Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado
Genova.
Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu.
Estava condemnado á morte.
Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um
jornal.
Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a
chamar-me Pane.
Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da
hospitalidade do meu amigo José Paris.
Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no
navio _Union_, capitão Gozan.
No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com
o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia
no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que
faltando-lhe um pé caíu ao mar.
Estava vestido á _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos
dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido.
Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque
o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade
até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu
recebido no meio dos seus applausos e bravos.
Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas
de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que
tinha tomado.
Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda
vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.
Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta
embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de
Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta
cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em
1720 quando ali grassava a febre negra.
O cholera fazia então estragos horriveis.
Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o
resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes.
Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.
Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados
nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.
Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis
comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.
Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera
diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos
paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes,
capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de
Janeiro.
Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.
Se para ser poeta é necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_,
as _Meditações de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu
não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas
a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da
vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do
Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no
amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das
ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou
por um braço quebrado--então sou poeta.
Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia
quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil
homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e
um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um
pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco
ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o
perigo para ouvir um rouxinol.
Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que
um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me
rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia
ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não!
Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha
ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem
repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que
este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.
Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a
todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva
chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver
passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando
na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada
_Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve não de pharol,
mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa
natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma
fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos
contemplavam.
Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu
encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.
Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos
estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada
mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous
irmãos.
Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não
obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto
tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma
cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso
e valente cidadão.
Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade
o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não
tinhamos disposição alguma--o acaso fez com que travassemos relações
com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica
do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos
estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se
eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla.
Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de
que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu
a carta para poder piratear os navios brasileiros.
Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando
livres de todo o perigo ao Rio Grande.