CONDUCTOR DE BOIS

Eis-me pois _truppiere_, isto é conductor de bois.

Em consequencia n'uma estancia chamada o _Casal das Pedras_, com a

authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e

com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores

dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei

obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde

tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha

inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos

_capatazes_, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei

com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo

caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.

Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi,

ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram

para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.

É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais

charos e melhores amigos.

Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer,

tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e

intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França

no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi

houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel,

vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America

do Sul.

Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes

disse:

--Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.

Chamava-se Anzani.

Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação

a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que

tinham feito d'elle o seu _factotum_.

Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de

confiança, emfim era o bom genio d'esta casa.

Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado

de um excellente genio.

A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas

casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo

o que é possivel imaginar.

A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente

proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de

que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.

Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena

villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando

quanto queria sem encontrar a menor resistencia.

Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois

com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o

terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha

vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por

detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe

recusasse obedecer.

Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que

se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia

d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.

Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o _chefe dos Mattos_

todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se

na villa andassem alguns cães damnados.

O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o

seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia--abrindo-se

logo com a rapidez do relampago--e roubava tudo sem encontrar a menor

resistencia.

Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos

seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:

--O chefe dos Mattos!

Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.

Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando

que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se

incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.

O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral

que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.

Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as

suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com

espanto.

Anzani levantou a cabeça.

Anzani era a politica em pessoa.

--Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.

--Como! que quero?! disse este.

--Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer

comprar alguma cousa.

O indio começou a rir.

--Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.

--Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!

--Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um

arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.

--Então que queres?

--Beber.

--O que?

--Um copo de agua-ardente.

--Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente

que quizeres.

O indio começou a rir de novo.

Anzani franziu as sobrancelhas.

--Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui

politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra

da porta.

Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro

qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha

a tratar.

Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.

--Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle

batendo com o punho no balcão.

--E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não,

não a bebes.

O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou

o seu,--o relampago havia encontrado o relampago.

Anzani dizia muitas vezes:

--A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o

homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle,

mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.

O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi

vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder

desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.

--Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.

--É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.

E deu ao indio um copo de agua-ardente.

O indio bebeu.

--Outro, disse elle.

Anzani deu-lhe outro copo.

O indio bebeu-o como o primeiro.

--Ainda outro, disse elle.

Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do

indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não

tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.

--Então? perguntou o selvagem.

Anzani fez-lhe a sua conta.

--Depois? insistiu o selvagem.

--Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente,

respondeu Anzani.

O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de

agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia

perdido com o olhar de Anzani.

--Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas,

agua-ardente, ou morres.

Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha

cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade

pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se

cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.

O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e

poz-lhe o pé no peito.

Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe

por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas

e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da

mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem

já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta

deitando-o no meio de um grande lamaçal.

O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado

que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.

Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal.

Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de

capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e

tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.

A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.

A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais

tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.

Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado

debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram

dois entes differentes.

Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios

de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.

Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava

conhecer e ter por amigo.

Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta

milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.

No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o

peito nú lavando uma camisa--vi que era este o homem que procurava.

Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.

Desde este momento fomos irmãos.

Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço

da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de

João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava

o serviço e dirigia-se aos _saltos_.

Depois de um dia passado juntos, demos os nossos _adresses_ respectivos

e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o

participarmos mutuamente.

Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa

miseria e a nossa fraternidade.

Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha

mais um par de calças.

Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem

se despedir.

Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois

pares de calças.

Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á

primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de

Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu

primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.

Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle

tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.

Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 80 / 94 题