IV

Conquista pois sósinho o teu futuro,

Já que os celestes guias te hão deixado,

Sobre uma terra ignota abandonado,

Homem--proscrito rei--mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,

Mas tão cruel!) e o coração magoado

Sentes já de illusões desenganado,

Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoica

D'uma vontade solitaria e altiva,

N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,

Prendendo a immensidade eterna e viva

No circulo de luz da tua Idea!

V

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,

Jámais, a essa encoberta peregrina?

Quem lhe beijou a sua mão divina?

Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,

Reflectindo, levou... incerta e fina

Luz, que mal bruxulêa pequenina...

Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio...

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,

Magros da febre d'um sonhar profundo,

Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,

Tu não tens outra amante em todo o mundo

Mais que essa fria virgem desdenhosa!

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 72 / 130 题