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Christovam Ayres
Manuel da Maya e os engenheiros militares portugueses no Terremoto de
1755
Com os retratos de Manuel da Maya, Carlos Mardel e J. Frederico Ludovici
LISBOA
Imprensa Nacional
1910
Christovam Ayres
Manuel da Maya e os engenheiros militares portugueses no Terremoto de
1755
Com os retratos de Manuel da Maya, Carlos Mardel e J. Frederico Ludovici
LISBOA
Imprensa Nacional
1910
Á benemerita corporação dos engenheiros portugueses, militares e
civis
Consagra
Christovam Ayres
MANUEL DA MAYA E OS ENGENHEIROS MILITARES PORTUGUESES NO TERREMOTO DE
1755
Interessante no estudo relativo ao seculo XIII é ver, embora
summariamente, o papel que tiveram os nossos engenheiros militares na
restauração da cidade de Lisboa, após o terremoto de 1755, sobretudo o
engenheiro-mor Manuel da Maya e os que mais directamente foram
incumbidos dos monumentaes trabalhos, que honram a engenharia
portuguesa.
Na _Revista da Sociedade de Instrucção do Porto_ (vol. II, 1882, pag.
271) a eminente escritora D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos,
tratando da impressão que na Allemanha produzira esse memoravel
terremoto, refere-se a tres estudos que, logo em seguida, apresentou o
grande philosopho Kant, e que se ligam com outra obra mais consideravel
por elle publicada no mesmo anno: _Allgemeine Naturgeschichte und
Theorie des Himmels_. D'esses tres estudos, o segundo é o que mais nos
interessa; porque descreve o terremoto, trata das suas causas physicas,
e sobre elle faz considerações scientificas de grande alcance; e a
illustre escritora, dando noticia do seu conteudo, observa:
«Lendo este estudo de Kant acudiu-nos á memoria aquella carta, cheia de
bom senso, que Gil Vicente mandou de Santarem a El-Rei D. João III
«estando Sua Alteza em Palmella, sobre o tremor de terra que foi a 26 de
janeiro de 1531». O philosopho allemão leva a vantagem ao poeta
nacional[1] quanto a saber o ponto de vista critico; entre um e outro ha
dois seculos de estudos scientificos; mas o nosso Gil Vicente não lhe
fica atrás na inteireza do juizo e verdade do sentimento.
É provavel que as numerosas relações contemporaneas sobre o terremoto,
que Kant teve á vista, não fossem todas igualmente fieis; comtudo, o
philosopho, armado com uma sciencia superior, positiva, e com um
criterio elevado, soube distinguir claramente entre os casos
impossiveis, inventados, e as verdades provaveis, tomando estas para
base dos seus estudos. Teria o grande Marquês de Pombal, na epoca em que
delineava o novo plano de Lisboa, noticia do seguinte importante
conselho do illustre philosopho: que as arterias das grandes cidades
ameaçadas não se devem construir paralelas ás vias fluviaes (isto é,
emquanto a Lisboa, do Occidente para o Oriente), porque o movimento do
tremor segue essa direcção e prolonga-se pelo curso dos rios? (pag.
404). A sciencia já então tinha feito esta e outras descobertas».
A estas observações da illustre escritora acrescentaremos que, se
realmente se obedeceu a esse principio scientifico, não se pode regatear
ao grande Pombal a gloria de mais essa forma superior por que a sua obra
foi executada; mas de justiça é igualmente reconhecer que os engenheiros
que tal obra executaram conheceram e souberam applicar esse importante
preceito.
[Figura: Manuel da Maya]
Os engenheiros encarregados da reedificação de Lisboa foram, pela sua
ordem, Eugenio dos Santos, Carlos Mardel, Reinaldo Manoel[2] e Manoel
Caetano. De todos estes dá noticia Jacome Ratton, um contemporaneo, nas
suas _Recordações_[3], onde se encontram interessantes pormenores
relativos á cidade de Lisboa depois do terremoto. De Eugenio dos Santos
diz:
«A planta e prospecto (para a reedificação) foi dado pelo primeiro
architecto da cidade, chamado Eugenio dos Santos, da escola das obras de
Mafra. Nesta planta se conservaram as praças e largos quasi com as
mesmas dimensoens que dantes tinhão, alargando-se, e endireitando-se as
ruas que erão nimiamente estreitas e tortuosas; e nestas se assignou,
quanto possivel foi, o chão de cada proprietario, para edificarem,
dentro em prazos determinados, por si ou por outrem, sob pena de os
perderem; prasos que se foram prorogando; por maneira que me não consta
que alguem perdesse o seu terreno. A Inspecção taxou o preço de cada
palmo de frontaria, conforme a situação das ruas, para que não querendo
ou não podendo o proprio dono do chão edificar, podesse qualquer outro
edificador comprallo á Inspecção, a qual entregava o dinheiro da compra
ao dono do chão.
«Ouvi que fora o projecto de se não consentir, em rasão dos terremotos,
que as casas da cidade nova tivessem mais do que lojas e dois andares;
mas que em attenção ás representaçoens dos edificantes, que não podião
ter interesse algum em edificar casas de tão poucos andares, veio o
Governo a consentir que se edificassem de tres e agoas furtadas; e então
se principiou a edificar segundo o prospecto que dera Eugenio dos
Santos, consistindo em 1.^o andar de sacadas, 2.^o e 3.^o, e agoas
furtadas de janelas de peito; á excepção das casas da Praça do Rocio, as
quaes tem, não sei porque, no 1.^o andar janellas alternadas de sacada e
de peito; o que faz com que esta praça perca huma grande parte da
bellesa que podia ter. As agoas dos telhados erão recebidas em meios
canaes praticados no cimo das paredes, e conduzidas á rua por canaes
praticados nestas, o que dava hum ar de nobreza ás frontarias, não se
vendo as biqueiras; e muito commodo aos viandantes. Este risco veio
depois a alterar-se no successivo reinado, não só praticando-se 4.^{os}
e 5.^{os} andares sem sacadas, ou com sacadas em todos elles, mas
deixando-se cair por biqueiras as agoas á rua; e para mais depravado
gosto, estabelecerão varandas, e sobre varandas nos 4.^{os} e 5.^{os}
andares, cuja enxelharia he lavrada a maneira de telha e pintada da
mesma côr. Parece impossivel que tal reedificação viesse á lembrança dos
habitantes de huma Cidade sujeita a terremotos, e que tinha soffrido os
effeitos do de 1755. He verdade que as casas construidas de madeira do
1.^o andar para cima, crescendo depois as paredes de pedra e cal, como
accessorias, são hum abrigo aos desastres que podem resultar de hum
terramoto, para as pessoas que se acharem dentro dellas, e não tiverem o
desacordo de sahir para a rua; mas desgraçados dos que se acharem nas
ruas, se o abalo derrubar as paredes; porque a enxelharia dos 4.^{os} e
5.^{os} andares não deixará nenhum vivo.
Ao primeiro risco da cidade baixa, e ruas principaes ajuntou o
architecto os necessarios e utilissimos passeios; e não sei porque
fatalidade deixa de os haver na maior parte das ruas de Lisboa que os
podem admittir; comtudo não lhe louvo a bordadura dos colonellos, que
alem da despeza, e extravagante configuração, occupão hum lugar nos
passeios tirado aos viandantes, devendo só existir nas esquinas, para
impedir que os carros e carroagens passem, ao voltar, por cima dos
pavimentos. Mas o que he imperdoavel nesta nova reedificação, he que
todas as ruas não tenhão canos, e todas as casas, cloacas, para o
despejo das primeiras immundicias; he verdade que o dito architecto deo
o risco dos canos que se achão em algumas ruas da cidade nova; mas tão
dispendiosas pela pedra lavrada que nelles se empregou, que julgo ser
esta a causa de os não haver nas mais ruas; e tão defeituosas na sua
configuração que não preenchem, ou preenchem mui mal os fins para que
são destinados. Primeiramente por terem pavimentos chatos subindo as
paredes lateraes em angulos rectos, nos quaes se depoem as immundicias;
e em segundo lugar por darem entrada ás agoas da maré, diffundindo-se
nas casas hum fedor tal, que as torna quasi inhabitaveis, o que tudo se
pode emendar em aquelles que de novo se fizerem: 1.^o construindo-se de
tijolo, por ser mais barato, e em forma eliptica para se não estagnarem
as immundicias; 2.^o ficando suas desembocaduras superiores ás agoas das
enchentes do Tejo; 3.^o encanando-se-lhes as agoas dos telhados, ruas e
cosinhas, para os conservar sempre lavados; providencias que se devem
igualmente estender a toda a cidade velha, e sem as quaes a fedorenta
cidade de Lisboa, será sempre hum manancial de molestias, a vergonha da
nação, e hum objecto ascaroso pelos montões de immundicias accumuladas
nas ruas, por effeito do descuido inveterado de se não varrerem, e se
não tirarem com a devida regularidade, não obstante as rendas que ha
destinadas para isso».
É um interessante quadro de Lisboa do seculo XVIII, antes do terremoto.
Quem o quizer conhecer completo leia o livro de Ratton.
Seguem-se considerações que por extensas não transcrevemos, mas que, com
o trecho que deixamos reproduzidos, servirão para confrontar as ideias
do tempo e o que Ratton indica como realisado, attribuindo-o ao executor
Eugenio dos Santos, com o que na importante memoria inedita, que adeante
publicamos, Manuel da Maya apresenta como plano dos diversos serviços a
executar, revindicando para este engenheiro a legitima gloria de as
haver preconizado e indicado aos poderes publicos.
Continuando, diz Jacome Ratton:--«Succedeo a Eugenio dos Santos hum
architecto allemão (aliás hungaro) chamado Carlos Mardel, o qual seguiu
o mesmo plano do seu antecessor para a reedificação da cidade. Ignoro se
foi por algum destes, ou por ambos suggerida a ideia de se construir o
Palacio Real no sitio de Campo de Ourique; mas sei que foi no tempo de
Mardel que se levantou a planta, e se collocarão os marcos, dos quaes
ainda existem alguns junto á Igreja de St. Isabel, Fonte Santa, Prazeres
e S. João dos bem casados. Muito tempo se trabalhou nos desenhos, e
cuido que ainda existem na casa do risco. Entrava tambem no projecto
fazer-se navegavel o rio Alcantara para nelle entrarem os Escaleres
Reaes até o Palacio; mas depois do fallecimento do sr. Rei D. José não
se cuidou mais neste projecto, e depois do incendio do Palacio da Ajuda,
se adoptou aquelle sitio para a construcção de hum novo Palacio».
Tambem neste particular do sitio onde se devia construir o palacio real
é de interesse a leitura da referida memoria de Manuel da Maya. O livro
de Jacome Ratton é hoje raro; estimarão por isso os especialistas em
assuntos de engenharia, a quem este nosso trabalho é particularmente
destinado, conhecer estes trechos que reproduzimos, sem terem de
recorrer aos «reservados» das bibliotecas; a outros abrirá o apetite de
conhecer a obra.
Segue se a informadora narrativa de Ratton:
«A Carlos Mardel succedeu Reinaldo Manoel, e deste não sei cousa
notavel, a não ser o desenho e estabelecimento do passeio publico em
1764, sobre humas hortas, que alli existião, chamadas as hortas da cera,
nas quaes se deitarão os entulhos das ruinas da Cidade baixa; e fui eu
que dos meus viveiros da Barroca d'Alva dei todas as arvores freixos que
se achão no dito passeio»...
«A Reinaldo Manoel succedeu, em architecto da Cidade e da Casa Real,
Manoel Caetano, se me não engano, que ouvi ter sido canteiro, e tinha
algumas luzes de desenho, sem comtudo possuir os estudos da arte de
architectura, nem a disposição natural para isso, como provão as obras
que dirigio como architecto; entre as quaes especificarei a Igreja da
Incarnação de fronte do Loreto; obra de muito custo, mas de nenhum
gosto, nem ordem alguma de architectura; a casa do Mantegueiro na rua da
Horta seca, chamada pelo seu dono Domingos Mendes, Palacete; e a sua
propria casa edificada no sitio que se destinou para o Erario novo, a
qual era muito parecida com a torre que o tendeiro da Esperança mandara
construir junto á rua da Procissão, na Cotovia de cima. Esta casa foi
demolida e paga pelo Governo, ficando ao architecto os materiaes; e
dando-lhe o mesmo Governo hum chão de fronte da Fabrica da seda, onde
construio huma nova casa excessivamente maior do que a primeira, mas tão
destituida de ordem e gosto que basta olhar para ella para se julgar do
merecimento do author. Penso ter sido elle o introductor da moda de
figurar andares de casas sobre telhados contra todo o senso commum.
Tambem julgo ter tido parte na planta do palacio novo da Ajuda, que
pouco depois se confiou aos dous architectos de profissão José da Costa
e Silva, e Francisco Xavier Fabri; o primeiro Portuguez, o qual aprendeo
em Roma, e deo provas do seu talento na construcção do theatro de S.
Carlos em Lisboa, e na do hospital de Runna mandado construir por Sua
Alteza a Serenissima Princeza do Brasil viuva: o segundo Italiano de
nação, que fez a planta pela qual se construio o Porto franco; e que
supponho ficou com aquella que eu fiz, de que já fallei. Tambem no
Ministerio do Conde de Linhares dirigio o accrescentamento que se fez na
cordoaria para accommodação de tiares de lonas, e segundo ouvi foi quem
fez o risco, e dirigio a construcção do palacio do Marquez de Castello
Melhor, junto ao passeio publico».
Embora se não trate de construcções militares, tem interesse estas
informações de um contemporaneo que assistiu ao terremoto e á
reconstrucção da cidade que, segundo elle informa, se reduzia a «hum
recinto que abrangia o bairro de Alfama, bairro do Castello, Mouraria,
rua nova, Rocio, bairro alto, Mocambo, Andaluz, Anjos e Remulares; toda
a mais extensão que foi convertida em cidade, como campo de St.^a Clara
e suas visinhanças, campo de St.^a Anna, Salitre, Cotovia de baixo e de
cima, Boa Morte e Alcantara, apenas tinham algumas casas, aqui e acolá,
á borda de caminhos que atravessavam por terras cultivadas».
É tradição, embora não a encontremos confirmada, que os arcabouços
(gaiolas) de madeira, innovados para a construcção dos edificios, foram
entre nós adoptados então para dar ás paredes maior flexibilidade e
equilibrio, cabendo evidentemente aos engenheiros que trabalharam na
obra da reedificação essa iniciativa. Ao engenheiro Carlos Mardel, que
tão largo quinhão teve nesses trabalhos, sobretudo depois da morte do
engenheiro Eugenio dos Santos e Carvalho[4], é attribuida essa
innovação[5]; mas não ha, que nos conste, documento que o prove. Na
importante dissertação inedita de Manuel da Maya, que adeante
publicamos, relativa aos trabalhos para a reedificação de Lisboa, ha
referencia a edificios _de madeira_ e aos de pedra e cal, e se fala do
«horror em [~q] se achava o publico contra edificios [~q] não fossem de
simples madeira», o que parece evidente não se referir á adopção das
gaiolas de madeira para a edificação; mas ás barracas de madeira que se
tinham construido. Seria dessa preferencia pelas construcções de
madeira, principalmente empregadas para resistir aos embates do mar, nas
praias, que teria vindo originariamente, entre nós, a ideia da armação
de madeira p.^a as nossas edificações, independentemente do que se
passava noutros paises? E porque não? Temos geralmente tendencia para
desluzirmos as nossas iniciativas proprias, querendo attribuir a sua
paternidade a estrangeiros; mas em cerebros portugueses tambem germinam
ideias novas, como o prova o _nonio_, o aerostato de Bartholomeu de
Gusmão, e tantas outras. Mas tambem pode ser que fosse realmente á
experiencia por Carlos Mardel adquirida na Hollanda que se devesse a
innovação.
Carlos Mardel, natural da Hungria, como diz a tradição, ou de origem
francesa, como suspeita o Sr. Sousa Viterbo[6], deixou o seu nome ligado
aos trabalhos da reconstituição da cidade, como o ligou tambem a outras
importantes obras publicas e particulares; pois que, alem de architecto
das Aguas Livres, dos paços reaes e das tres ordens militares, e de
varias obras religiosas, como veremos, foi medidor das fortalezas da
barra, fallecendo no posto de coronel de infantaria com exercicio de
engenheiro. Entre as obras notaveis que traçou estão as da reconstrucção
do Real Collegio de S. Paulo de Coimbra em 1752.
[Figura: Carlos Mardel]
Em novembro de 1755 foi o engenheiro Carlos Mardel encarregado pelo
Cardeal Patriarcha de Lisboa de ver o estado em que estava a Igreja de
S. Bento depois do terremoto, sobre o que elle informou que «achou toda
a igreja em muito bom estado, sem ter recebido damno algum e em
excellente estado de servir; porem a sacristia he a peyor e incapaz de
servir, e em lugar della achei hum grande refeitorio e casa _de
profundis_ diante do Refeitorio, ambas escusadas para os Padres do dito
Mosteiro, as quaes são misticas ao lado da Epistola da Capella mór; e
abrindo-se porta para a Igreja no mesmo lado, temos tudo o que for
mister para accommodar a Patriarchal, e ainda com mais abundancia do que
aonde estava antes».--Em vista disso passaram para aquella igreja os
officios da Patriarchal.
Succedeu porem que sendo a informação de Carlos Mardel de 17 de
novembro, no dia 19 desse mesmo mez ia o capitão engenheiro Eugenio dos
Santos e Carvalho informar o Patriarcha de que, embora concordasse com o
parecer do seu collega quanto á segurança do corpo e cruzeiro da
referida Igreja, «se lhe fazia suspeitosa uma parede da Capella que,
sendo ordinaria, se pode reparar com modica despeza».--Foi este parecer
seguido; e fez-se a obra completa sob a direcção do então tenente
coronel Carlos Mardel e do capitão Eugenio dos Santos[7].
Entre as curiosidades apresentadas na Exposição de Cartographia da
Sociedade de Geographia, em 1903, figurava uma _Planta topographica da
cidade de Lisboa arruinada, e tambem segundo o novo alinhamento dos
architectos Eugenio dos Santos e Carvalho e Carlos Mardel_, feito por
João Pedro Ribeiro. Pertence á Direcção dos Trabalhos Geodesicos[8].
[Figura: João Frederico Ludovici, Architecto-mor]
Mas embora os nomes de Eugenio dos Santos e Carvalho e Carlos Mardel,
que Manuel da Maya considerava «alem de engenheiros de profissão, os
primeiros architectos na architectura civil», sejam os que mais soam e
mais elevado quinhão representam nesses memoraveis trabalhos herculeos,
muitos foram os engenheiros militares que nelles tiveram parte sob a
direcção de Manuel da Maya. Na importante _Memoria_ d'este celebre
engenheiro-mor, que em seguida publicamos, veem citados, alem dos nomes
de Mardel e Eugenio dos Santos, os do capitão Elias Sebastião Pope e
Pedro Gualter da Fonseca, e praticantes Francisco Pinheiro da Cunha e
José Domingos Pope, como tendo sido por elle eleitos para o auxiliarem
na monumental obra da reconstrucção da cidade. Reynaldo Manuel se
chamava, como vimos, o engenheiro nomeado p.^a substituir Carlos Mardel
nas obras da reconstrucção de Lisboa, quando este morreu em 1763. Jacome
Ratton fala com encarecimento de um engenheiro militar, estrangeiro mas
que muitos serviços prestou entre nós. E João Frederico Ludovici, o
celebre architecto de Mafra, e que Ratton apresenta como sendo o que
mais geito e arte mostrou na traça e edificação das casas particulares
em Lisboa. Já tinha fallecido quando foi do terremoto; mas a cidade já
se embellezara com a sua arte.
«Se pelas obras que os architectos edificão para sua propria habitação,
escolhendo a localidade, e sem outra sugeição que as suas forças, se
pode julgar do seu merito, diz Ratton, indicarei as que entrão neste
caso, relativas aos quatro architectos do meu tempo, empregados pelo
Governo. João Pedro (aliás João Frederico) Ludovici, que já era
architecto no Reinado do Senhor D. João V, e o continuou a ser até
depois do terremoto de 1755, construiu para sua morada aquella barraca,
na calçada da Ajuda, aonde assistio Martinho de Mello e Castro, e
edificou huma casa de fronte da torre de S. Roque que tem todo o ar de
nobre; e creio que em razão desta obra se construiu a muralha de S.
Pedro de Alcantara com o pretexto de se fazer alli hum passeio, o qual
se não chegou a realizar; mas que seria bem util pelo ponto de vista que
offerece. Tambem supponho que foi este architecto quem projeitou e deo o
plano das obras dos arcos das aguas livres; mas se não foi elle, foi
pelo menos o que as continuou. Eugenio dos Santos que deo a planta da
reedificação da cidade construio humas grandes casas de cimo da calçada
da Estrella, com muito má serventia para carroagens, e sem outra luz na
escada que a que entra pelas sobrepostas. Carlos Mardel edificou para a
sua habitação aquella casa que se acha ao lado oriental da Igreja de
St.^a Isabel junto ao cemiterio, e por baixo da torre dos sinos. Manoel
Caetano edificou as de que já fallei. Á vista do que todos convirão
comigo que o que tinha melhor tino era João Pedro Ludovici.»
João Frederico Ludovice, o notavel architecto do convento de Mafra, era
desde 11 de setembro de 1750 architecto-mór do reino com patente, soldo
e graduação de brigadeiro de infantaria, na primeira plana da Côrte;
nascera na Allemanha, de familia francesa, e naquelle país exercia a
profissão de engenheiro militar, tendo porem vindo para Portugal chamado
pelos jesuitas pela sua especial pericia de ourives, metallista; mas os
seus variados talentos postos em acção entre nós lhe deram o justo
galardão de se reconhecer que «á sua doutrina se devem o grande
adiantamento em que se achavam as artes em Portugal[9]».
E não só em Lisboa, mas em outros pontos do país eram requeridos os
serviços dos nossos engenheiros militares, quer na sua especialidade,
quer noutros ramos do serviço. Assim, tendo o terremoto arrasado a villa
de Setubal, foi João Alexandre de Chermont, coronel de infantaria com
exercicio de engenheiro, mandado em 14 de novembro de 1755 tomar conta
d'aquella villa, com jurisdição completa, para adoptar as providencias
necessarias[10].
E nesse calamitoso periodo, e antes e depois, e sempre, de engenheiros
militares se valeu o governo para os serviços da maior responsabilidade.
De tres engenheiros, encarregados em 1761 da demarcação das quatro
leguas exclusivas do districto concedido á Companhia da Agricultura das
Vinhas do Alto Douro, á roda da cidade do Porto, temos noticia: são o
sargento-mor de infantaria e engenheria Francisco Xavier do Rego, e os
seus ajudantes, o tenente Adão Wencelao Hetsk e Francisco Pinheiro da
Cunha. Por curiosidade reproduziremos adeante o resultado d'essa
demarcação, que em manuscrito se conserva na Academia Real das Sciencias
de Lisboa[11].
E de quantos outros não poderiamos dar aqui informação. De grande numero
d'elles daremos noticia na nossa _Historia da Engenharia Militar_.
* * * * *
Quando, das ruinas d'esse horrivel terremoto, a energica vontade do
Marquês de Pombal fez erguer, alinhada, garrida e bella, a nova cidade,
os engenheiros militares foram os auxiliares principaes d'essa vontade
de ferro. O engenheiro-mor Manuel da Maia e os seus officiaes dirigiram
e executaram as principaes obras.
Por decreto de 29 de novembro de 1755 era ordenado que «os Ministros,
que se achavam encarregados da inspecção de cada um dos bairros da
capital, de commum accordo com os officiaes de Infantaria com exercicio
de Engenheiros, destinados para esta deligencia, fizessem logo, e sem
perda de tempo, cada qual delles uma exacta discripção do respectivo
bairro de que se achava encarregado, declarando-se nella distincta e
separadamente a largura e comprimento de cada uma das praças, ruas,
beccos e edificios publicos, que nelle se continham; e cada uma das
propriedades particulares que existam nas sobreditas ruas, praças e
beccos, com a especificação da frente e do fundo que a ellas pertencia,
comprehendendo nessa medição os quintaes, onde os houvesse, com as
elevações ou alturas de cada uma das propriedades, e com especificação
das paredes que fossem ou proprias de cada edificio, ou commum a ambos
os dois visinhos confrontantes».
Assim se conseguiu evitar as reclamações e pleitos que decerto depois
levantariam os proprietarios com respeito aos limites das suas
propriedades, sem que houvesse maneira de saber se as baseavam na
verdade.
Por Aviso de 11 de dezembro de 1755 foi ordenado ao Engenheiro-mor
Manuel da Maya que «chamando á sua presença os officiaes de Infantaria
com exercicio de engenheiros, que lhe parecessem mais habeis e
expeditos, os mandasse passar os liveis necessarios para se conhecer e
calcular com clareza os declivios que ha dos Mosteiros da Boa Hora, do
da Annunciada, do de Corpos Christi, da Igreja da Magdalena, e S.
Sebastião da Padaria, até ás cortinas do Terreiro do Paço e da Ribeira»;
tinha isto por fim acommodar os entulhos em logares mais baixos.
Por Aviso de 22 do mesmo mês e anno foi ordenado a Manuel da Maya que
«na conformidade das reaes ordens fizesse apalpar e abalizar pelos
officiaes, que achasse mais expeditos e exactos, os terrenos de que se
tratava, em forma que ficassem distinctamente demarcados os logares que
se houvessem de entulhar e as alturas dos entulhos que nelles se haviam
de lançar, para que fossem lançados com a devida proporção, onde mais
conviesse e sem o perigo de se tornarem a mover, etc.».
Outro Aviso da mesma data ao Duque Regedor das Justiças (Duque de
Lafões) para se nivelar a parte da cidade que ia entre a rua Nova do
Almada e a Padaria, e para se pôrem marcos e balizas nas covas e
declives, afim de se encherem com os desentulhos e ficar nivelado o
Terreiro do Paço com as mesmas duas ruas em beneficio da reedificação da
cidade, ordenava ao mesmo Engenheiro mor «que, pelos officiaes que
achasse mais expeditos, fizesse pôr as sobreditas balizas com a
brevidade que requeria a urgencia[12]».
São estas umas simples amostras do grande trabalho e da missão
importante que aos engenheiros militares coube na reedificação da
cidade, como lhes continua a caber no decurso dos tempos; pois que nomes
de engenheiros do exercito muito distinctos estão ligados, não só a
obras militares, mas civis, na historia do nosso país.
* * * * *
E melhor do que o poderiamos dizer, falará agora do grande papel que
Manuel da Maia teve nesse grave momento da nossa existencia social a
memoria (dissertação) que em seguida publicamos, por elle apresentada
sobre a reedificação da capital, e que pela primeira vez damos á
estampa. É dividida em tres partes: as duas primeiras conservam-se nos
papeis de José Baptista de Castro na Biblioteca Publica de Evora; a
terceira encontra-se, remettida do Archivo Militar, na Torre do Tombo.
Devia ter uma quarta parte, que o auctor deixou de escrever[13]. Damos
aqui publicidade ás tres partes que pudemos felizmente reunir, na
certeza de que encontrarão o apreço e a estimação do leitor.
Ao Duque de Lafões, na sua qualidade de Regedor das Justiças, era
dirigida essa _dissertação_, e do conceito e apreço em que foi tida reza
o seguinte officio, cuja copia guarda a Biblioteca de Evora:
Ex.^{mo} Sr.
Agradeço muito a V. Ex.^a a atenção de partecipar-me a segunda
parte da Disertação que tem escrito sobre a renovação da cidade de
Lisboa destruida, e agora repito a V. Ex.^a o que a respeito destes
papeis tenho representado a ElRey meu Snr., porque achei que V.
Ex.^a comprehendeo com vastidão, discorreo com profundidade, e
escolheo, a meu entender, com acerto, o modo que deve seguir-se. S.
Mg.^e vai mostrando que segue o parecer de V. Ex.^a; ainda que a
sua modesta escrupulosidade o duvide, e verdadeiramente só nesta
parte me não parecem solidos os fundamentos da desconfiança de V.
Ex.^a. V. Ex.^a he um vasalo tão util, como bom compatriota, e asim
se percebe no zelo com que vigia sobre a saude publica,
lembrando-se de que se deve dar correnteza ás aguas estagnadas na
Praça do Rocio e na Rua Nova dos ferros. ElRey meu Snr. foi servido
encarregarme de evitar aquele perigo, e pela medeação dos Ministros
da justiça Inspectores dos Bairros desta Cidade, com bem ordenado
trabalho, se vencerão muitas defficuldades, e entre grandes perigos
não sucedeo a menor disgraça, achando-se desde a somana pasada
esgotados completamente hum e outro lugar. Tenho entrado a recear
nos possão agora prejudicar as muitas lamas que a cada paso se
encontrão pelas ruas e o descuido que ha, e ouve sempre, em
extrahir da superficie da terra quantidade de animaes mortos que se
achão expostos: porem como esta incumbencia me não foi recomendada
poupo-me ao maior pezar que seria o que me resultase de se poder
acuzar a minha omição, o que para mim só era sensibilisimo. D.^s
G.^e a Pesoa de V. Ex.^a m.^{tos} an.^s. Cerca das Necessidades a 5
de Março de 1756.
Ex.^{mo} Snr. Manoel da Maya.
Mais attento serv.^{or} de V. E.
_Duque de Lafões[14]_.
Eis agora o trabalho apresentado por Manuel da Maia, e que, embora pouco
nitido sob o ponto de vista litterario, honra e justifica a alta
reputação do engenheiro, pois representa todo um complexo plano de obras
de aterramento, de esgotos, de hygiene, de alinhamento de ruas e
travessas nas partes da cidade a reconstituir ou a construir de novo, de
construcção de edificios publicos, entre elles os Paços Reaes, a
Biblioteca e as Alfandegas, e tambem particulares, nas devidas condições
de segurança contra tremores de terra e de isolamento do fogo; da forma
dos predios, sem passagens cobertas para evitar attentados nocturnos; da
salvaguarda dos terrenos destinados a servidões militares junto ás
fortificações da cidade, e de tantos outros assuntos importantes que
curioso é seguir entre o emmaranhado da prosa do illustre militar, e
que, como vimos já, lhe vem dar a primazia de muitas iniciativas que lhe
não eram attribuidas.
A parte 3.^a da dissertação é muito interessante, porque trata dos
serviços de limpeza da cidade, esgotos, abastecimento de agua, bocas de
incendio, reconstrucção dos edificios do Terreiro do Paço, largura e
estructura das ruas, á laia das de Inglaterra, com as respectivas
plantas traçadas por Manuel da Maia, e que é pena se não saiba onde
param, para ver se foram realmente seguidas, quando taes edificios e
ruas se fizeram.
Debaixo de muitos pontos de vista ha de esta memoria interessar aos
estudiosos. Diz o seguinte:
*1.^a Dissertação sobre a renovação da Cidade de Lisboa por Manoel da
Maya, Engenhr.^o mor do R.^{no}*
1.--Reconhecida, e observada a destruição da cid.^e de Lix.^a (no 1.^o
de Nov. de 1755)[15] he precizo intentar-se a sua renovação, e como esta
se pode executar por diversos modos, parece tambem precizo que estes se
preponderem p.^a entre elles se fazer eleição do [~q] se conhecer com
mais ventagens, e menos inconvenientes. Os modos que me occorrem são os
seguintes.
2.--O primr.^o restituila ao seu antigo estado, levantando os edificios
nas suas antigas alturas, e as ruas nas suas mesmas larguras. Este 1.^o
modo suppoem, [~q] o terremoto passado não he pronostico de outro; e que
assim como em m.^{tos} annos ant.^{es} senão experimentou outro sem.^e
assim se não pode esperar subsequente; e [~q] por esta forma se
restituirá Lix.^a promptissimam.^{te} ao seu antigo estado, e com
edif.^{os} melhorados por novos; recebendo e acomodando o mesmo n.^o de
gente, e obtendo os proprietarios os seus antigos rendim.^{tos} ficando
Lix.^a deste modo com alg[~u]a melhora do [~q] dantes era; servindo os
mesmos destroços, e ruinas p.^a a erecção dos edif.^{os} evitando o
trab.^o e despeza dos dezentulhos; cuja acomodação se faz mui dificil, e
talvez de prejuizo, onde os quizerem acomodar, ou seja no mar ou na
terra.
3.--O 2.^o modo, levantando os edificios nas suas antigas alturas, e
mudando as ruas estreitas em ruas largas. Este 2.^o modo tambem despreza
a precaução do terremoto, e attende em pr.^o logar a melhor serventia do
publico pela largura das ruas, e conservando nas alturas das cazas
abundantes commodos p.^a os habitadores, [~q] restarão livres do
horrivel flagello, e p.^a os proprietarios a mayor p.^{te} dos
rendim.^{tos}, ficando a cid.^e mais formosa do [~q] d'antes era, com
boas entradas, [~q] p.^a ella se poderão fazer no terr.^o do Paço,
evitandose passagens cobertas, e melhorandose alguns edificios mayores
arruinados; ficando deste modo Lix.^a com conhecidas ventagens, e
conservandose em m.^{ta} p.^{te} os interesses dos prejudicados nas
ruinas, o [~q] não deixa de merecer attenção.
4.--O 3.^o modo, diminuindo as alturas a dous pavim.^{tos} sobre o
terreo, e mudando as ruas estreitas em largas.
5.--Este 3.^o modo se acautela contra sem.^{es} assaltos, diminuindo as
alturas dos edif.^{os} por se temerem nos mais altos as ruinas mais
certas, e de mayores prejuizos: como p.^{lo} contr.^o nas ruas mais
largas mayor facilid.^e p.^a se escapar dos destroços, [~q] nas
estreitas serv[~e] de grande impedim.^{to} ao retiro.
6.--O 4.^o modo, arrazando toda a cid.^e baixa, levantandoa com os
entulhos, suavizando assim as subidas p.^a as p.^{tes} altas, e fazendo
descenso p.^a o mar com melhor correnteza das aguas, formando novas ruas
com liberd.^e competente, tanto na largura, como na altura dos
edif.^{os} [~q] nunca poderá exceder a largura das ruas. Este 4.^o modo
não só attende, como o terceiro, a prevenção de sem.^e flagello, assim
na observação da altura das cazas, como na largura das ruas, mas a
facilitar a difficil acomodação dos dezentulhos, servindose delles p.^a
suavizar a aspereza das serventias da cid.^e baixa p.^a a alta, e
expelindo tambem as aguas com melhor exito p.^a o mar, livrando Lix.^a
baixa das inundaçoens [~q] padece em occasioens de maré chea.
7.--O 5.^o modo, desprezando Lix.^a arruinada, e formando outra de novo
desde Alcantara até Pedrouços; com permissão porem de [~q] os donos das
cazas de Lix.^a arruinada as podess[~e] levantar como quizessem. Este
5.^o modo se facilita mais [~q] todos; por[~q] em pr.^o lugar não tem
[~q] vencer dificuld.^{es} de dezentulhos, e suas acomodaçõens: offerece
campo docil, e livre das emin.^{as} de Lix.^a antiga, sem necessid.^e de
averiguar o estado das cazas [~q] se devam conservar ou derribar, nem
ouvir clamores dos donos das [~q] inteiram.^{te} se desprezarem, e sobre
tudo a grande despeza, [~q] na compensação destes prejuizos se fará por
qualquer modo [~q] se pretenda fazer. Edificarse com mais gosto pelas
melhoras que geralm.^{te} se reconhecem no terreno e prayas do sitio de
Bellem, e suas vizinhanças, livrando os habitadores do horror [~q]
conceberão na destruição da cid.^e arruinada; e com incomparavel
brevid.^e e boa organização de ruas e de edif.^{os} [~q] formarã h[~u]a
Lix.^a nova, sem [~q] os dominantes dos edif.^{os} de Lix.^a destruida
tenhão de [~q] se queixar, pois se lhe não faz viol.^a alg[~u]a, nem se
lhes impede a reedificação dos seus edif.^{os} p.^a se valerem delles á
sua vontade. Acrece mais, [~q] ainda [~q] se lanse mão de qualquer dos
ant.^{es} modos, 2.^o, 3.^o e 4.^o em [~q] as ruas se alargão, sempre
hade ser precizo estenderse Lix.^a até Bellem, ou ainda a mayor dist.^a
p.^a acomodação da m.^{ta} gente [~q] ficará necessitada de commodo por
causa da diminuição das cazas; pois [~q] as de quatro e sinco
pavim.^{tos} ficarão convertidas som.^{te} em dous; e em h[~u] sitio em
[~q] havia quatro ou 5 ruas, ou mais, se converterão em duas ou 3 ao
m.^{to}: e se depois de vencer m.^{tas} dificuld.^{es} com grandissimo
trabalho, dispendio, e dilação de tempo, se hade procurar o asylo de
Bellem, melhor parecia buscarse logo p.^a mayor facilid.^e satisfação do
publico, e escuza de despeza. Tambem a sumersão do novo caes da
Alfandega do tabaco, parece estar aconselhando [~q] se não avezinhem a
hum lugar [~q] mostra estar combalido de contr.^o fortissimo, [~q]
poderá continuar em o perseguir, e a tudo [~q] o acompanhar. Tambem
parece favorecer esta opinião o acharemse em Portugal alg[~u]as
cid.^{es} e povoaçoens [~q] conservão os nomes de outras destruidas,
cujas ruinas se percebem ainda em dist.^{as} proximas, sem se
especificar a razão daquella repitição de nomes, e de lugares; mas
discorrendo qual poderia ser, nenh[~u]a razão me occorre mais propria e
competente p.^a este efeito do [~q] outra sem.^e a [~q] temos diante dos
olhos, fazendo antes eleição de formar h[~u]a cid.^e e povoação nova em
sitio mais favoravel, do [~q] renovar h[~u]a destruida por sem.^e
accidente. Tambem pode fazer pezo nesta eleição a observação de ser mais
violento e eficaz o efeito do terremoto na p.^{te} mais repleta de
habitantes cujos excretos, penetrando e permeando mais os poros da
terra, possão concorrer com mayor adjutorio p.^a a formatura do
terremoto, ou atrair a si os seus efeitos com mais sem.^e e abund.^e
simili. O [~q] podendo ser assim tambem aviza, [~q] se evite q.^{to} for
possivel a continuação de hum tal atractivo. Persuado-me ter lido [~q]
já Lix.^a padeceo perseguição de terremotos por tempo de um anno; e como
o fogo me consumiu todo o adjutorio de [~q] me valia p.^a narrar com
segurança, não poderei determinar o tempo nem o vigor de seu principio,
nem alg[~u]as mais especialid.^{es} que occorrerão; mas sempre pode
servir de exemplo, de [~q] a communicação dos taes excretos possa servir
de alim.^{to} p.^a sem.^e destroço. A multiplicidade de terremotos, que
tem padecido Constantinopla cid.^e populosissima parece corroborar esta
supposição: _quae sola non profunt, multa collecta juvant_.
8.--Atéqui o [~q] me occorreo dizer a favor de cada hum dos sinco modos
possiveis p.^a a renovação de Lix.^a; resta-me declarar o [~q] se poderá
dizer em contr.^o p.^a ver se com estas ponderaçoens me poderei
determinar a tomar algum partido em forma [~q] se não possa dizer [~q] o
fiz sem estas antecedencias.
9---No 1.^o modo encontro a falta de atenção ao melhoram.^{to} de hua
cid.^e que se edifica de novo conservandolhe as ruas estreitas, o [~q]
as fas de aborrecivel uzo, e as cazas m.^{to} altas com o horror que das
suas alturas se tem concebido; não obstante poderse dizer, [~q] este
horror hade ser de pouca duração, por[~q] em fazendo alg[~u]a pessoa
veneranda edif.^o de mayor altura de dous pav.^{tos} logo outras de
qualquer veneração a irão imitando, e consequentem.^{te} todas as [~q]
tiverem com [~q] o fazer; por[~q] ao mesmo passo [~q] vai esquecendo o
horror do terremoto, se irá esquecendo o da ley dos dous pavim.^{tos}.
Sirva de exemplo a ley do alinham.^{to} p.^a [~q] as cazas [~q] se
renovassem, se recolhessem até [~q] as ruas ficassem em certa largura,
como a da rua dir.^{ta} das portas de S. C.^{na} onde se executou athé
certo tempo, e se não continuou em alg[~u]a das cazas [~q] depois se
renovarão ou se edificarão de novo.
10.--O 2.^o modo, ainda [~q] attende á formosura da cid.^e p.^{lo} [~q]
toca a largura das ruas, tem o defeito de se não acautelar contra o
flagello dos terremotos nas alturas dos edificios; e posto [~q] favorece
aos donos dos edif.^{os} restantes em lhes conservar o n.^o dos
moradores, e consequentem.^e os rendimentos, e tambem possão dizer [~q]
a ley dos dous pavim.^{tos} terá o mesmo efeito [~q] a ley do
alinham.^{to}, não são razoens subsistentes por dependerem do futuro.
11.--O 3.^o modo [~q] parece mais admissivel, por[~q] attende assim a
formosura da cid.^e no espaçozo das ruas, e precaução dos terremotos nos
dous pavim.^{tos} só permitidos, tem contra si os clamores dos donos dos
edif.^{os} extinctos, e outros diminutos de rendim.^{tos} pela
diminuição dos inquilinos, entre cujos clamores, serão m.^{to} distintos
os dos Morgados, Eccles.^{os} e Irm.^{des} que costumão ser m.^{to}
attendidos; como tambem tem contra si a acomodação dos dezentulhos,
por[~q] alem dos [~q] se achão já occupando as ruas largas e estreitas,
hade acrecer o de todas as casas [~q] se hão de extinguir inteiram.^{te}
e mais [~q] tudo a gravissima despeza com [~q] se hade substituir a
diminuição dos edificios extinctos ou em p.^{te} ou em todo.
12.--O 4.^o modo, posto [~q] vence ao 3.^o em evitar o embaraço dos
duzentulhos, e em dar melhor serventia á cid.^e, sempre fica com o grave
pezo de dar a cada hum a justa satisfação do [~q] lhe pertencer.
13.--O 5.^o modo, [~q] parece o mais facilitado, não deixará de ter
contra si o interesse dos donos das casas edificadas nas ruas principaes
de Lix.^a, receando [~q] se lhes diminuão o rendimento dos seus
alugueis, aumentandose m.^{to} o n.^o das habitaçoens em p.^{tes} de
differente eleição.
14.--O [~q] assim ponderado, resta fazer escolha de algum dos sinco
modos de [~q] se não possa seguir arrependim.^{to}, no [~q] encontro
grande dificuldade, e p.^a poder sair della, me tem occorrido, [~q] só a
eleição [~q] S. Mag.^e fizer do sitio p.^a o seu Real Palacio poderá
fazer pezar a opinião [~q] lhe for mais apropriada; por[~q] se S. Mg.^e
for servido querer o seu novo e real Palacio no sitio de Bellem, fica o
modo n.^o 5.^o infalivelmente adoptado e preferido a todos os outros;
porem se S. Mag.^e fôr servido querer lançar mão de hum sitio
salutifero, e superior apropriado p.^a cabeça de Corte com boas 4
communicações p.^a a cid.^e e p.^a o campo, aproveitando-se
primr.^{a}m.^{te} do beneficio da agua livre de Bellas, e terreno firme
e solido com bom livelam.^{to} e capacidade p.^a edificar com grandeza,
he este o sitio entre S. João dos Bemcasados e o conv.^{to} de N. Sr.^a
da Estrella com 4 communicaçoens de bom uso; a 1.^a p.^a o campo,
interior do paiz por Campolide, e Sete rios: a 2.^a pelo Rato, Noviciado
da Cotovia etc. a 3.^a p.^{la} rua nova de S. Bento, ou nova colonia; a
4 p.^{lo} cam.^o do S.^r da boa Morte, Fonte Santa, N. Sr.^a das
Necessidades etc. até o mar, caminhos todos de bom livelam.^{to} e
correntezas de aguas p.^a limpeza dos edif.^{os} e ruas depois de terem
servido nas fontes e tanques do Real Palacio, e de hum Hospital na
quebrada da cerca de S. Bento p.^a a p.^{te} do nascente, cuja pozição
já escolhi q.^{do} se tratou do sitio p.^a o Hospital real de todos os
Santos, por o reconhecer melhor no prez.^{te} tempo do [~q] o de junto a
S. D.^{os} no rocio. Tambem não posso deixar de lembrar [~q] no tal novo
e real Palacio se poderá formar hua Biblioteca publica por evitar o
justo reparo de a não haver na Corte de Portugal, e junto a ella a casa
do Real Archivo, [~q] ainda [~q] o terremoto o não destruisse, sempre
necessitava de h[~u]a tal acomodação á imitação do Archivo Romano, pera
o qual se entra pela Biblioteca do Vaticano. E p.^a o duplicado, de [~q]
tambem ha grande precisão, se escolherá sitio separado.
15.--E determinado e escolhido este lugar d'entre S. João dos Bem
casados e o conv.^{to} de N. Sr.^a da Estrella p.^a o novo e real
Palacio, me parece se deve principiar a renovação da cid.^e de Lix.^a
pelos edificios publicos, que são fabricados por conta da real fazenda,
por serem os pr.^{os} fundam.^{tos} dos reaes subsidios quasi todos na
marinha, p.^a o [~q] largará S. Mag.^e o seu Palacio antigo, assim como
os Sr.^{es} Reys seus antecessores havião largado os em [~q] habitavão,
[~q] se achão hoje servindo de outros uzos: e poderá tambem formarse a
caza da bolça do neg.^o e tudo com as direcçoens, e formalid.^{es} não
só segundo as not.^{as} das outras Cortes, mas com as melhoras [~q]
occorrerem, e o bom discurso alcançar.
16.--As communicaçoens da 1.^a praça do terr.^o do Paço p.^a dentro da
cid.^e se devem abrir as 1.^{as} em correspond.^a ás duas ruas dos
ourives do ouro e da prata, evitando todas as pasagens cubertas [~q] são
incidiosas de noite.
17.--As ruas de cazas [~q] de novo se fabricarão p.^a a communicação do
novo Palacio com a cid.^e antiga se emprenderão depois das d.^{as} reaes
obras; mas ou sejão edificadas de madr.^a ou de pedra e cal, nunca a
altura das cazas excederá a largura das ruas, e q.^{do} as ruas forem
mais largas [~q] a altura dos dous pavim.^{tos} sobre as logeas, nem por
isso as cazas poderão subir a terceiro pavimento.
18.--E pelo [~q] pertence a renovação da cid.^e arruinada me acomodo ao
4.^o modo já assinado, valendome de conservar os entulhos p.^a dar mayor
altura ao pav.^{to} da cid.^e baixa, principiando a alteala do adro do
conv.^{to} da Annunciada, do adro do conv.^{to} de N. Sr.^a da Boa Hora,
do adro da Ermida de N. Sr.^a da Assumpção da rua dos ourives da prata,
e a esta imitação todas as mais ruas [~q] estiverem no mesmo
livelam.^{to} formandose h[~u]a tal descida p.^a o mar [~q] vá fenecer
pela porta da Alfandega do tabaco.
19.--P.^a se poderem dirigir as ruas na forma mais regular se sinalarão
primr.^o com bandeirolas firmes todas as ruas destruidas p.^a se
reconhecer por este modo o terreno [~q] occupavão as cazas e ruas, e
poderse emmendar com clareza, o [~q] se julgar necessr.^o evitando-se
deste modo o perigo [~q] pode haver q.^{do} unicam.^{te} se guiarem por
plantas, como já tem sucedido, e poderse sobre esta not.^a pratica e
palpavel tomar a rezolução de como se hão de suprir as diminuiçoens [~q]
houverem nas propried.^{es}, o [~q] necessita de m.^{to} especial
attenção.
20.--Parece porem preciso determinarse se nas ruas principaes deste
bairro baixo e plano se devem formar columnatas como havia na rua nova
dos ferros e confeitaria p.^a comodid.^e da passagem da gente em tempo
de inverno, e chuvoso, não excedendo porem a altura das cazas os d.^{os}
dous pavim.^{tos} hum dentro das columnatas, e outro sobre ellas.
21.--Declaro [~q] o reservar p.^a ultimo lugar esta operação he p.^a dar
tempo a [~q] o grande n.^o de corpos immersos pelos entulhos não possão
produzir alg[~u]a corrupção no ar, descobrindose, e pela mesma razão
procuro tambem altear as ruas p.^a não haver tanta necessid.^e de os
revolver; pertendendo tambem com esta dilação suspender o horror em [~q]
o publico se acha contra os edif.^{os} [~q] não são de simples madr.^a
alem de que por falta de meyos receyo m.^{to} que haja grande
difficuld.^e em edificar de outro modo, por[~q] os incendios extinguirão
quasi todos os cabedaes dos habitantes de Lix.^a.
22.--Nesta pr.^a parte da prez.^{te} Dissertação procurei expressar em
generalid.^e o [~q] na imaginação embaraçada com hum tão raro caso me
foi possivel revolver, sujeitandome de m.^{to} boa vont.^e a toda a
correcção judiciosa, [~q] emmende melhor ou reprove o [~q] achar [~q] o
merece, por[~q] do mesmo modo [~q] estimaria tivesse boa aceitação o que
proponho, igualm.^{te} estimarei a justa reprovação antes [~q] a
execução o embarace; com a differença som.^{te} que deixarei de me
empregar em segunda e individual parte, se na pr.^a me tiver afastado do
[~q] for mais conveniente ao Real serv.^o e bem do publico; pois [~q]
nas individuaçoens periga m.^{to} mais o acerto q.^{do} a generalid.^e
se tem afastado da rectidão. 4 de Dez.^o de 1755. Lix.^a M.^{el} da
Maya[16].
*Segunda p.^{te} da Dissertação sobre a renovação da Cid.^e de Lisboa
por Manoel da Maya Mestre de campo general, Engenheir.^o mor do R.^{no}
e Guarda mor da Torre do Tombo*
1.--Visto parecer que vai tendo alg[~u]a aceitação a 1.^a p.^{te} da
minha Dissertação sobre a renovação da Cid.^e de Lix.^a he precizo
animarme a individuar a 2.^a, como prometi no ult.^o § da 1.^a, não
obstante terlhe reconhecido m.^{to} mayor dificuld.^e. Valerme-hei porem
do mesmo methodo [~q] segui na 1.^a, indagando por p.^{tes} a natureza
de todas as que me propuzer p.^a fazer eleição, p.^a [~q] q.^{do} não
chegue a determinarme inteiram.^{te}, ao menos mostre [~q] as ponderei
até onde a minha possibilid.^e pode alcançar, ficando assim aberto o
cam.^o p.^a q.^m com melhor vista possa reconhecer distintamente as
ventagens e os defeitos [~q] eu não chegar a perceber.
2.--Procedo na suposição de S. Mag.^{de} fazer eleição do sitio medio
entre S. João dos Bem casados e o Conv.^{to} de N. Sr.^a da Estrella
p.^a o seu novo e real Palacio, ficando aquelle sitio cabeça e parte
principal da Corte e Cid.^e de Lix.^a, ao [~q] precizam.^{te} se hade
seguir a renovação do corpo da mesma cid.^e destruida, p.^a o [~q] se
mostra m.^s apropriado o 4.^o modo da renovação da cid.^e expressado no
§ 6 da d.^{ta} 1.^a parte [~q] diz assim etc.