UMA MULHER

Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de

ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter

e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia

humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio

de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca

o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o

contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos,

achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.

Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração tem

necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram

como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente

coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande

intimidade. N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe

tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me

amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi

impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão;

mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver

comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade

d'alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso

necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o

relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou

eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d'alma.

Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher

me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo

consolador, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que

nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado.

Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do

_Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi

descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos

domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a attenção.

Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a

casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração

batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resoluções que

uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a

entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o

visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!»

Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia

quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!...

Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence;

se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um

innocente.

Mas ella está morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha

falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a

á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas

ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os

seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando

lagrimas de desesperação.[7]

[7] Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr

pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:

--Lê isso, acho ahi uma grande falta.

Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:

--É necessario que isso fique como está.

Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita

Garibaldi_.

Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 56 / 94 题