Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a
Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capitão José Gervino.
N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou
uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli,
navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava
uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de
um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que
os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao
Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não
tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.
A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da
tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade
augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos
nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada
a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a
cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram
submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos
era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos
acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas
da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o
mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais
endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que
ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse
satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem
incídente.
De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.
Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos
tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na
mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que
não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que
comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson,
podia como elle perguntar:--O que é o medo?
Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capitão Barlasemeria,
que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se
de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado,
achei-me muito falto de recursos.
Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre
encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito
na falta de dinheiro.
Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a
excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que
as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.
Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com
uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.
Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para
satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de
lançar ao papel.
A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu
a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este
tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver,
fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego
foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a
quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou.
Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes,
até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim
_Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capitão Casanova.
Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.
Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de
extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por
um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a
ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro
annos todo o trabalho foi inutil.
Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota
italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os
negocios de Italia.
Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.
Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do
Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só
tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a
palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela
revolução franceza de 1830.
Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!
Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns
_Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault.
Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente
que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.
Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus
pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que,
como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia
do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de
que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só
as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito,
questões restrictas á Italia, e a cada provincia--mas até a grande
questão da humanidade.
Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que
ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no
segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por
patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta
contra a tyrannia, é mais que um soldado--é um heroe.
Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr
em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre
os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido
de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava
se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais
dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo
do futuro.
V