XVIII

Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens

das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?

Dir-to-hei, oh povo, para que nos futuros momentos de afflicção não

digas ao Eterno:--Senhor, salva-me, porque eu não soube o que fiz!

Odio de sete seculos te separa desses futuros senhores: vinte batalhas,

em que os teus cavalleiros venceram os seus, jazem não vingadas nas suas

recordações.

Houve tempo em que elles poseram o pé no collo de nossos maiores, e a

vida destes foi durante esse periodo tecida de amargura e de infamia.

Então, além do oceano, nos campos de tua gloria, sentia-se um ruido

incessante. Eram as tuas fortalezas que desabavam; eram as tuas naus que

se affundiam; era o teu poder que expirava.

Nas veigas, o arado ficava esquecido no meio do sulco, e no prado e no

monte os novilhos mugiam debalde pelo seu guardador:

Porque os mancebos eram levados a combater em paizes remotos, para

sustentar a tyrannia de seus senhores, e, novo genero de ludibrio,

tambem oppressos, quinhoavam as maldicções lançadas sobre os oppressores

da sua patria.

Á viuva e ao orphão era arrebatado o obolo do tributo, e este ia

accumular-se nos cofres dos extranhos e servir, depois, ao luxo e á

devassidão.

O soldado hespanhol estava em pé, encostado á lança, juncto ás ameias de

nossos castellos, e o escravo português que passava ao sopé dos muros

pregava os olhos no chão, e a dor acabrunhava-lhe o espirito.

As cidades foram saqueiadas, os patibulos ergueram-se, os homens de

valor e virtude derramaram-se pela face da terra.

Mas os portugueses lembraram-se um dia de que o eram, e levantando os

braços para o céu, com os grilhões que lh'os roxeiavam esmagaram os

craneos dos oppressores estrangeiros.

E breve os campos da Hespanha talados, as suas aldeias arrasadas, os

seus valentes postos á espada, pagaram injurias de sessenta annos.

E na terra adubada com cinzas e sangue se lançaram sementes de

malevolencia perpetua entre as duas nações.

Ai de nós, ai da patria, se o leão da Iberia podesse rugir solto pelas

nossas montanhas, e vir acoutar-se debaixo de nossos tectos!

E isto é o que pretendem os destruidores da liberdade, os suscitadores

da anarchia.

Saúde pois o povo os tribunos e obedeça-lhes, emquanto elles não

consumam a sua abominavel obra; emquanto o não entregam, como um rebanho

de ovelhas, nas mãos dos seus futuros algozes.

Nós, os que não nascemos para a servidão, ergueremos as campas de nossos

paes, e ricos com estes restos queridos, iremos depositá-los debaixo do

cypreste do desterro.

Não, o hespanhol orgulhoso não calcará as cinzas dos nossos valentes,

embora possua esta terra corrupta e serva; embora venha riscar da face

della todos os monumentos dos seculos da nossa gloria.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 51 / 87 题