IV

Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o

seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos

alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com

quem combateram.

Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as

lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não

tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.

E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua

jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o

perpetuo somno do repouso.

E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia

extremo.

Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó

que lhes emprestara a terra.

Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros

pediam a punição do opprobrio.

O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua

Providencia.

V

Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão

formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.

As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas

nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou,

descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.

E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o

tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos

tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o

triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens

valentes.

Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do

nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o

humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e

as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como

a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e

supportavamos a sede.

Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil

soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A

chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros

mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu

sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao

redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para

alimentar a fogueira do arraial.

E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um

lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os

membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia

infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

Gloria a Deus!--Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os

antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.

Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram

que o seu sangue fôra derramado em vão.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 15 / 87 题