«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!»
disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da
juventude e da primavera!
Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro
navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos
flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta,
e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa,
ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros,
verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob
os remos!
Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções
populares.
Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas
por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me.
Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem!
Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos
uma patria a vingar e a tornar livre?
Ninguem!
Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida
não tem senão um fim--fazer fortuna.
Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe
preparava, chorando, a minha bagagem.
A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o
possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu
seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre,
advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu
amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na _Constanza_
de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho
conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se
podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos
nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca
commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo
já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se
elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria
proveito e gloria para a patria.
Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois
tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.
A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que
tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações,
se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a
acompanhar-me.
Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_.
A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de
meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado,
a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a
capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas
ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo
quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas
o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que
ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos
foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas
de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello
da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros!
Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só
a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a
idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações,
porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos,
guiados por ella á civilisação.
Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio,
parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da
minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres
seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu
coração como um precioso deposito.
O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas
vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia
ao SENHOR como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma
era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos
seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.