Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo

(_Lição de Gaspar Fructuoso_)

Em villa Franca do Campo,

Que de nobre precedia

Na Ilha de Sam Miguel

A quantas villas havia,

Era de mil e quinhentos

E vinte e dois que corria,

Vinte e dois dias d’outubro,

Quarto da lua seria;

Correu a terra de um monte

Que da alta serra pendia,

E com ímpeto furioso

Sobre a villa se estendia.

Alí começa a dar gritos

A gente que se affligia;

D’elles chamavam por Deos,

D’elles por Santa Maria.

Quando chegou a manhã

Nenhum d’elles perecia;

Todos cobertos de terra,

E de grande penedia,

Que correu d’aquella serra,

Que sobre a villa jazia.

Essa gente que escapara,

Como pasmada morria.

Outra que viva ficava,

Vivendo assi, não vivia.

Aqui chega Frei Affonso,

E com a tocha que trazia

Da Ordem de Sam Domingos

De Toledo reluzia,

Esse Padre glorioso

Que da gloria parecia.

Para consolar o povo,

Assi falava e dizia:

--Confessae-vos, irmãos meus,

Em quanto vos tem o dia.

Resae todos o rosario

Da Virgem Santa Maria,

Edificae-lhe uma Casa,

Indo a ella em romaria.

Tomae-a por valedora,

Que ella por vós rogaria,

Tende n’ella confiança,

Que certo vos valeria.

Não acaba de falar,

Quando a casa se fazia,

Uns acarretando pedra,

Outros madeira á porfia.

Trabalham moços e velhos,

Pessoas de grão valia;

Até as nobres mulheres

Serviam sem fantazia.

Trazem telhas e telhados,

Que no arrabalde havia,

Como formigas ligeiras

Andam a quem mais faria.

Tanto que em poucos dias,

A Ermida já servia,

Já celebram missa n’ella,

Já lá vão em romaria.

Romanceiro geral · 第 64 / 84 题