«Acabouse de emprimir a presente obra na muyto nobre e leal cidade de

Lixboa por Germão Galharde empremidor. Ao primeiro dia do mez de

Dezembro de 1537 annos.»

«Regimento da altura do polo ao meo dia.»

«§ Se o sol tem declinação pera o norte e as sombras vão pera o norte;

saberemos pello estrelabio ao meo dia que he na mayor altura quantos

graos ha de nós ao sol: e acrecentaremos a declinação d'aquelle dia: e o

que somar será o que estamos apartados da linha equinocial para o norte.

«§ Mas se o sol tem declinação pera o norte e as sombras vão pera o sul:

saberemos pello estrelabio quanto ha de nós ao sol: e pelo regimento a

declinação: e se forem iguais estaremos na equinocial. E se forem

desiguais: tiraremos o menor numero do mayor, porque o que ficar, isso

estaremos apartados da equinocial: e será pera o norte se a declinação

era mayor: e será pera o sul se a declinação era menor.

«§ A mesma regra nos serve tendo ho sol declinação pera o sul, porque se

as sombras vão para o sul ajuntaremos o que ha de nós ao sol com a

declinação: e o que somar isso estaremos apartado da equinocial pera o

sul.

«§ Mas se o sol tem declinação pera o sul e as sombras vão ao norte: se

o que ha de nós ao sol for igual á declinação, estaremos na equinocial.

E se forem desiguais tiraremos o menor numero do mayor: e o que ficar

será o que ao tal tempo estaremos apartados da equinocial: e será pera o

sul se a declinação for mayor e será pera o norte se a declinação for

menor.

«§ E quando não houver declinação: ho que ouver de nós ao sol, isso

estaremos apartados da equinocial; e será pera onde forem as sombras.

«§ E em todo tempo que o sol pello estrelabio estiver em noventa graos:

o que elle tiver de declinação, isso mesmo estaremos apartados da

equinocial e pera a mesma parte.»

[14] D. João de Castro, _Roteiro de Lisboa a Goa_, pag. 308.

[15] Quando escolhi para assumpto d'esta conferencia «A arte de navegar

dos Portuguezes», não foi minha intenção embrenhar-me em explanações

scientificas ou controversias criticas, mas apenas fazer uma rapida

exposição historica; nem outra cousa consentiam tanto a indole de taes

palestras como a orientação dos meus estudos habituaes.

Succedeu, porém, quatro dias antes da conferencia, que, indo eu á

Bibliotheca Nacional para rever alguns livros, pelo sr. Gabriel Pereira,

sabio director d'aquelle estabelecimento, me foram mostrados os volumes

recentemente chegados da magnifica publicação feita a expensas do

governo italiano, por occasião do centenario de Colombo, intitulada

_Raccolta di documenti e studi publicati dalla R. Commissione Colombiana

pel quarto centenario della scoperta dell'America_.

O volume I da parte IV d'essa collecção consta de um estudo do sr.

Enrico Alberto d'Albertis, com o titulo _Le costruzione navali e l'arte

della navigazione al tempo de Cristoforo Colombo_; e no volume II vem um

trabalho do sr. Timoteo Bertelli denominado _La declinazione magnetica e

la sua variazione nello spazio scoperte da Cristoforo Colombo_.

Percorrendo este ultimo trabalho rapidamente, pois para mais não tive

tempo, vi que elle se propunha effectivamente demonstrar ter sido

Christovam Colombo o _primeiro que descobriu o phenomeno da variação da

agulha_, como aliás é lição quasi geral. Ora, entre a grande copia de

argumentos do sr. Bertelli, apparece o de que muitos auctores

contemporaneos e posteriores a Colombo ignoravam o phenomeno, e no

numero d'esses cita-se o nome do portuguez Pedro Nunes!!

Ao ler isto, ao ver citada a obra do nosso grande mathematico d'onde o

auctor tirava tal conclusão, confesso que pasmei. E o pasmo redobrou,

quando adiante, pag. 50, no cap. X, intitulado _Prospetto degli autori i

quali dal medio evo sino a tutto il secolo XVI suppozero l'ago diretto

al polo, cioé senza declinazione_, vi novamente incluido Pedro Nunes (_o

Nonnio_), citando-se d'elle _Opera omniae, Basilea, 1566_, com a

aggravante de se dizer em nota que a primeira edição portugueza é de

_1536_ (_sic_).

Pois não conhecia a declinação da agulha o Pedro Nunes que até inventou

um instrumento especial para a sua determinação, o qual elle descreve no

conhecido trecho que começa: «Acerca do nordestear e noroestear da

agulha _tenho por certo que ellas não demandam_ o polo, porque não vi

agulha que n'esta terra não nordesteasse»?

É extraordinario isto!

Mas afinal não deve talvez causar admiração, se nos lembrarmos que o

auctor da memoria não viu ou não entendeu a obra, que cita, de Pedro

Nunes. E não admiraremos tambem que a não visse, sendo ella rara, se não

viu nem ouviu fallar da maior parte dos numerosos trabalhos dos

Portuguezes sobre a arte de navegar. Basta dizer-se que lhe são

desconhecidos os _Roteiros_ de D. João de Castro, incluindo o ultimo

publicado, em 1882, com as annotações de Andrade Corvo, no qual tantas

vezes se trata da questão das agulhas, e se inclue em appendice um

excellente trabalho sobre as _Linhas isogonicas no seculo XVI_. Pois o

nome de D. João do Castro não é ignorado na Italia, pelo menos do estado

maior do seu exercito, que estudou o _Roteiro do Mar Roxo_, como outras

obras portuguezas, algumas das quaes traduziu, por causa da occupação de

territorios em Massuá e Dalaque.

Ora, sem entrar em polemica, direi apenas, ampliando as palavras que

proferi na conferencia:

1.^o Que antes de Colombo partir para a sua primeira viagem, já os

Portuguezes navegavam havia muitos annos entre a metropole e os Açores,

isto é, n'uma distancia de cerca de vinte gráos em longitude, e por isso

teriam tido occasião de observar a differença em variação;

2.^o Que as palavras _nordestear_ e _noroestear_ são de feição

essencialmente portugueza, e ainda usadas pelos nossos pilotos no seculo

actual, pelo menos até ha trinta annos;

3.^o Que Christovam Colombo, empregando-as no seu diario, não lhes

explica o sentido, o que seria natural que fizesse, se ellas, como o

phenomeno que significavam, fossem pela primeira vez communicadas;

4.^o Que nas famosas expressões de Colombo, relativas ao dia 13 de

setembro de 1492, não se encontra mostra alguma de espanto pelo facto da

variação da agulha, mas sim por ella mudar de signal;

5.^o Que, por conseguinte, o que Colombo viu, foi apenas que a variação

ou declinação, a qual até um certo meridiano era n'um quadrante, d'esse

meridiano em diante passava a ser n'outro.

E não era preciso saír da _Raccolta_ para chegar a este mesmo resultado,

porquanto o sr. Alberto de Albertis, no cap. V da outra memoria acima

citada, põe em rubrica: «Prima osservazione _del passagio della

declinazione_ dell'ago magnetico _da greco a maestro_», deitando assim

por terra, com estas palavras, todo o magestoso edificio do sr.

Bertelli.

E ainda depois de ter escripto a conferencia, chegou ás minhas mãos o

numero de fevereiro do corrente anno da excellente _Rivista marittima_

italiana, e n'ella encontrei um magnifico estudo do sr. Eugenio Gelcich,

intitulado _La scienza nautica da Nonnio alla fine dei secolo decimo

settimo_, no qual (pag. 187) se censura um escriptor inglez porque

«imputava a Nonnio la ignoranza della existenza della declinazione

magnetica», e aponta-se em seguida um capitulo de Pedro Nunes em que se

trata do assumpto.

Vê-se que o que escrevem o sr. Bertelli e outros, é resultado de uma

errada orientação, que mal se justifica pelo patriotismo. A Italia teve

excellentes mareantes nos seus Amalfitanos, Pisanos, Genovezes e

Venezianos, que verdadeiramente ensinaram as outras nações em muitas

partes da marinharia; a Hespanha não os teve menos excellentes nos seus

Catalães e Malhorquinos. Mas nem um nem outro d'esses povos se

abalançaram a devassar os segredos do Atlantico antes dos Portuguezes.

Vem depois Colombo que aprendeu em Portugal; e a Italia, envaidecida de

lhe ter dado o berço, e a Hespanha gloriosa de lhe ter aproveitado os

trabalhos, cada qual disputa a quem melhor lho exaltará os meritos,

louvando-o pelo que fez e pelo que não fez, e pondo no escuro a obra dos

navegadores portuguezes.

É isto que a critica scientifica não consente.

[16] Veja-se _Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa_, 9.^a serie,

pag. 315 e seguintes: _Trabalhos nauticos dos Portuguezes nos seculos

XVI e XVII_, pelo sr. Sousa Viterbo.

[17] Era o magnifico _fac-simile_ pertencente á Sociedade de Geographia

de Lisboa.

[18] Tambem não deveriam esquecer os nomes e as obras dos fabricantes de

cartas, globos e instrumentos nauticos, que os houve habilissimos nos

seculos XVI e XVII em Portugal. D'este assumpto se occupa o erudito

investigador, o sr. Sousa Viterbo, em um estudo que deve ser publicado

no numero do _Instituto_, de Coimbra, destinado a commemorar o

Centenario do Infante.

[19] Diogo de Couto, _Dialogo do soldado pratico portuguez_, pag. 9.

[20] Como exemplo do modo por que se redigiam entre nós os _diarios

nauticos_ nos seculos anteriores, copiaremos dois dias de navegação, em

que não houve _novidades_ extraordinarias, com o intervallo de dois

seculos.

«Caminho»

«Quinta feira 25 dabril (de 1538) todo o dia foi o vento norte;

gouernamos ao sul: ao meio dia tomei o sol, e na maior altura se

aleuantaua sobre o orizonte 84 graos; a declinação deste dia era 16

graos, 20 minutos, do que se segue estarmos em dez graos e 1/6; esta

mesma altura tomou o Piloto, mas o mestre tomou maes 1/3 de grao do sol

ao orizonte.

«De noite toda foi o vento norte bonança; o quarto da prima e modorra

gouernamos ao sul, e o dalua á mea partida do susueste.»

(D. João de Castro, _Roteiro de Lisboa a Goa_, pag. 115.)

«_Em 24 do dito_ (agosto de 1736)»

«Sexta feira; quatro dias de viagem; se apartou (a nao) adiante e foi

seguindo sua viagem. Ao meio dia se observou o sol, e achamo-nos em

Latitude de 38 gr. e 43 m., e de Longitude 6 gr. e 16 m.; fez a nao

curso pelo angulo 63 g., andou para o Norte 23 m. e para Oeste 37 m.,

com vento nordeste rijo. Deus nos dê boa viagem.»

(_Derrota de uma esquadra portugueza em 1736_, MS. da Bibliotheca

Nacional. Collecção Pombalina, n.^o 149.)

[21] Stockler, _Ensaio historico sobre a origem e progresso das

mathematicas em Portugal_, pag. 69.

[22] O primeiro nome notavel da nova sciencia de navegação é o de José

Militão da Marta, piloto da armada e professor de pilotagem, o qual

publicou diversas obras importantes, sendo a primeira logo em 1780, a

qual se intitula _Compendio das correcções que se devem fazer ás alturas

dos astros_, e a segunda, em 1781, intitulada _O destro observador ou

methodo facil de saber a latitude no mar_.

[23] _Commentarios_, edição de 1784, parte IV, pag. 122.

O Infante D. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes · 第 3 / 3 段