EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA

Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos

Patos.

Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios

tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção

eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança.

Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra,

quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que

então sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e nós não

fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.

Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos

reconheciam um grande merito como soldado, como general e como

organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos

imperiaes.

Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para

tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro.

Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era

o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos

imperiaes.

Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do

Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena,

mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre,

achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da

entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas

praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição.

Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia

comtudo coisa alguma impossivel.

Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões

ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino

d'Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens

Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição

operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.

Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.

Propuz então que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez

necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lanchão, devendo-se

atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as

poderem puchar.

A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução.

Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes

modificações.

Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes

rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o

extraordinario peso que devia supportar.

N'uma das extremidades do lago--a que é opposta ao Rio Grande do

Sul--isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno

ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual

tratavamos de transportar os dous lanchões.

Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o

lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos

foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos

lanchões caminhar como se fosse uma penna.

O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um

exito feliz.

Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso e desusado, isto

é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos

bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas,

sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.

Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar

do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns

pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.

O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes

d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores

enchentes só tem quatro ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa

reinam sempre grandes tempestades.

O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros

chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles,

ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo

rumor da tormenta.

Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 47 / 94 题