ficando desde então a pessoa mais importante da
republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres.
Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou a sua vingança
contra as classes elevadas que até então o tinham despresado. No meio
das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre
vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com
sua mulher e filha, não eram convidados senão os carreiros, sapateiros,
etc. Um dia abriu o baile dançando com uma escrava, e Manuelita com um
gaucho.
Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque
proclamou o terrivel principio:
«_o que não está comigo é contra mim_»
E desde então todo o homem que lhe desagradava foi classificado de
_selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este
nome não tinha mais direito nem á vida nem á honra.
Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo
dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto é, ainda ha
forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na
sociedade.
N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os
juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica.
Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de
qualquer cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era
escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a
soccorrer a desgraçada victima. Estas excursões tinham logar quasi
sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos.
E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que não é costume
nosso fazer uma accusação sem a provar.
Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o habito de trazer os
bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para
a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer
unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a cara com navalhas
mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaços com os
cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima
aos caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta brincadeira
até dar a morte áquelle desgraçado.
As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos a fita encarnada
chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada ás portas das principaes
egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou
sahiam sem ter a tal fita.
Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos
seus vestidos e açoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia
um lenço, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul
ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição,
sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se
apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata.
Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas á muito, e que
pertenciam ás classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel
vingança, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram
encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam em harmonia
com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso
tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo
que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado
inutil, e todos os dias as prisões para poderem dar entrada a novas
victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes
fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente
accordada de sobresalto.
De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França se viu durante os
terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavão tranquillamente os
cadaveres dos assassinados e hiam ás prisões buscar os dos que tinham
sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos
lançados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir
reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres.
Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes restos deploraveis
annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar
todas as portas e fugir a população. Muitas vezes decepavam a cabeça
do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos
tranzuentes assustados.
Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o fisco á morte.
Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em
volta de si interesses inseparaveis dos seus.
Então mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra
dizendo-lhe--É tua.
A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de
Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos de Rosas a obter
grandes fortunas.
O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que não tinha vindo á
idéa de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o
pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibição
foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque
quando não, tudo em Buenos Ayres andaria de luto!
Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre
tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe,
paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio
pela esquadra franceza.
Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão a fugir
de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado
oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade.
Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vão
que uma lei prohibio de morte a emigração, foi em vão que a essa morte
se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa
que a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava
Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigração
augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar
a fuga de toda uma familia, era só necessario encontrar um barco que
a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, irmãos, ahi
se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via
chegar ao estado oriental, isto é a Montevideo algumas d'essas barcas
cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em
cima de si.
Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiança que tinham
posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi
como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia
esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas vezes
tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou
brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos
comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles.
Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão esperados no
porto pelos habitantes, que escolhiam em rasão dos seus recursos
pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam
recolher. Então viveres, dinheiro, fato, tudo era posto á disposição
d'esses desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns
recursos, no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado reconhecidos
entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunhão aos
seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos.
Para poderem praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao
luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a
occupação a que se entregavam era em opposição com o seu estado social.
Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina
figuram na emigração.
Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella,
o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de
estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das
Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande
advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero dos emigrados, assim
como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes
proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos
da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse
exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas
perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, não se preocupando
senão de se desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo á sua
dictadura.
É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser
attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental.
Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida
pelo general Fructuoso Rivera.
Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus
instinctos erão humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como
homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como
chefe de partido a sua generosidade não podia ser igualada. Durante
trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando
a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna,
por que não era só generoso, era prodigo.
Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha
sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido
da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o
soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador,
conversando com graça, e attraindo todos por um gesto particular
que só lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos
Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como
administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos
pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido a sua fortuna
particular, destruiu a fortuna publica, não para se enriquecer, mas
porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem
particular.
Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se fazia sentir:
Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais
notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz
Eduardo Peres, erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus
directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e
prosperidade, estava promettido a este bello paiz.
Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter
respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua
instrucção profunda o collocaram no numero dos grandes homens da
America, e para que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio
victima do systema de Rosas no Estado oriental.
Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo,
patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia á virtude, á
liberdade, e ao seu paiz.
Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os primeiros serviços ao
seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a
sua carreira durante o cerco contra Rosas.
Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não ficaram atraz dos que
temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de
toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em
todo o territorio americano.