O senhor prestou-se a uma ridicula mistificação, uma fraude ultrajante,

odiosa, só com o fim de dilacerar uma mulher.

LIBORIO

Não foi isso.

ITELVINA

Então que foi?

LIBORIO

O caso é este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu

tenho cá para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se

deseja ser amado d'ella. A alma do homem é assim formada de estupidez e

capricho...

ITELVINA

Huum! (_Depois de um curto silencio_) Quer beber? (_Enche o copo_).

LIBORIO

(_erguendo-se_) Agradeço (_vae á jardineira_) Muito obrigado, querida

senhora! (_Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo_).

ITELVINA

(_tendo bebido_) Sempre o senhor me collocou n'uma situação bem

exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuasão, o

meu dever qual era? que me cumpria fazer?

LIBORIO

Mandar chamar o chefe da policia.

ITELVINA

Eu conheco lá policias...

LIBORIO

Em vez d'isso, pensou lá comsigo: «Como é um scelerado, cazo com elle.

Se o mettesse na Relação, elle poderia fugir vestido de mulher; mas,

cazando com elle, é o mesmo que pôl-o na Penitenciaria, d'onde não se

foge facilmente.

ITELVINA

(_erguendo-se e vindo ao meio_) E isso é tão verdade que o senhor gosa a

liberdade de retirar-se quando quizer.

LIBORIO

Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe

dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide

esquecêl-a; mas hade levar tempo... Não me fingo mais forte do que

sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens são, senhora!...

As mulheres, ás vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava

na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava

imbecilmente de saudade... d'amor! (_Ergue se_) Estupida confissão, mas

verdadeira!... (_Passa á esquerda_) Ah! Como os homens são bêstas!

Graças vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (_Itelvina, sem lhe

responder, corre á janella que abre_).

ITELVINA

(_atirando dinheiro á rua_) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; vá-se embora.

LIBORIO

Como é isso? elle é o meu cocheiro.

ITELVINA

Liborio! eu amo-te!

LIBORIO

Como?

ITELVINA

Tu não te vaes embora!

LIBORIO

Não vou?...

ITELVINA

Peço-te perdão, peço-t'o de joelhos! (_ajoelha_).

LIBORIO

(_ajoelhando-se tambem_) Tu... de joelhos!

ITELVINA

Confesso que fui injusta.

LIBORIO

Sim... a fallar verdade... mas não...

ITELVINA

Perdôa-me!

LIBORIO

Perdôo... E o pé torcido? Destorceu-se?

ITELVINA

Estou boa de todo.

LIBORIO

Minha esposa!

ITELVINA

Meu marido! (_abraçam-se sem se levantarem_).

SCENA XIII

Liborio, Itelvina, Barnabé e Sebastiana

BARNABÉ

(_entra pelo fundo e recúa_) Elles lá se estão a trincar um ao outro!

LIBORIO

(_erguendo-se_) Está enganado... não nos trincamos.

ITELVINA

(_o mesmo_) Meu pae, eu adoro o meu marido!

BARNABÉ

Ora ainda bem!

LIBORIO

Aqui entre nós, eu creio que ella está de todo _desméxicada_.

BARNABÉ

Antes isso, meus filhos, antes isso... Eu vinha annunciar-lhes que me

installei definitivamente no Candal.

SEBASTIANA

(_a Liborio_) Meu senhor, a sege foi-se embora. Quer que se chame outra?

LIBORIO

Só se fôr para meu sogro que se muda, acho eu...

BARNABÉ

Effectivamente mudo para sermos todos felizes de uma assentada. Gosto do

Candal. Tenho lá para me entreter o castello do rei mouro, os armazens

de Villa Nova. Nos armazens... oh! isso lá é que ha fontes sem ser

moiras; fontes christans... christans talvez de mais, por serem muito

baptisadas... E depois a serra do Pilar, logares historicos, etc. Vocês

cá ficam muito felizes...

ITELVINA

Sim, meu pae, muito felizes... (_abraça estremecidamente o marido_).

LIBORIO

(_com ternura_) Então, esta noite, não me penduras a bota nem escondes o

chinelo?

ITELVINA

(_com meiguice_) Não.

LIBORIO

Nem torces um pé?

ITELVINA

Tambem não...

BARNABÉ

Bem! Regalem-se por cá. Lua de mel á portugueza... e nada de Mexico...

FIM

End of Project Gutenberg's O Assassino de Macario, by Camilo Castelo Branco

O Assassino de Macario: Comedia em tres actos · 第 4 / 4 段