J.F.

Teve v. s.ª a bondade de me remetter o discurso que o sr. Anthero do

Quental proferiu ou devia proferir no Casino (da sua carta não infiro

claramente se o facto chegou a verificar-se) o que, com os discursos dos

oradores que o precederam, deu aso a serem tolhidas pelo governo

aquellas conferencias. Pede-me v. s.ª que leia o discurso e lhe dê a

minha opinião sobre o seu conteúdo e sobre o procedimento da

auctoridade. Nesta vida positiva que hoje vivo, pouco é o tempo que me

sobeja para a leitura, nem, a falar verdade, o espirito se inclina muito

para esse lado. Depois, as suas perguntas referem-se a assumptos graves,

e até abstrusos, que, porventura, não cabem na capacidade da minha

intelligencia. Accresce que geram em mim tristeza as nossas questões

publicas, e com o egoismo de velho fujo de pensar nellas. Apesar, porém,

de tudo isso, forcejarei por fazer uma excepção a favor deste discurso,

por certa sympathia que sinto pelo auctor, não obstante a profunda

divergencia que ha entre as nossas opiniões. É, talvez, porque no seu

caracter me parece descobrir uma destas indoles nobremente austeras que

cada vez se vão tornando mais raras. Revela o trabalho que me remette as

precipitações e os impetos proprios da idade de quem o delineou. Só os

annos nos curam desse defeito. Quizera eu que o sr. Anthero do Quental

conhecesse melhor a doutrina e a tradição verdadeiramente catholicas,

porque havia de ser menos injusto com o catholicismo, embora não fosse

menos severo, ou talvez o fosse ainda mais, com os padres.

Quanto á prohibição das conferencias, que quer que lhe diga? É peior que

uma illegalidade, porque é um desproposito; e na arte de governar, os

despropositos são ás vezes peiores que os attentados. O que sería

escutado e em grande parte esquecido por cem ou duzentos ouvintes será

agora lido e meditado por milhares, talvez, de leitores. Diz-me que se

tomou por pretexto da suppressão das conferencias o desaggravo da

religião offendida. Erro deploravel. Idéa perseguida, idéa propagada:

lei perpetua do mundo moral, perpetuamente esquecida pelo poder. Por

certo, o governo tem obrigação de manter a religião do Estado, como tem

obrigação de manter todas as instituições do paiz. Mas o respeito pela

inviolabilidade do pensamento entra tambem no numero das suas

obrigações. E quando a religião do Estado e a liberdade do pensamento

collidem, é aos tribunaes judiciaes que cumpre dirimir a contenda. O

discurso oral é manifestação da idéa, como o é o discurso escripto. Não

se póde supprimir o orador, como se não póde supprimir o escriptor. Para

um, como para outro, ha a responsabilidade e a punição.

Depois, creio pouco que o sr. Anthero do Quental, apesar da sua clara

intelligencia, e da auctoridade moral que lhe dá a integridade do seu

caracter, seja assás poderoso para derribar o catholicismo, a religião

de S. Paulo e de S. Agostinho, de S. Bernardo e de S. Thomás, de Bossuet

e de Pascal. O perigo, não absoluto, mas relativo, está n'outra parte.

Aggredido pela frente, o catholicismo póde applicar a si, melhor que o

protestantismo, o verso do bello hymnario de Luthero.

Ein feste Burg ist unser Gott.

Não se toma a fortaleza divina; mas póde ser minada e alluida por uma

guarnição desleal. É este actualmente o grande perigo que a ameaça: não

são os discursos do Casino. A situação da igreja assemelha-se hoje

áquella em que se achava no IV seculo, quando o arianismo, no dizer de

S. Jeronymo, triumphava por toda a parte, e até o papa Liberio adheria á

formula ariana do conciliabulo de Sirmio e acceitava como orthodoxa a

heresia. Esta situação tristissima da igreja é cousa um pouco mais grave

para a religião do Estado do que todas as hostilidades imaginaveis dos

seus adversarios leaes.

Que me seja licito fazer uma pergunta, que vai maravilhá-lo. Existe

ainda entre nós o catholicismo proclamado instituição social pela Carta?

A resposta que eu proprio darei a esta pergunta ainda, porventura, o

maravilhará mais. Existe apenas na fé perseverante, mas silenciosa e

triste, de alguns fieis, que deploram os destinos preparados á igreja

por um clero geralmente faccioso e sem convicções. Hoje a igreja, se

podesse perecer, correria grande risco de não completar o vigesimo

seculo da sua existencia. Dar-lhe-hei nesta carta a razão do meu dicto,

embora isso a torne, talvez, demasiado longa; mais longa, por certo do

que eu desejaria.

Caracter fundamental do catholicismo verdadeiro, do catholicismo que nos

inculcaram na infancia, era a immutabilidade, a perpetuidade e a

universalidade dos seus dogmas e das suas doutrinas na successão dos

tempos, caracter precisamente descripto no celebre _Commonitorium_ de

Vicente de Lerins. Nessa crença, tão incomprehensivel seria a suppressão

de um dogma antigo, como a addição de um dogma novo, ou (para me servir

de phrase de um theologo eminente do seculo XV) nessa crença não se

tinha por menor heresia affirmar ser de fé o que não o era, do que negar

que o fosse o que era [4]. Nisto consistia practicamente a immensa

vantagem do catholicismo sobre as seitas dissidentes, indefinitamente

variaveis, fluctuantes, subdivididas de dia para dia, gerando as mais

desvairadas aberrações religiosas. Além disso, a igreja tinha leis que a

regiam desde os seculos primitivos e que só os parlamentos christãos, os

concilios, podiam alterar, quando essas alterações não fossem de

encontro ás tradições apostolicas, e a que todos os membros da sociedade

catholica, desde o papa até o mais obscuro entre os fieis, eram

obrigados a obedecer. Depois, na economia da sua administração interna,

nos ritos, e em outras manifestações accidentaes do culto, cada igreja

nacional, e até cada provincia ecclesiastica, tinha os seus usos e

liberdades especiaes, que a igreja universal consentia, porque o que

constitue verdadeiramente a unidade é a unidade da fé. Governo

parlamentar, maximas fundamentaes dominando atravez dos seculos a

legislação canonica, direito commum conciliando-se com o respeito ás

autonomias, ninguem superior á lei, a fraternidade humana, a tolerancia

material ao lado da intolerancia doutrinal; em summa, uma grande parte

das conquistas da civilisação moderna são apenas velhas conquistas do

christianismo transferidas para a sociedade temporal. Cuidando aportarem

a praias ignotas, os publicistas mais de uma vez tem plantado padrões de

descobrimento em regiões onde, embora occultos pelos musgos e sarças, os

padrões da cruz estão plantados ha mais de mil e oitocentos annos.

Sem duvida, durante a idade media, grande numero de abusos se tinham

introduzido na disciplina, no mechanismo da sociedade catholica. Houve

sempre homens grandes e virtuosos que luctassem contra esses abusos, mas

nem sempre alcançavam moderá-los e mormente vencê-los. Na epocha dos

concilios de Constança e de Basilea,[5] os dous ultimos concilios

sinceros e livres que a historia ecclesiastica memora, sorriu para a

igreja uma esperança de reforma; mas essa esperança desvaneceu-se em

breve. Os abusos adquiriram novo vigor quando o renascimento veio

substituir as tendencias christans pelas tendencias pagans, e se

tornaram possiveis papas como Alexandre VI e Leão X, mais devotos da

trindade de Momo, Venus e Baccho do que da trindade evangelica. Então,

em logar da reforma, veio a revolução: veio Luthero. O catholicismo,

mutilado, tornou-se fragmento, embora grandioso fragmento. A resistencia

á revolução gerou, porém, a assembléa de Trento. Trento exprime um facto

notavel. A igreja servira, seculos antes, como de typo á sociedade

temporal: a sociedade temporal, onde as liberdades da idade media tinham

cedido já o campo ao absolutismo victorioso, reflectiu na reorganisação

da igreja. Como o absolutismo trouxera vantagens na vida civil,

trouxe-as tambem na vida espiritual; mas, tanto aqui como alli, essas

vantagens foram bem modestas comparadas com os males que derivavam da

nova contextura da sociedade religiosa e da sociedade temporal; tanto

aqui como alli, um abuso derribado era o prenuncio de muitos que íam

pullular. Esses abusos, quer antigos quer modernos, ingeridos na

sociedade christan, invadiam sempre mais ou menos as igrejas nacionaes.

Mas, no meio da decadencia exterior, a essencia do catholicismo--o

dogma--mantinha-se intacta. O symbolo salvo pelo concilio de Nicéa e

pelos esforços de S. Athanasio continuou até nós immutavel. Na propria

disciplina, o poder temporal, quando nisso interessava, reprimia as

tendencias abusivas de Roma, e até, não raramente, o episcopado,

momentaneamente desperto, recordava-se da sua instituição divina. Novo

Encelado, revolvia-se debaixo da enorme pressão do papado e, batendo com

as algemas nos degraus do throno pontificio, fazia-o estremecer.

Travavam-se ás vezes luctas sérias entre os dous absolutismos. Ambos

tinham por alliado o céu. _Tu es Petrus_, allegava o papa: _Per me reges

regnant_, redarguia o rei. _Pasce oves meas_: acudia o papado. _Omnis

potestas a Deo_: repunha o absolutismo. Roma, por via de regra, não

levava a melhor, sobretudo quando os bispos, ou por conveniencia ou por

convicção, se associavam ao poder temporal, o que era frequente.

Ao promulgar-se a Carta, Portugal achava-se nesta situação religiosa. A

Carta, convertendo o catholicismo em instituição politica, adoptava-o

como elle existia no paiz--essencia e fórma; dogma e disciplina. Disse o

legislador que a religião catholica apostolica romana _continuaria_ a

ser a religião do reino: não disse que essa instituição seria uma cousa

nova, fluctuante, mudavel, conforme approuvesse aos jesuitas ir

supprimindo ou annexando dogmas á doutrina catholica, mediante o assenso

ou inconsciente ou incredulo do papa e do episcopado. O que continúa não

é o que vem de novo; é o que existe no acto de continuar. Ora os factos

estão desmentindo esta doutrina irrefragavel. Desde a promulgação da

Carta tem-se realisado gradualmente uma revolução na igreja catholica.

Com assombro da gente illustrada e sincera, vimos transformar em dogma

uma superstição dos seculos de trevas, rendoso mealheiro de

franciscanos, tinctura de pelagianismo, aproveitada hoje para aviar

receitas na botica de S. Ignacio, a immaculada conceição de Maria, dogma

que forçadamente conduz ou á ruina do christianismo pela base, tornando

inconcebivel a Redempção, ou á deificação da mulher, á mulher-deus, á

mulher redemptora, recurso tremendo nas mãos do jesuitismo, que,

lisonjeiando a paixão mais energica do sexo fragil, a vaidade, o

converte em instrumento seu para dilacerar e corromper a familia, e pela

familia a sociedade. Depois, ludibrio desses homens de trevas, vemos o

papa, celebrando uma especie de concilio disperso, mandar perguntar

pelas portas dos bispos que tal acham aquelle appendiculo á fé

catholica. Os bispos, pela maior parte, encolhem os hombros ou riem-se,

dizem-lhe que está vistoso, e vão jantar. Depois, os que falam em nome

do pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil, o

sacrifício do Golgotha para a redempção da humanidade, ou dando ao

Christo um adjuncto na sua obra divina, divertem-se em negar no

_Syllabus_ os dogmas, um pouco mais verdadeiros, da civilisação moderna,

e tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que tolerado, nos

dominios do opinativo, a dogma indisputavel, e sanctificado assim uma

opinião peior que ridicula, convidam a sociedade temporal á guerra

civil. É a Companhia de Jesus na sua manifestação mais caracteristica.

Os principios da Carta, como os de todas as constituições analogas, são

condemnados, anathematisados, exterminados _in petto_. É a communa de

Paris, prefigurada em Roma, a arrasar e queimar, em vez de edificios,

todas as conquistas do progresso social, todas as verdades fundamentaes

da philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se então o concilio

parado. É que falta ao _Syllabus_ a sancção divina. Dar-lha-ha a

infallibidade indossada pelo episcopado ao papa ou á sua ordem.

Ajunctam-se não sei quantos bispos, muitos bispos; uns reaes, outros

pintados: agremiam-se; e o papa pergunta ao gremio, em vez de o

perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam a encolher os

hombros ou a rir-se, dizem-lhe que sim, e vão ceiar. O papa infallivel,

que não sabía se era fallivel, fica emfim descançado, e os bispos

ceiados, dormidos e desappressados do _visum est Spiritui Sancto et

nobis_ do concilio apostolico de Jerusalem, transferido definitivamente

para a Casa-professa, voltam a annunciar aos respectivos rebanhos essa

nova correcção das erroneas doutrinas da primitiva igreja.

Taes são os deploraveis e incriveis successos que temos presenciado. O

jesuitismo converte o infeliz Pio IX n'um Liberio ou n'um Honorio,

induzindo-o a subscrever heresias, e a grande maioria dos bispos,

creando na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o arianismo

dominava por toda a parte, e abandonando a maxima sacrosancta da

immutabilidade da fé, tornam-se em arautos e pregoeiros dos desvarios de

Roma. As novidades religiosas vem perturbar as consciencias, e o

marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo de vencida na

igreja catholica. Ninguem vê isto; ninguem sabe disto. É que, em

Portugal, os que ainda crêem em Deus e na divina missão de Jesus, sem

crerem na conceição immaculada nem na infallibilidade do summo

pontifice, pelo seu diminuto numero e pela tibieza que é geral em todas

as crenças, não tem nem força, nem resolução para arrostar com as iras

do beaterio neo-catholico. O governo, esse vê só o Casino, ouve só os

discursos do Casino. Aquillo é que ameaça subverter a religião, a

monarchia e a liberdade. _Dedit abyssus vocem suam_. A voz do abysmo são

aquelles quatro ou cinco mancebos que vão falar de cinco ou seis

questões desconnexas a cem ouvintes, metade dos quaes provavelmente não

entendem a maior parte do que elles dizem, o que tambem é muito possivel

me succedesse a mim.

Isto é simplesmente, macissamente, indisputavelmente ridiculo.

O que é grave em si, e como tendencia, e como symptoma, é a intervenção

da policia preventiva nessa questão: é a policia violando um direito

anterior á lei positiva, o direito da livre manifestação das ideas,

direito exercido por individuos que se apresentam franca e lealmente

adversarios do catholicismo e acceitam sem tergiversar a

responsabilidade e a penalidade que possam corresponder ao seu acto. O

governo parece ignorar que o bom ou mau uso dos direitos absolutos está

acima e além das prevenções da policia. Dizer-se que se respeita a

liberdade do pensamento, sob a condição de não se manifestar, é pueril.

Na manifestação é que reside a liberdade, porque só os actos externos

são objecto do direito, e a liberdade de pensar em voz alta é um direito

originario, contra o abuso do qual não póde haver prevenção, mas

unicamente castigo. Menos essencial é o direito eleitoral ou a garantia

do jury. Traz aquelle não raro violencias, corrupções, tumultos: traz

esta pela indulgencia, ás vezes pela venalidade, frequentemente pelo

temor, audacia nos maus, frequencia nos crimes. A propria religião dá

pretextos ao fanatismo, e o fanatismo tem escripto a sua historia com

lagrymas e sangue na face dos seculos. Pois bem: supprimi o eleitor;

supprimi o jurado; supprimi a religião; supprimi tudo, pelos perigos que

de tudo podem advir. Fique só a prevenção e a policia.

O seu amigo Anthero do Quental podia fazer dez, vinte, cem conferencias

contra o catholicismo, comtanto que não perturbasse a paz publica, e o

governo podia querelar d'elle dez, vinte, cem vezes. Di-lo o artigo

363.° do codigo civil. Não assim a respeito das novidades que tem

alterado a indole da igreja catholica. Aqui não se tracta do modo como

um cidadão exerce um direito inauferivel: tracta-se do modo como

funccionarios publicos, segundo a jurisprudencia recebida, exercem as

suas funcções. Visto que assim se entende a Carta, os prelados

diocesanos e o seu clero são funccionarios, não só porque o poder

temporal lhes dá uma intervenção maior ou menor em assumptos de

competencia civil: são funccionarios publicos no proprio ministerio

sacerdotal; porque, convertida a religião em instituição politica, os

ministros d'ella são agentes e executores da lei constitucional,

justamente na esphera espiritual; absurdo, na verdade, grande, mas

corollario ineluctavel de outro absurdo maior, a interpretação que os

reaccionarios e ainda alguns liberaes dão ao artigo 6.° da Carta.

Eram acaso dogmas em 1826 o immaculatismo e o infallibilismo? Quem

ousaria affirmá-lo? Era em 1826 um dos caracteres essenciaes do

catholicismo a perpetuidade da fé e a sua identidade atravez dos

seculos? Ninguem se atreveria a negá-lo. Os proprios restauradores de

velhos erros, agora convertidos em dogmas, fazem esforços desesperados

para os filiarem nas tradições da igreja. São esplendores do céu que

andavam nublados. Acceitavam-se, porventura, antes dessa epocha as

maximas do _Syllabus_ contradictorias com as leis do reino, com o seu

direito publico? Já notei que nem o proprio absolutismo acceitava

aquellas que o contrariavam quando, dispersas, não se pensava ainda em

compaginar essa especie de mappa estrategico da campanha contra a

civilisação. O absolutismo tinha o _placet_ regio para repellir as

invasões de Roma e os proprios erros de doutrina em que Roma, ou antes

os successores de Pedro, podiam, como elle, não perpetuamente, mas

temporariamente, cahir; e o absolutismo usava amplamente desse recurso.

Era uma praxe sanctificada pelo simples senso commum, pelo direito que

tem todo o dono de casa de examinar as doutrinas que os vizinhos lhe

inculcam á familia. D'ahi derivou a legitimidade da convocação dos

primeiros concilios ecumenicos pelos imperadores romanos.

A historia do _placet_ ou _exequatur_ é por toda a parte rica de

peripecias. Nos ultimos seculos, o rei e o papa eram dons duellistas de

supremo cavalheirismo e esmerada educação. Das mutuas delicadezas, dos

apices de benevolencia não omittiam um só ao encetarem qualquer lucta.

Quasi que sentiam um pelo outro mutua ternura. O rei beijava, cá de

longe, o pé do papa: lá de longe, o papa estendia para o seu filho

predilecto a benção apostolica. A questão, que se iniciava pela recusa

do _placet_, terminava, de ordinario, por ser intimado o nuncio para

sair da corte em vinte e quatro horas, e por ser o paiz posto em

interdicto. Chamava-se então a isto, na phrase dos homens de estado e

dos jurisconsultos, concordia do sacerdocio e do imperio.

A Carta, transformando a religião em instituição politica, manteve

felizmente o beneplacito a que estavam sujeitas sem excepção todas as

letras apostolicas de caracter generico. Digo, felizmente, porque, em

vez de se dar ao artigo 6.° da Carta uma interpretação racional, e que

não esteja em antimonia com as garantias dos cidadãos e com as maximas

mais indubitaveis das sociedades livres, dá-se-lhe, com acceitação

commum, um valor monstruoso e illiberal. Racionalmente, a instituição de

uma religião do Estado n'um paiz livre não póde significar senão uma

homenagem á crença da grande maioria dos cidadãos, homenagem

representada pela manutenção do sacerdocio e do culto a expensas do

Estado, pelo singular privilegio de ser este culto o unico publico, e

pelas demonstrações de respeito para com a religião da sociedade que se

exigem de todos os cidadãos. Ao lado disto, n'um paiz livre, não póde

deixar de ser escrupulosamente mantida a plena liberdade da consciencia,

e removida completamente a mistura dos actos e formulas religiosas com

as phases e com os actos da vida civil em que tal mistura produza

annullação de direitos ou da igualdade de direitos. Com semelhante

garantia, e nesta situação transitoria entre o antigo predominio de uma

crença exclusiva e tyrannica e a distincção precisa entre o estado e a

igreja, que tem de vir a formular-se definitivamente nas sociedades

futuras, as prevenções do § 14.° do artigo 75.° da Carta seriam

excessivas, e até, porventura, desnecessarias. Mas, quando se quer que a

existencia de uma religião do Estado importe para a universalidade dos

cidadãos o dever de se conformarem com os preceitos della em todos

aquelles actos da vida exterior que taes preceitos possam abranger, e se

dá a uma crença religiosa, isto é, a certa norma das relações entre o

homem e Deus, os caracteres e a natureza de uma norma das relações entre

o homem e a sociedade, é obvio que se attribue á religião uma indole

mundana, temporal, derivando unicamente a sua auctoridade e a sua força

coactiva de ser instituição politica, e essa força e auctoridade hão de

manter-se, interpretar-se, applicar-se, circumscrever-se, pelos mesmos

meios e pelo mesmo modo por que se mantem, interpretam, applicam e

circumscrevem as das outras instituições analogas.

Supposta a theoria da coacção religiosa, supprimir na constituição a

doutrina do beneplacito seria absurdo, porque seria impossivel sem ella

impor aos ministros a responsabilidade por tolerarem qualquer infracção

do artigo 6.° da Carta, quando a infracção procedesse de abusos da curia

romana, de excessos do poder espiritual, do mesmo modo que seria

impossivel impor-lha recusando-lhes a inspecção dos actos do clero

official, ainda relativos ás suas funcções puramente sacerdotaes. É

certo que o direito de beneplacito é um dos erros feios anathematisados

no _Syllabus_; mas tambem é certo que no _Syllabus_ está anathematisado

um bom terço dos artigos constitucionaes da Carta.

Tendo, pois, os ministros por dever a manutenção da crença official na

sua integridade, nem mais nem menos, e possuindo os meios que lhes

faculta a constituição para desempenharem esse dever, como é que os

governos d'esta terra tem defendido, em relação ás aggressões do poder

espiritual, a instituição politica da religião do Estado? De um modo,

que, se a responsabilidade ministerial fosse entre nós cousa séria, e

não uma phrase inventada para os ambiciosos em disponibilidade darem

vaias aos ambiciosos em exercicio, receio muito que a maioria dos nossos

ministros, ha vinte e cinco ou trinta annos a esta parte, tivessem

corrido grande risco de severo castigo. Essas loucuras practicadas no

centro da unidade catholica, a que já me referi, reproduzem-se entre

nós. A historia da igreja portuguesa nos ultimos annos é uma

contradicção permanente com a Carta. Altera-se o dogma e busca-se

alterar a disciplina. Nas pastoraes, nos pulpitos, na imprensa

infallibilista inculcam-se novidades no regimen da igreja e novidades de

crença. Os missionarios e uma parte do clero curado repetem ao povo

quantas semsaborias se espriguiçam por essas vastas charnecas das

allocuções que os jesuitas assignam com o pseudonymo de _Pio Nono_. Os

principios que são hoje condições essenciaes da existencia politica da

nação portuguesa apontam-se ao povo ignorante como invenções do diabo.

Missões dos agentes do jesuitismo, umas ineptas, outras astutas,

instillam por toda a parte o veneno do ultra-montanismo extremo, e

corrompem o elemento social, a familia, sobretudo pela fraqueza

mulheril. Vemos bispos que protegem esses agentes, e que os applaudem;

parochos que os acceitam para que elles façam o que, em diverso sentido,

fora dever seu fazer. É uma conspiração permanente, implacavel contra a

sociedade. As resistencias nascidas no seio do proprio clero são

difficilimas, senão impossiveis. O que tentasse levantá-las seria

esmagado. Os antigos institutos monasticos, que pela emulação, e pela

seriedade e profundeza dos seus estudos, se contrapunham ao jesuitismo e

á sua sciencia facciosa e dolosa, desappareceram, e se hoje se

restaurassem entre nós, succederia o que succede quasi por toda a parte:

ir-se-lhes-hia encontrar a roupeta de S. Ignacio debaixo da cogulla

benedictina ou augustiniana. O presbyterado, que é como a burguesia da

igreja, e no seio do qual se encontram já muitos sacerdotes moços, ao

mesmo tempo crentes e illustrados, não tem força para readquirir nos

negocios da sociedade christan o quinhão de influencia que a disciplina

primitiva lhe dava. E, todavia, só uma especie de presbyterianismo

orthodoxo e simplesmente disciplinar tornaria agora possivel dar-se

algum remedio á ruina da igreja; porque talvez esses homens novos

quizessem e soubessem congraçá-la com a sociedade moderna. Infelizmente,

porém, á abdicação dos bispos nas mãos do papa, começada ha seculos e

consummada no nosso tempo, tem correspondido a servidão cada vez mais

profunda dos presbyteros. Ao procedimento do episcopado póde applicar-se

a phrase de Tacito «_omnia serviliter pro dominatione_». Tudo o que

tende a dar a menor sombra de independencia ao clero inferior irrita o

ciume dos prelados. Sirva em Portugal de exemplo a pertinaz resistencia

que se tem feito ás transferencias de parochos sem a intervenção

episcopal. De certo as tradições disciplinares do velho catholicismo não

favorecem essas mudanças; não é, porém, a quebra dos canones que

incommoda os prelados; e, senão, digam se viram já algum delles

indignado de o transferirem para sé mais importante ou mais pingue sem a

intervenção do concilio provincial, embora o consorcio entre o bispo e a

sua igreja não seja menos sério do que o é entre o presbytero e a sua

parochia. O que os magôa é que o simples clerigo possa obter a minima

vantagem sem que propriamente lh'a deva; que não dependa delles sempre e

em tudo. As aspirações desta succursal da Casa-professa a que ainda hoje

se chama igreja docente resumem-se n'uma formula breve: perfeito

absolutismo na jerarchia sacerdotal, tendo por cuspide um summo

sacerdote, como Deus infallivel. Roma homologou, substituindo-o á

constituição da igreja, o instituto da Companhia, porque assim são mais

precisos e pontuaes os movimentos estrategicos do exercito ultramontano

sob o commando do geral dos jesuitas, e o pensamento da assembléa

celebrada em Trento ha trezentos annos tende sempre, com mais ou menos

fortuna, á sua completa realisação. O absolutismo na igreja é como o

prodromo do absolutismo na sociedade civil, sanctificado pelo _Syllabus_

com os anathemas á liberdade. Depois, fundindo-se ambos n'uma ultima

evolução, a sua synthese definitiva seria o poder illimitado e omnimodo

do papa, do pontifice-deus, sobre a existencia interior e exterior,

espiritual e temporal dos povos; seria a monarchia universal, o

despotismo theocratico sonhado pela ambição de Gregorio VII.

Fora necessario estar inteiramente obcecado para não ver que a revolução

que de ha muito se ía preparando no seio do catholicismo, que hoje se

realisa, e cujo termo tem necessariamente de ser fatal para a igreja ou

para a liberdade, se espraia já, onda após onda, entre nós, sem

encontrar resistencia da parte dos poderes publicos, e nem sequer a

resistencia collectiva do partido liberal, que faz travesseiro para

dormir do destino das gerações futuras. Na Allemanha, no paiz da força e

da vida moral, da sciencia e da consciencia, as audacias de Roma

perturbam e concitam os animos, e o velho catholicismo arma-se para o

combate. Nós não pensamos nessas insignificancias: nós elegemos e somos

eleitos. Que importa o resto? _Loco libertatis esse coepit quod eligi

possumus_, dizia Tacito dos romanos corrompidos. Os povos, como os

individuos, assentam-se indifferentes e serenos no atrio da morte quando

lhes chega a quadra fatal do idiotismo senil.

E todavia, a questão é ao mesmo tempo simples e grave.

Tem o governo negado o _exequatur_ aos documentos emanados, a bem dizer,

diariamente da chancellaria apostolica, donde resultam alterações no

dogma e na disciplina da religião official, ou em que são aggredidos os

princípios do actual direito publico português? Tem o governo imposto

aos prelados a obrigação de lhe submetterem as suas pastoraes antes de

serem publicadas, de modo que quaesquer novidades religiosas ou

politicas não sejam propagadas pela auctoridade do alto clero? Tem o

governo advertido este de que os pulpitos dos templos fundados pela

nação, em eras mais ou menos remotas, protegidos pelas leis, e mantidos

á custa do Estado, não podem servir de instrumento para a ruina do mesmo

Estado? Se tem feito isto e não tem sido obedecido, o governo é

responsavel por não haver coagido os seus funccionarios ecclesiasticos a

respeitarem as instituições e as leis do paiz. Se não o tem feito, é réu

de traição contra a Carta. Nenhum parlamento impôs essa

responsabilidade, é certo; nenhum, provavelmente, a imporá. Sei isso, e

sei porquê. Não é, todavia, menos verdade que ha vinte e cinco ou trinta

annos o clero está infringindo a Carta, se o artigo 6.° della significa

o que o mesmo clero e tanta outra gente pretende que signifique. O

bispo, o parocho, o missionario, que propalam doutrinas tendentes a

alterar a religião do paiz, ou que offendam o pacto social, tumultuam.

Esses homens estão em manifesta rebellião, rebellião, não porque

condemnem as instituições em linguagem mais ou menos violenta, o que, se

fossem simples cidadãos, constituiria apenas um delicto commum sujeito á

apreciação dos tribunaes, mas porque aproveitam a força moral que lhes

dá o seu caracter sagrado e a sua condição de funccionarios do Estado

para, ao mesmo tempo, inficionarem com extranhos erros a religião de

nossos paes, que, immutavel, deve _continuar_ a ser a religião official,

e para alluirem pelos fundamentos a monarchia representativa.

É racionalmente possivel semelhante situação? Ha de soffrer-se a

anarchia, porque se agita, não nas ruas e campos, mas sob os doceis

episcopaes, no pulpito e no confessionario? Fizeram-se os governos para

proverem nos grandes perigos sociaes como este, ou para estarem

espreitando ás fisgas das portas se algum mancebo mais ou menos

imprudente, mas sem pensamento reservado, sem compromissos occultos com

conspiradores estrangeiros, expoem as suas opiniões, embora erradas, a

uma assembléa pacifica, pouco numerosa, e pouco attenta, provavelmente,

á substancia do discurso, mas curiosa da belleza da fórma? Pois a

consciencia timorata da policia a escrupulisar de ouvir impiedades e a

pôr, para as cohibir, o bengalão do quadrilheiro no logar das fórmulas

judiciaes é cousa que se tolere? Quando taes enormidades fossem licitas,

não se deveria dar ás exuberancias sinceras da mocidade mais importancia

do que tem realmente. Ha verduras da intelligencia, como ha verduras de

coração. Nas indoles energicas, nos cerebros vastos é que ellas são

maiores. Ha a esperar nessas intelligencias os effeitos do tempo e das

cogitações. Da inepcia ou da hypocrisia é que nada ha a esperar. Quando

as tempestades moraes, as longas e acres tristezas da existencia e os

profundos desenganos do mundo tiverem devastado aquellas almas, não será

raro que se vá encontrar o impio dos vinte cinco annos, lá pela tarde da

vida, assentado ao pé da cruz, a scismar no futuro e em Deus. Não quer

dizer isto que os devotos fervorosos de vinte annos sejam provadamente

hypocritas. A convicção religiosa póde ser mais precoce e mais viva

neste ou naquelle espirito. Todavia, sempre será bom verem se lhes

descobrem debaixo da burjaca piedosamente mal talhada o cabeção de

jesuita.

Mas que ha de fazer o governo? Cumprir o seu dever. Compellir o clero

official a respeitar as doutrinas da Carta, recusar o beneplacito a tudo

que venha de fóra alterar a religião do paiz, a religião como ella era

em 1826, e obstar a que os prelados acceitem e promulguem como dogmas

erros de fé, como direito a quebra dos canones, como doutrina catholica

as blasphemias contra as maximas fundamentaes da sociedade civil. O

governo tem arbitrio para conceder ou negar o _exequatur_ ás decisões

conciliares ou ás letras apostolicas quando não collidirem com a

constituição do reino. As que forem hostis a esta, é obvio que ha de

rejeitá-las, combatê-las, annullá-las. Podem em Roma inventar o que

quizerem, proclamar o que lhes convier, anathematisar o que lhes

parecer. Em Portugal é que nada disso póde ser admittido, se repugnar ás

instituições politicas de que forma parte a religião do Estado. Nas

proprias resoluções synodaes ou pontificias que não se contraponham á

Carta, mas de applicação geral, e que, portanto, hão-de obrigar a

generalidade dos cidadãos nas suas relações religiosas, a simples

acceitação do governo não basta: é necessaria, para terem vigor e

obrigarem, a acceitação do parlamento.

Mas, dir-se-ha, os ministros não são theologos nem canonistas para

aquilatar os actos e doutrinas recentes da igreja ou do seu chefe,

afferindo-os pelas tradições religiosas do paiz. Oh sancta simplicidade!

Os ministros são tudo o que é preciso que sejam para serem ministros.

Ninguem os recruta para isso. Mas ainda ao mais insciente ministro, dado

que as facções não possam dispensá-los de serem profundamente ignorantes

n'estas materias, uma experiencia facil ensinará se o neo-catholicismo é

ou não o mesmo que o catholicismo de nossos paes. Se não é, cumpre

extirpá-lo das regiões officiaes, porque a manutenção do pacto social o

exige. Os reaccionarios que, em nome da Carta, não admittem a minima

tolerancia para as divergencias religiosas que por qualquer modo se

manifestem, devem, por maioria de razão, ser os primeiros a applaudir a

severidade do governo.

E a experiencia é simples. Em encyclicas, em livros, em publicações

periodicas, em pareneses de missionarios são apodadas de erros, de

blasphemias e de heresias grande parte das doutrinas contidas na Carta.

Diante destas aggressões contra os principios liberaes, os ministros

podem talvez esquecer que ha tribunaes e juizes. Se faltam ao que, em

rigor, é dever seu, eu, pelo menos no foro intimo, estou quasi tentado a

perdoar-lhes. A laxidão neste caso confunde-se um tanto com a

tolerancia, e a tolerancia nunca se me affigura demasiada. Bom fora que

ella désse tambem uma volta pelo Casino. O que me parece de mais é que o

governo abandone a defesa moral, aliás tão facil, dos principios que são

hoje o fundamento da sociedade civil. O clero official não póde recusar,

sem previamente resignar as suas funcções, o ser instrumento do governo

nessa modesta e legitima defesa. É obvio que a antiga religião que, pela

Carta, _continuou_ a ser a religião do reino era e é perfeitamente

accorde com aquelles principios. Sem isso, a Carta não seria só absurda;

seria practicamente impossivel. Ou o artigo 6.°, como na praxe se

interpreta, matava o resto, ou o resto matava o artigo 6.° As liberdades

patrias, os direitos e garantias dos cidadãos, o mechanismo do governo

representativo conciliam-se, portanto, com a nossa crença. O pacto

social é a consagração de todo esse conjuncto de instituições. A sua

coexistencia, a sua harmonia são indispensaveis sob o regimen da Carta.

Quando pois, neste paiz, a malevolencia reaccionaria declara a religião

inimiga da sociedade moderna, não se refere á religião de Portugal, e se

o seu intuito é referir-se a ella, calumnía e insulta a crença nacional.

Nesse caso, cumpre que os bispos, os parochos, em summa, todos os

funccionarios ecclesiasticos desaggravem a fé offendida e esclareçam o

povo para que o erro não possa transviá-lo. É para servirem a religião

que a sociedade lhes confere honras, proventos, exempções, auctoridade;

e a unica religião que elles tem de ensinar, servir e defender é a que

coexiste e se harmonisa ha perto de meio seculo com as instituições da

Carta. É o direito e é o dever do governo compelli-los a que o façam. É

necessario exigir delles manifestações positivas, e que os bispos,

parochos e professores publicos de theologia declarem falsas e

subversivas todas as doutrinas, sejam de quem forem, venham donde

vierem, que tenderem a tornar contradictoria a religião do reino com as

condições impreteriveis da sociedade actual estatuidas na Carta.

Que o governo exija isto, e espere o resultado.

Outra experiencia.

Em 1826 a theologia, a historia ecclesiastica, os ritos, os canones

ensinavam-se na universidade, nos seminarios, nos cursos de estudos das

congregações e das ordens monasticas. As dioceses tinham os seus

catecismos, pelos quaes os parochos e mestres educavam a infancia na

doutrina catholica. Os prelados de então acceitavam esses compendios,

expositores e catecismos; ordenavam-nos, até. O ensino, portanto, das

sciencias ecclesiasticas e a doutrinação dos fieis eram necessariamente

conformes com a religião catholica seguida pelo paiz. Atenhamo-nos,

pois, aos catecismos, aos compendios, aos expositores, aos livros, em

summa, por onde se ensinaram as sciencia ecclesiasticas e se educou o

clero e o povo desde o principio deste seculo até a promulgação da

Carta. Declare-se que todas as doutrinas, ou desconhecidas nesses

livros, ou contrarias ás que elles encerram, ou a que se dê uma

interpretaçao ou um valor differentes dos que se lhes davam então, ou

são heterodoxas ou erroneas, quer se refiram ao dogma, quer á moral

religiosa, quer á disciplina. Teremos assim a certeza: primeiro, de que

_continúa_ a ser religião do reino a que d'antes era; em segundo logar,

de que essa é a crença catholica apostolica romana de que fala a Carta.

Os bispos eram então, como o foram sempre, os principaes juizes da fé, e

os papas os chefes visiveis da igreja pela sua primazia. Pio VI ou Pio

VII valiam bem Pio IX. Nunca, porém, nessa epocha Roma lançou sobre nós

sequer uma suspeição de heterodoxia, e fossem quaes fossem as

divergencias entre a curia romana e a igreja portuguesa ou o governo

português em assumptos disciplinares, nunca se proferiu contra nós a

accusação de scisma. Estavamos, pois, pelas nossas tradições e doutrinas

perfeitamente no seio da igreja. Mantendo exclusivamente o dogma

catholico, nem mais, nem menos, como a igreja no-lo ensinou a nós os

velhos, e conservando-nos, em relação á disciplina, onde estavamos,

estamos indubitavelmente no gremio dessa igreja; porque a religião é

immutaveí, a religião não se aperfeiçoa. O criterio supremo do

catholicismo está resumido na celebre maxima: _Quod ubique, quod semper,

quod ab omnibus creditum est_.

Diga o governo isto aos bispos, aos cabidos, ás escholas de theologia e

de canones, aos parochos, aos commissarios de estudos, aos mestres

primarios. Envolva-se no manto da sua ignorancia. O seu criterio é

apenas o do senso-commum. Mantem a religião da Carta, porque lhe não é

licito manter outra sem crime, e conscio da propria incompetencia,

recorre a um meio seguro de não errar. Imponha o ensino de ha cincoenta

ou sessenta annos em materia religiosa, e vigie pelos seus agentes se

alguem exorbita das doutrinas de então e se atraiçoa com o ensino oral o

ensino escripto. O imperante fará nisto não só o papel de mantenedor da

Carta, mas tambem o de bispo externo; fará o mesmo que nos seculos

aureos do christianismo faziam os imperadores romanos com applauso dos

Padres da primitiva igreja.

O tumulto que ha-de alevantar este procedimento, aliás tão simples e

razoavel, sei eu. Verá, meu amigo, o que vai. Verá a reacção a inquietar

na jazida com seus furiosos clamores as cinzas dos nossos mais

veneraveis prelados dos fins do seculo XVIII e dos principios deste

seculo, dos magistrados mais integros, dos professores mais sabios, dos

mais abalisados jurisconsultos e theologos, e até a memoria de algumas

das congregações religiosas que desappareceram, para os accusar de

jansenismo, de gallicanismo, de philosophismo. Verá o que succede ao

clero regular que foi, aos benedictinos, aos augustinianos, aos

oratorianos. Referindo-me á congregação do Oratorio, não falo do pequeno

hereje ruivo, o terrivel padre Pereira de Figueiredo. Esse tem de ha

muito recebido o seu quinhão de anathemas maranathas. Tudo

pedreiros-livres. Os reaccionarios hão-de provar até a evidencia que o

artigo 6.º da Carta não diz o que diz. _Quidquid dixeris, argumentabo_.

Hão-de provar que o verbo _continuar_ significa em rigor _ser

substituido_, substituido o catholicismo da biblia e da tradição, o

catholicismo de nossos maiores, pelo neo-catholicismo, com os seus

dogmas de nova fabrica e materia velha, com as suas maximas

anti-sociaes, com as suas pretensões á restauração do papado como o

concebiam Gregorio VII ou Bonifacio VIII, e com a moral asquerosa dos

casuistas do padre Lainez substituida á do evangelho de Jesu-Christo.

É uma lucta, pois, que eu aconselho ao poder civil? De certo. Os

governos fizeram-se para luctar quando é necessario manter as

instituições do paíz. O direito está da sua parte. Se o artigo 6.° da

Carta tem a significação e a latitude que se lhe dá, é indispensavel que

se dê igual valor e extensão ao § 14.° do artigo 75.° Cumpre que o clero

official venha a uma situação definida e precisa. Ou o _Syllabus_ ou a

Carta. A questão reduz-se a isto.

Mas a acceitação prestada pela maioria dos bispos ás definições _ex

cathedra_ do pontifice? Mas a adopção do _Syllabus_ pelos prelados como

norma de doutrina? Mas as decisões do concilio ecumenico do Vaticano?

Sem debater as condições que a tradição exige para terem valor as

definições pontificias, e se é ou não pueril a moderna distincção _ex

cathedra_ e _non ex cathedra_, inventada para salvar as contradicções

dos papas em materias de fé e de costumes: sem indagar se a adhesão dos

bispos representa sempre a adhesão das respectivas igrejas; sem

finalmente individuar os caracteres que assignalam a ecumenicidade de um

concilio, e até onde obrigam as suas resoluções, quando àcerca destas

não houve, ao menos, a unanimidade moral; evitando, em summa, questões

abstrusas, origem de interminaveis debates, limite-se o governo a exigir

o cumprimento rigoroso do respectivo artigo da Carta interpretado pela

reacção. Que mais querem? Os neo-catholicos constituidos em dignidade,

exercendo funcções publicas, ficam na plena liberdade interior de crerem

o que lhes aprouver: nos actos exteriores hão-de ser catholicos de 1826.

Supponho que a theoria é esta. Collidem as infallibilidades papaes?

Deixá-las collidir. Admittamos que a boa, a de lei, é a de hoje. Os

neo-catholicos estão salvos. Vai para o inferno o Estado quando morrer.

Manda-o para alli a Carta. Cumprir e fazer respeitar as instituições e

as leis é a missão dos ministros; não o é a salvação das almas. Isso

pertencia d'antes á igreja, e pertence hoje, por transacção particular,

á Companhia de Jesus.

Que ninguem se assuste com a immensa e omnipotente auctoridade de um

concilio ecumenico. A primeira condição da sua força é a certeza de sua

ecumenicidade e da liberdade das suas decisões; aliás não passaria de um

conciliabulo; de um _latrocinio d'Epheso_, conforme a phrase dos Padres

de Calcedonia. Ainda, porém, que se dê tal certeza, nem por isso o poder

temporal fica inhibido de negar o seu assenso ás resoluções synodaes.

Figurava de ecumenico o concilio de Trento, e todavia a França recusou

constantemente acceitá-lo, sem distincção de dogma ou de disciplina.

Havia, até, certa affectação nos actos officiaes em chamar _assembléa de

Trento_ ao concilio. Foi infructuoso todo o empenho do clero francez em

fazer admitti-lo, porque as barreiras que lhe oppunham ora os reis, ora

os tribunaes, eram insuperaveis. E nunca a França foi por isso reputada

scismatica, nem os reis _christianissimos_ deixaram de ser os _filhos

primogenitos da igreja_. Era simples a explicação da repulsa. Muitas das

resoluções disciplinares do concilio repugnavam aos principios e ás leis

que a sociedade temporal reputava uteis ou necessarias á sua existencia.

Acceitando o concilio, a sociedade feria-se ou suicidava-se. Era contra

o direito natural. Á cautela, repellia tudo, porque nas deliberações do

concilio nem sempre era facil discriminar o doutrinal do disciplinar.

Nenhum perigo havia naquella rejeição absoluta. Se o concilio não fizera

senão confirmar a doutrina catholica derivada das suas duas unicas

fontes, a Escriptura e a tradição constante e universal da igreja, a

França lá seguia essa doutrina desde remotissimos tempos. Se, porém, o

concilio inventara novos dogmas, ou alterara em qualquer cousa a antiga

crença, deixava de ser concilio, e rejeitando-o _in totum_, a França

separava-se tanto da igreja universal, como se, por um acto solemne,

rejeitasse a Confissão de Augsburgo.

Mas--perguntar-me-ha--póde razoavelmente esperar-se que haja um desses

governos a que estamos habituados, com energia e vontade sufficientes

para emprehender commettimento de tal ordem? Deve fazer-se neste ponto

uma distincção essencial. Hoje, sem duvida, do gremio de qualquer das

facções que disputam entre si a ponta da corda que vai arrastando para

futuro incerto o corpo enfermo do Estado, não devemos esperar que sáia

um governo capaz de reduzir o debate entre o liberalismo e a reacção a

estes simples termos. Todas ellas dependem, até certo ponto, do cura na

questão eleitoral, questão suprema e talvez unica das facções, instincto

de vida que é desculpavel. Ora o cura é o _servus a mandatis_ do bispo,

como o bispo é o _servus a mandatis_ do papa, ou para falar com mais

exacção, do geral da Companhia. Depois, ha aqui, alli, não se sabe bem

onde, o jesuita; o jesuita, que se encontra e sente, sem se ver, em toda

a parte, desde os paços até a taberna; o jesuita, que veste gentilmente

a farda bordada ou a farda lisa, a casaca ou o paletot, a béca, a loba,

preta, roxa, encarnada, ou a grosseira jaqueta do operario; o jesuita,

que, se cumpre, é mais impio que Voltaire, ou mais fanatico do que Pedro

de Arbués e Torquemada; que é absolutista, democrata, socialista,

communista, se a ordem de S. Ignacio interessa com isso; que seria, até,

liberal, daquelles celebres liberaes do _Syllabus_, se hypothese tão

abominavel fosse admissivel. Ora o jesuita póde vigiar a urna, morigerar

a urna, penitenciar a urna. É pois necessario ao homem d'estado (talvez

conheça o typo nacional da especie) manter-se em certa altura de tacto

politico para não adivinhar o jesuita, para não crer na existencia do

jesuita, dessa singular invenção de certos visionarios. Precisa a patria

de que a jerarchia ecclesiastica e a congregação não venham, irritadas,

oppor o seu voto, a sua preponderancia, ás benevolencias da urna.

Eis porque é impossivel, por emquanto, travar sériamente a lucta em chão

firme. Deixe gritar contra a reacção. Puro formulario. Bem como a

responsabilidade ministerial, o epitheto de reaccionario não significa

nada, na linguagem dos homens d'estado. É um extracto do vocabulario

politico, que a facção decahida mette impreterivelmente na algibeira,

quando desce das regiões do poder, para apupar e injuriar cá da rua os

de outra facção que para lá subiram. De resto, amor e respeito omnimodo

e universal á congregação. Se algum dia, porém, a gymnastica das

ambições deixar de ser o espectaculo mais divertido destes reinos e

passar de moda, ha uma reflexão gravissima a que antes de tudo tem de

attender-se. N'um paiz, onde, por ignorancia do clero inferior e má-fé

ou desleixo dos prelados, as maiorias incultas crêem nas bruxas, nos

feitiços, nas mulheres de virtude, nas almas penadas, na permutação de

milagres por ex-votos de cera, e onde, falando geralmente, as minorias

intelligentes e instruidas buscam estonteiar-se, supprimir uma voz

interior que fala de Deus, com a indifferença ou com o scepticismo, o

clero, jesuita ou não-jesuita, ha-de forçosamente exercer certa

influencia, que, por mais que elle se desconsidere ou o desconsiderem,

não será facil destruir. Para combater essa influencia, quando nociva, a

incredulidade superciliosa não é a melhor das armas, porque a

incredulidade é a negação de uma tendencia natural do homem, a

religiosidade; é o espirito violando-se a si proprio. As multidões não

podem ser, não serão nunca incredulas. Onde e quando lhes faltar a boa

doutrina, seguirão a má. Nas almas incultas a precisão da crença ha-de

sempre satisfazer-se. Por uma lei psychologica, o crer tenaz suppre

nellas o crer reflexivo das intelligencias privilegiadas. Não tem arte,

nem sciencia para oblitterar em si uma condição humana, o aspirar, com

maior ou menor ardor, ao infinito, ao immortal. Se deixardes sair de

todo pela porta o catholicismo christão, entrar-vos-ha pela janella o

que ainda cá falta do moderno catholicismo do beaterio, com os seus

intuitos dissolventes, com as suas extravagancias dogmaticas da

immaculidade e da infallibilidade, e com as blasphemias sociaes do

_Syllabus_.

Mas, radicalmente, a questão não é nem com os governos de hoje, nem com

os homens de hoje. Na escripturação da primeira entre as companhias

commerciaes do mundo, a Companhia de Jesus, nós os velhos, e ainda uma

ou duas gerações dos que tem nascido depois de nós, fomos já levados,

como perda redonda, como valores incobraveis, ao livro de conta de

ganhos e perdas. Do que se tracta sériamente nas especulações da

Casa-professa é da infancia; daquelles que hão-de receber as primeiras

impressões moraes e religiosas de mães filiadas nas associações de

diversos feitios e nomes, sob qualquer das epigraphes da mulher-deus, da

mulher redemptora. Decorridos mais alguns annos, os symptomas do mal

serão cada vez mais visiveis. Então a imminencia do perigo ha-de coagir

os homens novos a tractarem de pôr sérias barreiras a esse immenso lavor

subterraneo que tende a converter a Europa, sobretudo a Europa latina,

n'uma como vasta copia das Missões do Paraguay. Se, pois, esta carta

sair das suas mãos, é aos homens de quinze até vinte e cinco annos, cuja

educação o jesuitismo, aninhado entre os affagos maternos, não tenha já

viciado, que as precedentes idéas poderão, porventura, aproveitar. Deixo

por isso á apreciação de v. s.ª a conveniencia ou inconveniencia

absolutas de as tornar conhecidas, bem como a opportunidade ou

inopportunidade dellas. Nem ambiciono, nem temo que as minhas opiniões,

neste como em qualquer outro assumpto, sejam sabidas. Ao cabo da

existencia, os applausos ou as censuras do mundo fazem mediocre

impressão em quem está costumado a reflectir. Ou a nossa memoria se

desvanece nos longes indecisos do progressivo esquecimento, ou são

outros os juizes que hão-de definitivamente sentencear-nos; juizes

suspeitos quando julgarem as questões de opinião ou de interesse da sua

epocha, imparciaes e incorruptiveis quando julgarem as cousas e os

homens do nosso tempo.

[Nota de rodapé 4: Joan. Major, In 3.um Sent. Dist. 37, Quest. 16, apud

Launoium, Oper. vol. I, p. 78. É, expressa por outra fórma, a doutrina

constante da igreja, tão admiravelmente resumida por Vicente de Lerins:

«Christi ecclesia, sedula et cauta depositorum apud se *dogmatum*

custos, nihil in iis unquam permutat, nihil *minuit*, nihil *addit*.

_Commonitorium_ c. 32.]

[Nota de rodapé 5: Emquanto ecumenico.]

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 77 / 87 题