THEATRO-MORAL-CENSURA

*1841*

Quando, vencidas difficuldades que pareciam insuperaveis, o theatro

parece renascer entre nós na sua parte litteraria; quando, até, se

affiguram grandes probabilidades de vermos alevantar um edifício

consagrado á arte dramatica, onde este genero de litteratura possa ficar

a salvo daquella especie de ergastulo hediondo e triste a que poseram

por irrisão a alcunha do Theatro Normal; Gerião, cuja ossada se

esphacela debaixo da sua triplice face de taberna, de emunctorio das

ruas, e de prostibulo; quando todos os homens de letras e todos os que

as amam forcejam para que nesta formosa arte vamos algum dia emparelhar

com as outras nações, nenhuma questão que venha a suscitar-se acerca do

assumpto será insignificante ou indifferente, porque nella interessam a

vida intellectual do paiz, a sua civilisação e o seu bom nome

litterario. Mas se essa questão, além de importar á arte dramatica,

envolver o interesse da moral publica, considerá-la e dar opinião sobre

ella é obrigação daquelles a quem Deus deu intelligencia para a

comprehender e razão para a avaliar. Ora, enquanto se forceja para

elevar e restaurar litteraria e até materialmente o theatro nacional,

vemos o drama decahir, prostituir-se moralmente cada vez mais. Cresce

todos os dias a indignação da gente honrada contra os espectaculos que

sobem á scena, orgias da arte, se arte se pode chamar a quadros onde ha,

não o sublime de paixões mais ou menos perversas, o sublime do horrível,

mas o torpe, o asqueroso dos vicios mais vis. Cumpre que a imprensa seja

orgam desta indignação; que busque a origem e o remedio do mal. A sua

mais alta missão é contribuir para que a sociedade se melhore e

civilise, e o theatro pode ser um poderoso instrumento de civilisação.

Mas como desempenhará a imprensa este grave dever? Como se opporá a que

o theatro seja uma eschola de corrupção, devendo ser um logar de puro e

innocente deleite? Como fará rasgar por uma vez esses cartazes, que,

affixados nos logares públicos, só trazem á memoria, pelos titulos dos

dramas que annunciam, as taboletas dos alcouces romanos desenterrados em

Pompeia? Fulminará os desgraçados histriões, machinas de aleijar as

verdadeiras obras d'arte, e de peiorar semsaborias; títeres de carne e

osso, incapazes de comprehenderem a sua nobre arte, e de resistirem ao

estragado gosto de quem os dirige, e não sei se diga, ao mais estragado

da plateia? Não: deixae-os; porque são existencias inertes, impalpaveis

para a imprensa, traça do drama, da linguagem, do senso commum; pagos

para roer as concepções da intelligencia sobre quatro taboas velhas, ao

passo que o caruncho os vai imitando na substancia destas. Deixae-os,

pelo amor de Deus! Punirá com o açoute do epigramma os empresarios e

directores dos theatros? Ainda menos. Um empresario é um individuo

inexplicavel e inclassificavel: é uma abstracção de todas as idéas, de

todas as crenças, de todos os affectos: a sua éthica é o _livro de

razão_, o seu evangelho o da _caixa_; o seu culto o da _cruz_, mas da

cruz dos cruzados novos; o seu destino, além do sepulchro, o _limbo_.

Não acrediteis na possibilidade de os constranger a despregarem os olhos

destes tres objectos, que, junctos aos farrapos dos bastidores e ao oleo

fétido das lanternas do proscenio, constituem o seu universo. Deixae-os

tambem; que para elles, que não querem, nem sabem, nem podem ler, a

imprensa é como se não existisse, e as suas reprehensões mais amargas,

as suas ironias mais pungentes não os distrahirão um momento da

contemplação beatifica das moedas que rende em cada noite um

estabelecimento industrial de prostituição para familias honestas. Seja

quem for o empresario de qualquer theatro, não se abalance a imprensa ao

louco empenho de convertê-lo. Que pessoa tentou jamais educar e instruir

um surdo-mudo-cego de nascimento?

Contra quem pois alevantará a imprensa a sua voz solemne? Contra as

auctoridades propostas aos espectaculos dramaticos? Não; porque posto

que revestidas de um poder arbitrario, acima dellas ha tambem o

arbitrio, que lhes inutilisa a energia moral, quando tentam usar della a

bem da decencia publica; e porque, impossibilitadas de julgar por si

essa alluvião de asquerosidades que diariamente sobem á scena, e além

disso obrigadas por lei a ouvir sobre cada uma dellas o parecer de tres

censores, que podem julgar bem ou mal, não se lhes ha de lançar em conta

uma culpa que não é sua. Nenhum homem de alguma gravidade se quizera

submetter a passar dias, mezes e annos inteiros quasi asphyxiado n'uma

atmosphera de sandices, pelos mais avultados proveitos do mundo, e muito

menos gratuitamente, como servem os inspectores do theatro.

Quem resta por tanto para accusar? Os censores?--Parece-me ouvir a

muitos daquelles que acham mais commodo invectivar individuos do que

avaliar instituições, dizerem que sim. Eu todavia respondo:--Não; mil

vezes não! Brevemente se verão os fundamentos da minha negativa.

Não sendo, porém, culpados nem os histriões, nem os bufarinheiros de

rosalgar moral chamados empresarios, nem os inspectores, nem os

censores, onde estará a causa de um mal de que todos se queixam, e a que

ninguem busca o remedio nos thesouros inexgotaveis da reflexão e do

raciocinio?

Essa causa está n'uma instituição anachronica, absurda, insensata,

attentatoria da liberdade intellectual do engenho humano, e além disso,

perfeitissimamente inutil.

O mal não vem dos homens: vem das cousas: vem de uma parvoice legal: vem

da _censura prévia_.

O remedio só lh'o póde dar um parlamento que queira pensar cinco minutos

nesta materia.

Á luz politica, a censura prévia applicada ao theatro é um attentado tão

flagrante como applicada á imprensa. Todas as constituições existentes e

possiveis consagram a liberdade do pensamento e a livre communicação das

idéas. O theatro é, como a imprensa, como as artes plásticas, um meio de

communicação. Uma representação scenica é um livro impresso em tantos

exemplares quantos são os espectadores, com a unica differença de que

estes exemplares se apagam acabada a sua leitura. O principio da

liberdade do espirito é tanto ou mais sancto que o da liberdade da

terra: não soffre excepções, porque, se as soffresse, desceria da

categoria de principio para a classe das regras transitorias da vida

civil. Onde quer que appareça a censura, onde quer que se aninhe esta

irmã gémea da inquisição, ha uma quebra nos foros da independencia do

homem, ha uma insolencia do passado contra a dignidade social da geração

presente. Seja para o que for, a censura é um impossivel politico.

Contra o impossivel não ha razões de utilidade. As mais evidentes

considerações de conveniencia deveriam cahir diante da immutabilidade

dos principios; porque não ha meio termo entre o renegar do progresso

humano, e o respeitar sempre e em toda a parte os elementos fundamentaes

das sociedades modernas.

Mas existem, porventura, taes conveniencias? A censura do theatro--dizem

os defensores dessa cópula sacrilega e bestial de uma instituição

cadaver com as instituições vivas e actuaes--é uma necessidade: melhor é

prevenir que castigar: o castigo dos que abusarem deste modo de

publicação não impedirá que elle tenha já produzido a corrupção: sem

censura póde, até, attentar-se contra a segurança do Estado: no anno de

tal em Paris, em Bruxellas, na Haya, emfim não sei onde, um drama

recheiado de maximas subversivas produziu tal assuada, tal motim, tal

revolta.--Eis as excellentes razões, pouco mais ou menos, com que se

defende a existencia de um absurdo.

Estes argumentos são a apologia, não da censura do theatro, mas de toda

a censura; da censura do drama, como do livro ou do jornal; e ainda mais

destes; porque o exemplar da publicação scenica deixa de existir apenas

cahe o panno; mas do livro ou do jornal impressos, embora sequestreis os

volumes ou os numeros não vendidos, os exemplares derramados do primeiro

golpe lá ficam no dominio publico; milhares de individuos os lerão, e

com tanto maior avidez quanto mais severa houver sido contra elles a

condemnação dos tribunaes.

A desculpa da prevenção nos attentados legaes contra os principios vai

mais longe: vai até a inquisição, se quizermos ser logicos. Um homem é

conhecido por suas opiniões anti-religiosas: este homem é imprudente,

voluntarioso, ousado: nada mais facil, mais provavel que o vermo-lo

cahir na culpa de não respeitar a crença do Estado, de a insultar

publicamente. Á cautella, creae-me uma inquisiçãosinha illustrada; uma

inquisição progressiva, arejada, sem polés, nem potros, mas preventiva e

paternal, onde o incredulo, entre sermões, pão negro arraçoado e agua

benta, seja inhibido de commetter um crime, previsto na lei politica do

mesmo modo que o abuso da liberdade de escrever e de falar. Apostolos da

censura prévia, em nome da logica, dae-me a sancta inquisição.

Deixemos, todavia, as duas bagatellas dos principios e da logica.

Venhamos ao campo da experiencia. A censura ahi está. Que tem ella

feito, não digo já entre nós, que palpamos todos os dias os bellos

effeitos da instituição; mas na França, na Belgica, na Hespanha? Onde

tem impedido a prevaricação do theatro? Respondei-me.

É um dos argumentos mais triviaes e mais lastimosos que se fazem a favor

desta monstruosidade inutilissima o exemplo da França. D'antes, em

Portugal, para fazer uma lei, o que se indagava era se ella convinha ao

paiz. Ha annos a esta parte entendemos que era mais judicioso ver se

convinha aos outros povos. Esta abnegação completa da intelligencia

nacional poderá conduzir-nos ao céu pelo caminho da humildade; mas

tem-nos arrastado cá na terra a muita vergonha legal.

A verdade é que em França os homens independentes e illustrados clamam

tambem contra a censura prévia do theatro, porque é attentatoria e

inutil. Quereis a prova da sua inutilidade no vosso paiz modelo?--Ahi a

tendes á mão. D'onde nos vieram as _Torres de Nesle_, as _Proesas de

Richelieu_, e todas as mais prostituições litterarias da nossa pocilga

dramatica, chamada theatro normal? Vieram-nos dos repertorios dos

theatros de Paris: atravessaram pela censura de Mr. Taylor ou dos seus

delegados, como em Portugal passaram sans e escorreitas pela censura do

Conservatorio. Lá, como cá, a censura é um phantasma de que todos se

riem, e que só serve para descarregar os hombros dos empresarios,

auctores, e traductores dramaticos da responsabilidade moral e legal dos

seus envenenamentos litterarios.

É realmente uma das pequices mais desmarcadas falarem-nos das commoções

populares excitadas n'uma plateia. Quando a revolução vai assentar-se

nos bancos do theatro, não busqueis a sua origem nas palavras energicas

do poeta: buscae-a na frouxidão ou na maldade do poder. Sob um governo

forte e justo, uma revolução no theatro não passaria de comedia

representada áquem do proscenio. Mas, além disso, onde achaes os

exemplos de semelhantes factos? Justamente em alguns dos paizes onde

existe censura prévia. Como o capitão de Luiz de Camões, que não cabia

em nada, sancta gente, vós não cahis em que esse argumento é uma

punhalada na vossa querida censura?

Donde vem a impotencia da censura? De ser uma cousa anachronica, morta,

fétida, inintelligivel. Ao censor que respeita a inviolabilidade dos

principios repugna o impedir a representação de um drama; porque não crê

que o seu arbitrio possa substituir os jurados; que se possa executar

uma lei evidentemente contraria á lei fundamental do estado. Pelo que,

porém, toca ao que não crê nessas cousas, o aborrecimento inevitavel que

lhe traz o desempenho de um dever tedioso, de que não tira nem honra nem

proveito, ou o receio de attrahir odios de homens mais ou menos

poderosos, para o que não são triviaes entre nós o valor e a

consciencia, faz com que ou deixe de ler, ou leia essas miserias e as

approve. Se algum ha que não reflectisse no absurdo da instituição, e

que tenha energia bastante para lhes pôr o seu veto censorio, lá ficam

os empenhos e os respeitos humanos para fazerem escrever no rotulo do

boião immundo de peçonha litteraria: _passe e venda-se por dóses de 480

réis_.

É este o fado de todas as leis, de todas as instituições contradictorias

com as idéas e principios capitaes de qualquer seculo. São cadaveres, em

que a força legal opera os phenomenos que produz no corpo morto a pilha

voltaica; visagens de terror para os circumstantes, falsos movimentos de

vida, mas que todos sabem não passarem de joguetes de physica.

Fazei uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nação,

com os principios eternos da liberdade intellectual, e salvareis a moral

e a decencia publica, que a vossa ridicula censura deixa todos os dias

impunemente affrontar.

Constitui um jurado especial composto dos membros das corporações

litterarias, homens que tem uma intelligencia para pensar, uma reputação

de probidade, de litteratura, e de gravidade que perder. Ahi tendes um

avultado numero de individuos respeitaveis na Academia das Sciencias, na

Eschola Polytechnica, na Eschola Medico-cirurgica, na Eschola do

Exercito, no Conservatorio e em todos os mais estabelecimentos

litterarios. Confiae-lhes a defensão da moralidade. Os espiritos fracos,

mas honestos, ahi julgarão sem temor; porque a sua sentença será

collectivamente sabida, mas individualmente secreta. Ahi, quando a

occasião do julgamento legal chegar, a causa já estará julgada e

sentenciada pela opinião publica, e esta opinião fará tremer os juizes,

se porventura entre elles houver algum de mais larga consciencia, ou que

seja capaz de esquecer-se, por affeição ou por odio, da sua grave e

importante missão.

Fazei que o processo seja rapido. Haja um procurador especial contra os

delictos dramaticos em offensa da moral publica. Seja o inspector dos

theatros; seja quem vos parecer. Se faltar á sua obrigação, puni-o.

A penalidade da lei seja severa. Por mais severa que a imaginemos, será

sempre branda em comparação da que cabe ao ladrão matador; e eu não sei

resolver qual besta-fera é mais damninha, se um assassino do corpo, se

um envenenador do espirito, que assassina as almas inexpertas das

mulheres e da mocidade, surripiando-lhes ainda em cima alguns cruzados

novos.

Desenganae-vos de que as formulas constitucionaes são mais efficazes que

as molas carunchosas do absolutismo.

Ficae certos de que os jurados não terão de vibrar o golpe da punição

mais do que uma vez. O primeiro empresario que, sem remedio, tiver de ir

dormir por um anno aos paços de S. Martinho, e de practicar a

generosidade de mandar algumas dezenas de moedas para o Asylo de

Mendicidade, ou para a Casa dos Expostos, tirará a todos os empresarios,

presentes e futuros, o fino gosto de offerecerem no theatro ao publico

indignado espectaculos que affrontariam um alcouce.

Que a censura prévia é inutil, os factos tem-no sobejamente provado.

Se-lo-ha uma lei constitucional? Não o creio. Se assim acontecesse, a

nação portuguesa não fora uma sociedade corrompida; fora uma nação

perdida. Nesse caso cumpriria deixar á Providencia de Deus convertê-la

ou anniquilá-la.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 56 / 87 题