III

Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito, como

n'uma oração, áquella especie de Deus que é compativel com o seu

temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento, é por que

tem dentro do peito, no logar do coração, um seixo polido e frio. Quem,

no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que

a erriçam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e

não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua

limpida, é porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo

dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os

olhos sobre estas paginas, e não sentir o deslumbramento que os

diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos

livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de

fallar portuguez.

Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero

de Quental--e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na

intimidade--interroga-me geralmente d'este modo: «E _santo_ Anthero,

como vae?»

Dil-o com a convicção quente dos artistas, mas eu, que o não sou, tenho

a pôr embargos, porque a santidade não é planta adequada ao clima do

nosso tempo. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos

ares que respiramos.

A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude

austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse

observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom,

embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a

caridade, o amor, a abnegação, as tentações, as crises, as lagrimas, as

afflicções, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que,

reunido, forma uma alma mystica--tudo isso móra na alma d'este poeta

arrebatada pela visão inextinguivel do Bem.

Só no meu coração, que sondo e meço,

Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,

Em segredo protesta e affirma o Bem.

E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do

borborinho de um seculo activo até á demencia, tem tambem uma fé

ardente--uma fé buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem

intelligencia e sem consciencia, é, para nós outros, a quem são vedados

os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma.

Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no

seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de

Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de

excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram

indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.

_Oliveira Martins_.

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 15 / 130 题