Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é
um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque
elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre
para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para
affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para
cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu
leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da
morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e
paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir
chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano
mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia
dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas
piedosas que me consagrou.
Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia
recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um
maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos
que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com
a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo
de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido
nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde
havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De
uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um
extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida,
possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os
melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em
terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por
elles!