Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito, como
n'uma oração, áquella especie de Deus que é compativel com o seu
temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento, é por que
tem dentro do peito, no logar do coração, um seixo polido e frio. Quem,
no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que
a erriçam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e
não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua
limpida, é porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo
dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os
olhos sobre estas paginas, e não sentir o deslumbramento que os
diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos
livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de
fallar portuguez.
Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero
de Quental--e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na
intimidade--interroga-me geralmente d'este modo: «E _santo_ Anthero,
como vae?»
Dil-o com a convicção quente dos artistas, mas eu, que o não sou, tenho
a pôr embargos, porque a santidade não é planta adequada ao clima do
nosso tempo. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos
ares que respiramos.
A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude
austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse
observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom,
embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a
caridade, o amor, a abnegação, as tentações, as crises, as lagrimas, as
afflicções, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que,
reunido, forma uma alma mystica--tudo isso móra na alma d'este poeta
arrebatada pela visão inextinguivel do Bem.
Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e affirma o Bem.
E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do
borborinho de um seculo activo até á demencia, tem tambem uma fé
ardente--uma fé buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem
intelligencia e sem consciencia, é, para nós outros, a quem são vedados
os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma.
Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no
seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de
Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de
excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram
indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.
_Oliveira Martins_.