O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.
Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de
pequena aldeia alvejavam certa manhã ao despontar o sol.
E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os
cimos dos pinhaes agitados pela viração matutina.
A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado,
como o vulto da esperança erguido sobre a lousa do sepulchro.
E os habitantes pacificos do valle não sabiam que as tempestades
politicas trovejavam além das suas montanhas.
Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular
fulminou-lhes a destruição.
Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os
primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.
E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha
visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste
mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.
Os velhos morriam abraçados aos troncos dos carvalhos e castanheiros,
seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de
seis gerações inteiras.
Os moços cahiam combatendo pela salvação dos paes, das esposas e dos
filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca
feroz.
Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra
os assassinos; porque as desgraçadas não sabiam que a religião tinha
fugido desta terra dos crimes.
Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza
dos filhos da dissolução.
E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se tão
somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de
cinzas.