DO COLLECTOR

As primeiras poesias portuguezas, conservadas casualmente nos

Chronicons, não são de origem popular, e o seu valor litterario acha-se

destituido pela auctoridade de João Pedro Ribeiro. Depois do Concilio

de Trento a musa do povo foi banida da egreja, aonde tomava parte na

liturgia, participando tambem da inspiração hymnica. Os latinistas

ecclesiasticos e o cultismo provençal excluiram-na das côrtes. Dom

Diniz, apprendendo a fazer versos na lingua provençal, desprezou o

verso octosyllabico, inteiramente popular e do genio rythmico da

lingua, pelo endecasyllabo _de diez syllabas a la manera de los

limosis_, como diz o Marquez de Santillana. Os nossos Cancioneiros são

aristocraticos.

No tempo de Dom Fernando começa a sentir-se a influencia normanda, isto

é, a implantação das tradições do norte e dos diversos povos, trazidas

pelos aventureiros que divagavam então pela Europa vivendo d’este seu

mister.

O cyclo da Tavola Redonda é imitado nas aventuras dos passos d’armas,

na _Ala dos Namorados_ e da _Madre Sylva_, nos _Doze de Inglaterra_,

desenvolvendo-se a ponto de crear um typo messianico em Dom Sebastião,

em tudo similhante a el-rei Arthur. No maravilhoso popular encontram-se

vestigios das superstições germanicas, e o cyclo carolino toma o

sentimento cavalheiresco da _fidelidade_ allemã como principio de

unidade, em vez da _independencia_ altiva do genio franko.

No seculo XVI a eschola italiana absorveu a attenção dos espiritos

a ponto de sacrificarmos o genio nacional ás exagerações classicas.

Foi Gil Vicente o unico que não desprezou o sentimento popular,

decidindo-se abertamente por elle, com mais franqueza do que o douto

Sá de Miranda, que tergiversa entre a seducção estrangeira e a indole

do nosso povo. Emquanto o endecasyllabo novo se expraia nas eclogas

enfadonhas do gosto siciliano, a redondilha popular salva-se com

a facilidade chistosa de Gil Vicente. O povo ia elaborando a sua

poesia maritima, inspirado pelo sentimento profundo da aventura, a

que o proprio Camões, classico do fundo d’alma, não se eximiu de

modo que a influencia que recebeu não fosse o caracteristico por

onde é hoje admirado na Europa. A _Historia tragico-maritima_ era o

nucleo das narrações em prosa d’onde havia de sahir já feito o verso

octosyllabico, verso por assim dizer falado, da mesma sorte que

das Chronicas hespanholas saiu a maior parte e a mais celebre dos

Romanceiros antigos.

A perda de Alcacer Kibir foi o termo da edade heroica de Portugal; o

povo, no desalento, nas extorsões de uma dominação extranha, volveu-se

ás suas esperanças imaginarias, atou as tradições do campo de Ourique

aos destinos da patria, fel-a o Quinto Imperio do mundo. De facto as

prophecias nacionaes são a unica poesia popular do seculo XVII. As

reminiscencias do cyclo de Arthur e as esperanças do genio celtico

vêm coadjuvar a mente popular na formação de um ideal messianico. Dom

Sebastião tornou-se o Encoberto que hade vir soltar o sonho em que

Portugal succederá na gerarchia das grandes nações. De todos os povos

da Europa, nós fômos o ultimo que deu importancia á poesia popular. As

discussões dos philologos allemães sobre o Niebelungen, a publicação

das epopeas francezas dos seculos XII o XIII, a polemica sobre a

originalidade dos poemas de Ossian e a critica homerica encetada por

Vico, concorreram bastante para o esclarecimento da grande these

das creações anonymas, renovando o amor pela restauração d’estes

thesouros perdidos. Entre nós os que primeiro recolheram algumas

poesias primitivas, por mera curiosidade erudita, foram Fr. Bernardo

de Brito, Miguel Leitão e Manuel de Faria e Sousa, que mutuamente

reproduziram essas quatro duvidosas reliquias dos seculos XII e XIII.

Sobre todos, Garrett foi quem descubriu a poesia popular das nossas

provincias. Que delicadissimo artista para perceber a alma do povo!

Não lhe comprehenderam o alcance do trabalho entre nós; em um prologo

se queixa elle com pesar d’esta insufficiencia. A chamada geração nova

atirou-se ao verso octosyllabico, pondo-se a rimar solaos e baladas,

superfetações ridiculas, sem imaginação, nem arte. Muitos dos romances

que formam a presente collecção, já andavam na lição de Garrett melhor

dramatisados, e com um colorido encantador. Desanimámos por vezes,

quando confrontavamos as versões que recolhiamos com as d’elle, sempre

mais primorosas e extensas. Por fim vimos, e as palavras de Garrett

o confirmam, que elle por vezes de muitas variantes formava um só

romance, supprindo versos, ou completando-os pelos manuscriptos do

Cavalleiro de Oliveira. Assim apresentou um trabalho excellente sob

o ponto de vista artistico, pelo gosto de Percy, mas que não merece

a absoluta confiança dos que quizerem surprehender a alma do povo na

elaboração da sua poesia. Esses sessenta romances, que a todo o custo

alcançámos de pessoas que não sabem _dizer_ sem _cantar_, e que logo

que as interrompem perdem o fio da cantilena, de outras supersticiosas

e que temem de ser escarnecidas, todos estes romances foram, por

assim dizer, apanhados em flagrante delicto do enthusiasmo popular.

Comparámo-los com as versões de Garrett, e creio que aonde lhes são

inferiores assenta a sua valia. A classificação adoptada não é a de

Duran: é tirada da natureza da poesia popular, que por si mesmo se

divide e aconselha as partes em que se deve agrupar. A poesia do povo

não é uma habil curiosidade; como um facto profundo do espirito, não

deve de ser estudada somente pelo lado artístico; é principalmente pelo

lado psychologico que a sua rudeza e ingenuidade pittoresca tem valor.

A presente collecção, pode sem orgulho nacional dizer-se, é composta

do que ha de mais bello e antigo na poesia popular da Peninsula; quasi

todos estes sessenta romances que andam na tradição, se encontram nas

velhas recopilações hespanholas, mas aqui melhor dramatisados, mais

breves e simples, e tal vez mais puros, porque passaram directamente da

versão oral para a lição escripta. Quando a observação nos confirmou

a grande verdade que ha na poesia do povo e fez vêr n’ella a sua

principal belleza, para de logo um sentimento de respeito venerando

obrigou a conservar sempre na sua rudeza as coplas e narrativas que

iamos recolhendo. E assim, para os homens que se dedicam a este

genero de trabalhos, para os psychologos que procuram surprehender as

manifestações da alma na sua verdade, diante d’esses protesto, em nome

da probidade do homem e da intuição de artista, que todos os romances

populares que da tradição recolhi são estremes e genuinos.

Romanceiro geral · 第 7 / 84 题