Grande foi o amor, que Jesu Christo mostrou, quando junto da fonte de
Sichar se assentou, esperando que viesse a Samaritana para a converter e
para a salvar. Mas que excesso de amor não mostra elle aos homens,
descendo do Ceo todos os dias sobre os nossos altares, esperando, e
convidando as almas a fazer-lhe companhia, ao menos por algum espaço de
tempo, tudo isto a fim de attrahil-as ao seu perfeito amor? Em todos os
altares em que está Jesus Sacramentado, parece que falla, e a todos está
dizendo: Homens, porque fugis da minha presença? Porque não vindes, e
vos chegais a mim, que tanto vos amo, e por vosso bem estou aqui assim
humilhado! que temor é esse vosso? Eu não venho agora ao mundo para
julgar, mas estou aqui escondido neste Sacramento de amor só para vos
communicar muitos bens e salvar a todo aquelle, que a mim recorrer. _Non
veni, ut judicem mundum, sed ut salvem mundum_. (_Joan. 12._)
Almas devotas, entendei que assim como Jesu Christo está vivo no Ceo,
sempre rogando por nós, assim tambem no Sacramento do altar está fazendo
continuadamente de noute, e de dia, o piedoso officio de nosso advogado,
offerecendo-se como victima ao Eterno Pae, para nos alcançar as suas
misericordias, e graças innumeraveis. Por isso dizia um devoto, que
deviamos chegar a fallar a Jesus Sacramentado com confiança, e sem
temor, assim como um amigo falla com outro amigo.
Pois, Senhor, se é tanta, a vossa bondade, deixai que eu vos abra com
confiança o meu coração, e vos diga: Ó meu Jesus! ó namorado das almas,
eu bem conheço a ingratidão, com que vos tratão os homens. Vós os mais,
e não sois amado; fazeis-lhes todo o bem, e recebeis desprezos. Quereis
fazer-lhes sentir as vosssas amorosas vozes, e elles não vos querem
attender: offereceis-lhes as vossas graças, e elles as recusão. Ah, meu
Jesus! e é verdade que tambem eu algum tempo fui do numero destes
ingratos! Ah, Deus meu! É mais que verdade; mais eu quero emendar-me, e
quero compensar nos dias, que me restão de vida, os desgostos, que vos
tenho dado, fazendo quanto puder daqui era diante por vos agradar.
Dizei, Senhor, o que quereis que eu faça: tudo executarei sem reserva:
fazei-mo saber por meio da santa obediencia que eu não tarderei em o
cumprir. Deus meu; eu vos prometto resolutamente de não deixar mais
cousa alguma, que eu entenda de hoje em diante ser do vosso agrado,
ainda que para esse fim me fosse preciso perder os parentes, os amigos,
a estimação, a saude, e até a propria vida. Sim, perca-se tudo, e dê-se
gosto a vós. Feliz perda, quando se perde, e se sacrifica tudo, para
contentar o vosso coração, ó Deus da minha alma. Amo-vos, ó Bem
infinito, summamente mais amavel que todos os outros bens. Desejo unir o
meu pequeno coração a todos os corações, com que vos amão os Serafins:
só a vós amo, e só a vós quero amar sempre.