INTRODUCÇÃO

1867

Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos

que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que

intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra.

Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O

auctor da _Voz do Propheta_ pertence a esse numero. Contava vinte e seis

annos naquelle tempo.

O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então.

O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem

esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente

calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro;

o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por

dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo

regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições,

mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das

proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que

a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos,

apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a

abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da

indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera

que em muitas cousas offuscava a razão. A _Voz do Propheta_ representa

esse estado dos espiritos.

Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica,

inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se

comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás

prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da

mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos

_interesses materiaes_ acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o

egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas

um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos

mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos

historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a

strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição

ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na

substancia e na fórma, a _Voz do Propheta_ é, sem duvida, uma composição

agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como

amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros

representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir

esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos

costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de

barbaros.

Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo

tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres

politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças.

Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica;

mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com

sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo.

Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em

1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos

primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de

constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se

perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte

delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora

daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou,

não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica

a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a

que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes.

Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram.

Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e

transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar

a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções

indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o

bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia

ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o

adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os

direitos, isso é que se tornara difficil.

Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta,

vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A

revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos

violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia

produzir males profundos e em parte irremediaveis.

Esta scisão, logo depois da victoria, era difficil de explicar fóra de

Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel.

A harmonia de opiniões, a unidade de crenças e intuitos dos vencedores

dissipava-se, porque realmente não existia senão nas suas relações

negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo.

As apparencias de união e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A

phalange é e será sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e

materialmente. Embora, porém, houvesse diversidade de doutrinas, o que

havia mais era contraposição de interesses. Para as primeiras se

manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra

oral e escripta, e a discussão parlamentar. Aos segundos, dada a

impetuosidade e impaciencia da ambição humana, sobretudo nas raças

latinas, não bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao

tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

Quem a preparou e fez surgir? Não sei. Ostensivamente, os seus auctores

foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os

amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas

mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle féto

político. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; senão

todos, ao menos alguns. Fugir, porém, á responsabilidade de uma

situação, que aliás se busca fortalecer e constituir, é indirectamente

condemná-la; é dizer _não_ com a consciencia; _sim_ com os labios. A

sentença daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por

convertê-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente

é que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de

vivos, estão já moralmente mortos.

E o governo de então estava-o. Por grandes que os seus serviços ao paiz

houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria não o

abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem até desmesuradamente o

exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o

ruido das armas, os lamentos destes não se ouviam; mas quando o estrondo

cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em

invectivas colericas, e tambem em accusações não raro ou justificadas ou

plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se

conquistado não só contra os defensores da censura e do absolutismo, mas

tambem para elles. Nas expansões da sua dor e do seu despeito, no pouco

ou muito que essas expansões contribuiram para o descredito dos homens

que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasião de

reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a

salvação eterna, póde, em tal ou tal circumstancia, não ser

absolutamente má.

Os depositarios do poder executivo tinham, porém, adversarios mais

perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes não

vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para

affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou

finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado

extranhos á guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou

acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia.

Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens

de valia de quem o Duque de Bragança se rodeiara quando emprehendia a

guerra da restauração, não tinham feito senão medrar e azedar-se

progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam

pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha

tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se

haviam conservado como extranhos á lucta em que se lhes conquistava uma

patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e

venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou

menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade

podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito

constitucional, era, até certo ponto, bem fundada e util.

Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas difíiculdades,

souberam superá-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de

alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro:

a capacidade e a firmeza não podiam disputar-se a nenhum delles.

Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel

emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes

esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na

praxe da administração, as duas idéas oppostas, de paiz libertado e de

paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam

gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores ás

proprias forças e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da

riqueza publica por larguezas, não só desacertadas, mas tambem

juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado á posteridade

nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambições

materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como

_condottieri_ mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e

voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para

exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico

titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras

liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A

grande, a séria, a profunda revolução que se fizera no meio do estrondo

das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da corôa, com as

capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos

_officios_, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes

meritos reaes, muitas mais vezes, porém, prostituições e villanias. Mas

as funcções publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando não

raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justiça e

cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por

impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com

que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar,

e um dos maiores defeitos da sua indole ainda tão imperfeita,

engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a

parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do

que antinomia de doutrinas.

Foi por isso que a revolta de septembro, se não achou eccho pelo paiz,

também não achou nelle repugnancia manifesta, e pôde na capital

constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que não tinha em si.

A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos

acontecimentos, talvez, até o tedio e cansaço de aggressões continuas,

haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os

inhabeis para séria resistencia, emquanto os seus adversarios

aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de

ambições até ahi não satisfeitas.

Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz

fazer surgir daquelle estado anormal uma situação regular viram que a

primeira necessidade era elevar o motim á altura de uma revolução.

Faltava o assumpto. O derribar um ministerio não o subministra. Basta

para isso a acção mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da

liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes

recursos não sabe tirar os seus negocios das mãos de quem lh'os gere

mal, é um povo ou que ainda não chegou á maioridade ou que já se arrasta

na senilidade. Urgiam, porém, as circumstancias. Á falta de outra cousa,

proclamou-se irreflexivamente a constituição de 1822 com as modificações

que decretassem as futuras constituintes.

Tinha-se, pois, feito uma revolução para obter um projecto, um texto de

discussão constitucional? Se o intuito dos amotinados fôra só derribar

os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto

illegitimo e criminoso; se porém o motim, nobilitado em revolução, tinha

por alvo alterar as instituições, não menos digno de reprovação se

tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo

da propria reforma, processo aliás prudente, regular, exequivel. Partir

da constituição de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias

se podiam chamar, de instituições talvez impossiveis sempre, mas de

certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes

instituições se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos,

era mais que insensato. A revolução, reconhecendo a necessidade de

reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

Parece-me que me não engano se disser que, em geral, aos liberaes mais

illustrados e sinceros a nova situação politica repugnava altamente.

Ponderavam que a mudança das instituições politicas de qualquer paiz por

via de uma revolução é sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que

mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades á

sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revoluções como elemento de

progresso, é certo que ellas são um meio extremo. Só, talvez, a

necessidade de combater o despotismo as justifique, porque só debaixo de

tal regimen são impossiveis quaesquer outras manifestações da opinião

publica, e não existe campo diverso onde a lucta do direito contra a

força, das idéas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836

essas manifestações não tinham porém obstaculo algum, e o campo onde as

doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos

digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revolução

fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a

legitimidade?

Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige

unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as

suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em

todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da

Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos

profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide

de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do

_Sanctiago!_ de Affonso I, do _S. Jorge!_ do Mestre d'Aviz. Nas

reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam

ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte,

quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre

o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta

se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho

da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os

foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do

desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella

polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das

tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses

dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos,

mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações

novas.

A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor

das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia

e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares

e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente

mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no

sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser

absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e

espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania

emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de

liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A

denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia

rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á

sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo

que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista

não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a

mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram

em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o

anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios;

nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas

de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores

reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das

turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da

democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que

outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições

republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as

modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos,

talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a

distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo

consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das

instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas

pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era

fluctuante e vago.

É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão

testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas

fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos

ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns

destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve

crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás

suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia

logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á

moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se,

por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões,

sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que

tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem

moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que

se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou

n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica

então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.

Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o

septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta,

outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era

uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a

constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração

das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria

as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em

novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do

progresso politico.

Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles

successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não

sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo

parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas

da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou

rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos

ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando

alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes,

buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque

ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis,

ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era

precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas

tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os

animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até

Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco

annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do

despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na

visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso

quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas

chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os

olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes

preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade

maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e

de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e

agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco

sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco

annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com

ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam.

Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:

Divisum imperium cum _plebe_ Caesar habet.

As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de

constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella

entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra

legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as

extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter

inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a

soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende,

julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino

reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso.

Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á

prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o

confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes

nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o

sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario

urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas

as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita

igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças

do amplexo das duas soberanias.

O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a

democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha

do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo

administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do

liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de

direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de

1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos

ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a

heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de

positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.

O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de

então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a

Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de

garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a

torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a

corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel

nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou

de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio

voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.--«Não se

reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma

familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota,

que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador

restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e

virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar

existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam,

aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social,

os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á

parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás

forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que

serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o

plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes

inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo

com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que

a servidão lhes trouxera?

Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixões tempestuosas

de então fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo são dous

cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da _Voz do

Propheta_ contempla tão placidameute o seu opusculo como se mão extranha

o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir

daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos

erros, quantas ignorancias em muitas das suas opiniões desse tempo! E

todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu berço lhe

parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia

solidas e justas. É innegavel que o credo democratico, em que os

adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos

sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania

popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito

absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fóros individuaes. Isso

passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma

liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa

theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas,

indestructiveis. A paixão da liberdade esmorece, porque a absorve e

transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixão da

democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha

mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira

consequencia, a annullação do individuo diante do estado, manifestada

por uma das duas formulas, o despotismo das multidões, ou o despotismo

dos cesares do plebiscito.

O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordações, a

consistencia politica, os bons principios que representava, e,

sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os

seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe começou no berço. O seu

primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela

gerencia dos negocios em situações difficilimas, tinham concitado contra

si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadversão publica,

talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direcção

politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua

administração não podessem defender-se, porque esses actos eram bem

pequeno desconto aos immensos serviços que a liberdade lhes devia.

Tomá-los, porém, por guias era acceitar uma parte da sua

responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da

fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritação das paixões e

os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e

cheio de vida, que só deveriam inspirar a razão tranquilla e a

applicação logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram

as tentativas infelizes de contra-revolução. Essas tentativas não podiam

reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como

formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente

illogicas em relação á índole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado,

o governo da revolução mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com

as opiniões e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista

podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o

paiz; victoria para os principios, e não desaggravo para as paixões

irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido

na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo

viu triumphar em grande parte as suas idéas na contextura da

constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos

estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnação

solemne da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da

influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto á

indole da Carta era a organisação da segunda camara, e todavia o

cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro

reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisação de

um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo

pariato hereditario e illimitado, nem a assembléa conservadora

significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de

parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleição,

logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria

completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o

predominio do cartismo era indubitavel.

O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado

pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, não era tanto a sua

indole menos democratica, o seu apego á liberdade e aos direitos

individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opiniões,

erradas opiniões, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que

constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a

lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando

a dá no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto

materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a

revolução. Não o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua

duração, protestando na lei politica decretada pelas constituintes

contra a propria origem, contra a sua razão de ser. A constituição de

1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e

procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opiniões.

E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que tão

tenazmente haviam mantido a fé que deviam ao seu juramento, jurarem

solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo

das revoluções terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas,

de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas forças vivas da

sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer

que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro

pertenciam-lhe.

Um facto inopinado veio então desbaratar todos os calculos, desmentir

todas as previsões. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido,

cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execração das

revoluções no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira

revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do

que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento,

derribava a constituição do estado e proclamava o restabelecimento da

Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a

achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado.

É que á victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor

proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da

vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da

revolução.

Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os

vocabulos são propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho

direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e

veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem

ao nada. Symbolos vãos sobre um sepulchro. Para a historia, como a

historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixões dos que

intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a

restauração da Carta.

[Nota de rodapé 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5.° de caçadores

e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que

precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 9 / 87 题