Dona Catherina

(_Variante da Beira-Baixa_)

’Stando Dona Catherina

No seu jardim assentada,

Com um pente de ouro na mão

Seu cabello penteava.

Deitou os olhos ao largo

Viu vir uma grande armada;

Capitão que ’nella vinha

Trazia-a mui bem guiada.

--Catherina, Catherina,

Catherina de Menezes,

Sabbado vou para França,

Catherina que quereis?

«Saúdai-me o meu marido,

Que por lá o achareis.

--Diga-me minha senhora

Que signaes levava elle?

«Levava cavallo branco,

E espada de Marquez;

Capote de camellão

Forrado de setim verde.

--Pelos signaes que me daes

Não o vi senão uma vez;

Vi-o morrer em França,

Enterral-o em Santa Inez.

Já Catherina chorava

Lagrimas de tres a tres.

--Calai-vos oh Catherina,

Casae commigo outra vez.

«Senhoras da minha laia

Não casam mais que uma vez.

--Quanto déreis vós, senhora,

A quem vol-o traga, aqui?

«Dera-lhe armas e cavallos,

Que cresceram de Dom Luiz.

--Suas armas, seus cavallos

Não me servem para mim;

Que eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Dera ouro, dera prata,

Fôra mais rico que mim.

--O seu ouro e sua prata

Não me servem para mim;

Eu sou capitão da armada

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«As tres azenhas que tenho

Todas tres te dera a ti;

Uma móe cravo e canella,

A outra móe serzelim,

Outra móe rica farinha

Para el-rei, mais para mim.

--Vossas azenhas, senhora,

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas,

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Uma pereira que eu tenho

No meio do meu jardim,

Pois quando ella dá pêras

O rei m’as manda pedir.

--Eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil;

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Essas tres filhas que eu tenho

Todas tres te dera a ti,

Uma para te calçar,

Outra para te vestir,

A mais linda d’ellas todas

Para comtigo dormir.

--As suas filhas, senhora.

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Não tenho mais que vos dar,

Nem vós mais que me pedir.

--Ainda não me offereceu

Esse seu corpo gentil.

«Cavalleiro que tal fala,

Cavalleiro que tal diz,

Merece a lingua arrancada,

Cortada pelo nariz.

Levantai-vos meus criados,

Vinde-lh’o fazer assim,

Ao rabo do meu cavallo,

Ao redor do meu jardim.

--Os criados que a servem

Já me serviram a mim,

As suas filhas, senhora,

Tambem são filhas de mim.

Suas azenhas, senhora,

Tambem pertencem a mim;

Sua pereira, senhora,

Tambem me pertence a mim.

Suas armas e cavallos

Tambem pertencem a mim;

Seu ouro e a sua prata

Tambem pertencem a mim.

O anel que vos eu dei

Quando eu d’aquí sahi,

Mostrai-me a vossa metade,

Pois a minha eil-a aqui!

O anel que vos eu dei

Que se nos partiu no chão,

Mostrai-me a vossa metade,

Aqui está o meu quinhão.

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Romanceiro geral · 第 12 / 84 题