Para provar que o astrolabio bem depressa se aperfeiçoou ent

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COMMEMORAÇÃO DO CENTENARIO HENRIQUINO

O INFANTE D. HENRIQUE

E

A ARTE DE NAVEGAR DOS PORTUGUEZES

CONFERENCIA FEITA EM 19 DE FEVEREIRO DE 1894

NO

CLUB MILITAR NAVAL

POR

VICENTE M. M. C. ALMEIDA D'EÇA

CAPITÃO-TENENTE DA ARMADA, LENTE DA ESCOLA NAVAL

SEGUNDA EDIÇÃO

REVISTA E AUGMENTADA COM ALGUMAS NOTAS

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1894

O INFANTE D. HENRIQUE

E

A ARTE DE NAVEGAR DOS PORTUGUEZES

COMMEMORAÇÃO DO CENTENARIO HENRIQUINO

O INFANTE D. HENRIQUE

E

A ARTE DE NAVEGAR DOS PORTUGUEZES

CONFERENCIA FEITA EM 19 DE FEVEREIRO DE 1894

NO

CLUB MILITAR NAVAL

POR

VICENTE M. M. C. ALMEIDA D'EÇA

CAPITÃO-TENENTE DA ARMADA, LENTE DA ESCOLA NAVAL

SEGUNDA EDIÇÃO

REVISTA E AUGMENTADA COM ALGUMAS NOTAS

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1894

[Figura]

Vês aqui a grande machina do Mundo,

Etherea, e elemental, que fabricada

Assi foi do saber alto, e profundo,

Que é sem principio e meta limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo, e sua superficie tão limada,

He Deos; mas o que he Deos ninguem o entende

Que a tanto o engenho humano não se estende.

Camões _Lusiadas_, _X_, LXXX.

_Á memoria gloriosa do Infante Dom Henrique_

«_Oo tu principe pouco menos que devinal! Eu rogo a as tuas sagradas

vertudes, que ellas soportem com toda paciencia o ffalecimento de minha

ousada pena, querendo tentar h[~u]a tam alta materya como é a declaraçom

de tuas vertuosas obras, dignas de tanta glorya, cuja eternal duraçom,

sob proveitosa fim, alevantará a tua fama com grande honra de tua

memorya_.»

Azurara, _Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné_, cap. II.

SENHORES E PRESADOS CONSOCIOS:

O Club Militar Naval, querendo solemnisar a celebração do quinto

centenario do nascimento do Infante D. Henrique, o inclito iniciador das

navegações e descobrimentos dos Portuguezes, entendeu que o melhor meio

de commemorar essa tão gloriosa data, era reunir em algumas noites os

seus associados para ouvirem uma serie de conferencias ou leituras sobre

os assumptos mais importantes referentes ao Infante, ou que com elle e a

sua obra tivessem relação; e para realisar essas conferencias dignou-se

convidar diversos dos seus socios.

Honrosa, mas difficil incumbencia! Honrosa, porque, se é um dever de

bons patriotas celebrar, sempre que a proposito venha, as glorias

nacionaes, é uma honra que não póde recusar-se, o ser escolhido para

porta-voz d'essa celebração; difficil, porque tendo de se fallar diante

de uma assembléa de technicos e de sabedores, quasi se torna impossivel

dizer-lhes cousas que não saibam, resumir-lhes estudos que não conheçam,

suscitar-lhes idéas que já não tenham.

Mas, senhores, a «disciplina militar prestante», de que falla o nosso

epico, e que na marinha portugueza é a tradição nunca desmentida da sua

obediencia, manda-nos embarcar n'esta viagem, e não ha que replicar.

Cada um de nós dirá o que sabe e como sabe, certo de que a tabella da

vossa cortezia _corrigirá os desvios_ da nossa insufficiencia. E nenhum

de certo carece de maior _correcção_ do que eu, a quem, sem que para

isso tivesse merecimento, coube determinar o _ponto de partida_ e fazer

o primeiro quarto, o _quarto de prima_, como se dizia na linguagem da

antiga marinharia portugueza.

Larguemos, pois.

* * * * *

Os louvores do Infante D. Henrique e a apreciação dos actos que lhe

valeram o cognome de _Navegador_, occupam grandissimo espaço na

litteratura patria e estrangeira. Desde a _Chronica_ de Azurara até aos

_Filhos de D. João I_ do sr. Oliveira Martins, é longa a lista dos

escriptores que se têem occupado do Infante. Só modernamente, porém, é

que se póde dizer fixada a determinação do seu valor, resaltando da téla

da historia com tanta mais nitidez quanto é sabido que, nos ultimos

tempos, criticos de certa escola cuidaram ver no quadro sombras e

manchas, a que deram exagerado vulto; o que veiu a redundar em maior

esclarecimento dos serviços prestados á patria pelo glorioso Infante.

Sem nos deixarmos, pois, offuscar por este sentimento de solidariedade

que aos da nossa classe, melhor que a nenhuns outros, permitte apreciar

os trabalhos do mar, podemos certamente distinguir na vida do Infante D.

Henrique duas ordens principaes de factos: os que se referem ao membro

da familia reinante de Portugal, filho, irmão e tio de reis, e os que

dizem respeito ao promotor das navegações.

Serão os factos da primeira especie menos brilhantes do que se deveria

desejar? Haverá que apontar erros de entendimento ou de vontade, da

parte do Infante, no desastre de Tanger ou nas intrigas de Alfarrobeira?

Não cuido que isto não seja ainda materia para muita discussão. Mas o

que certamente o não é, aquillo sobre que me parece não restar duvida, é

a influencia do Infante nos destinos da nação navegadora, é a sua

iniciativa enorme e absolutamente pessoal no commettimento dos «mares

nunca d'antes navegados». Quer a escola critica, á qual ha pouco me

referi, que D. Henrique devesse a um irmão, o celebre infante D. Pedro,

notavel pelas suas viagens na Europa, a possibilidade de alcançar

conhecimentos cosmographicos e geographicos que de outra fórma não teria

obtido, e sem os quaes nada poderia ter feito. Não duvido, antes o dou

por provavel, se não como certo. Mas póde isto desfazer alguma cousa na

concepção que se tem formado do Infante D. Henrique, como espirito

coordenador d'essas informações e do tantas outras que por varios lados

colligiu, director perseverante de todos os emprehendimentos e indicador

seguro e consciente do caminho a seguir? Tambem o architecto não levanta

por si só o edificio,--antes precisa da coadjuvação de muitos homens

desde o humilde cabouqueiro ate ao estatuario insigne,--e comtudo é a

elle que cabe a honra e primazia da construcção.

Das duas faces que offerece a historia do Infante D. Henrique, a que diz

respeito ás navegações é, pois, a luminosa, e com tanta intensidade que

deixa bem no escuro a outra, e de todo a faz esquecer. É por ella que o

glorioso Infante é conhecido na historia, é essa que hoje celebrâmos com

enthusiasmo de Portuguezes e de marinheiros.

Vejamos as suas mais salientes feições.

* * * * *

Quando, em 1415, o Infante D. Henrique regressou da conquista de Ceuta,

o theatro do mundo physico certamente apresentava ao seu espirito uma

scena de grande confusão: por um lado o que se suppunha ser a sciencia

positiva geographica do tempo; por outro as lendas que quasi tinham

fóros de verdades; por outro ainda os absurdos que a um espirito

esclarecido se patenteavam, resultantes do combate entre essas lendas e

as probabilidades de certeza.

Eram conhecidas ao tempo com mais ou menos exactidão, e com bastante

imperfeição desenhadas nos portulanos: todas as terras da Europa com as

ilhas proximas e os mares que as banham; a costa septentrional da África

a começar no Cabo Não sobre o Atlantico e d'ahi até ás bôcas do Nilo:

para o interior d'essa costa um tanto de terras até aos desertos; a

Palestina, a Syria, a Asia Menor, alguma cousa a um e outro lado do

Caucaso e pouco mais. No resto da Asia sabia-se da existencia de varias

terras, mas só vagamente se lhes marcavam as situações. Da Africa, para

o sul do Cabo Não, diziam-se cousas contradictorias. A America

sonhava-se porventura na lenda da Antilia. A Australia nem se sonhava.

Ainda havia vagas indicações, ligadas a lendas, ácerca de diversas ilhas

espalhadas pelo Atlantico. E tudo isto se figurava, para o vulgo pelo

menos, em uma terra plana, porque a esphericidade do planeta teria como

consequencia a existencia dos antipodas, o que se reputava absurdo.

E as lendas pullulavam, avultando entre ellas a do Mar Tenebroso, a do

Equador inhabitavel e a do Preste João. Dizia-se por um lado: não se

póde navegar muito para longe das costas que o Atlantico banha, porque a

breve trecho se encontra a região das trevas perpetuas, onde o sol se

apaga no occaso, povoada de ferozes monstros marinhos, agitada por

medonhos e constantes temporaes, promptos a desfazer o fragil baixel que

ousasse lá chegar; essa lenda vinha da antiguidade, e foi porventura

preconisada pelos Arabes, que assim se desculpariam de não terem

continuado nas suas navegações para o occidente. Por outro lado

affirmava-se: é certo haver gentes para alem da linha equinoxional; mas

n'esta e nas regiões que se lhe avizinham, os raios do sol incidem com

tal força que tornam impossivel ali a vida humana, e impossivel,

portanto, a communicação dos povos da Europa com os que habitam alem do

Equador. E, contava-se ainda, ha bem longe da Europa, e d'ella separado

por terras de infieis, o reino de um principe christão--o Preste João

das Indias;--e anceiava-se por travar relações com esse irmão em

crenças.

Tudo isto ouvia e sabia o Infante D. Henrique; de tudo isto se occupou

provavelmente nas conversas que teve com os mercadores de Ceuta; d'estes

e de outros problemas tratou naturalmente com seu irmão D. Pedro, o

grande viajante por terra; e tudo excitava a sua curiosidade.

O desejo de saber é o grande incentivo do progresso das sciencias. Mas

n'aquelle tempo o quadro da especulação scientifica estava ainda

imperfeitamente traçado, e mais do que esse desejo imperava de ordinario

o espirito pratico do proveito material. Haveria proveito em resolver

aquelles problemas geographicos? De certo. Se se descobrissem novas

terras, ellas seriam occupadas por gente portugueza, quando fossem

deshabitadas; seriam conquistadas, se pertencessem a infieis.

Vislumbravam-se já productos ricos d'essas regiões, e d'ahi fontes de

commercio remunerador. Por ultimo, mas não em derradeiro logar para as

idéas da epocha, haveria mouros a converter, pagãos a trazer ao gremio

da verdadeira religião, almas a conquistar para a fé christã.

Por tudo isto foi o Infante D. Henrique estabelecer-se no Algarve e

designadamente em Sagres, ponta avançada sobre o Oceano, a quem parecia

espreitar os segredos, e d'ali começou a lançar a vasta rede dos seus

commettimentos, cujas ultimas malhas nem elle sabia ao certo onde iriam

ter. Rodeou-se de homens experientes nas varias partes da marinharia,

pilotos do Porto frequentadores da carreira de Flandres, marinheiros

algarvios habituados á pesca do alto, mestres da construcção de naus nas

tercenas de Lisboa, homens de Malhorca sabedores de astrologia e

desenhadores de portulanos, porventura até mouros de Ceuta e de outras

terras de Marrocos. De todos precisava, para de todos aproveitar o que

sabiam, e melhorar consoante fosse necessario. Tal foi a chamada escola

de Sagres, não um instituto de sciencias navaes, mas um convivio de

conhecimentos diversos, em que todos eram a um tempo mestres e alumnos.

Ahi se discutiram os problemas geographicos, e se traçaram os caminhos a

tentar; lá se melhorou o instrumento para dominar o mar, passando se da

_barca_ e do _barinel_, ainda hoje problematicos, á _caravella_

portugueza, o typo do navio dos descobrimentos no seculo XV; ali se

corrigiram os portulanos, e se aperfeiçoou o seu uso para a navegação,

quando mesmo não seja exacto que lá se inventassem as cartas planas[1].

Relativamente á propria essencia do problema geographico, dois seriam os

pontos principaes a resolver: quaes eram as terras para o sul do Cabo

Não; se havia terras para o occidente das costas da Europa.

Ainda hoje é lição quasi geral que o descobrimento de Porto Santo e o

das primeiras ilhas dos Açores foram devidos ao acaso. É sempre uma

tempestade que leva um navegador, de regresso da costa de Africa, a

encontrar-se fortuitamente com aquellas ilhas. Mas, pensando bem,

parece-me evidente que os descobridores de Porto Santo, das Formigas e

Santa Maria realisaram esses commettimentos porque a isso foram mandados

pelo Infante D. Henrique. Pois não havia já vislumbres da existencia

d'aquellas terras? E o Infante, conhecedor da lenda do Mar Tenebroso,

não teria a peito destruil-a, por não acreditar n'ella, como não

acreditava na do Equador inhabitavel?

Temos, pois, que o Infante D. Henrique procurou determinar a

configuração exacta da Africa para alem do ponto onde ella era

conhecida, e procurou ainda reconhecer as terras que existissem para o

occidente. Estes eram, a bem dizer, os meios. Os fins eram: a acquisição

de novos territorios para a Ordem de Christo, da qual o Infante era o

Mestre, e consequentemente para Portugal; o desenvolvimento do commercio

maritimo; a conquista de almas para a christandade.

Iria mais longe o ideal do Infante? Pensaria já na esphericidade da

terra, no caminho por mar para a India, no aniquilamento do poder de

Veneza, na espantosa grandeza do nome portuguez? É licito suppol-o. Em

todo o caso foi da sua obra que resultaram todas essas consequencias,

foi da sua iniciativa que saíu toda a vida externa de Portugal nos

seculos XV e XVI, foi por ella que a Europa veiu a saber como era feito

o mundo, e que o mundo veiu a conhecer-se todo. E quando, morto o

Infante em 1460, se tinha chegado na costa de Africa ás proximidades da

Serra Leoa, e no Atlantico se tinham descoberto os archipelagos dos

Açores, Madeira e Cabo Verde, os successores do Navegador não tiveram

mais do que persistir no systema por elle adoptado, para chegarem por um

lado Bartholomeu Dias ao Tormentoso e Vasco da Gama á India, pelo outro

Colombo á America e Magalhães ás ilhas do Pacifico.

Resumindo: o Infante D. Henrique iniciou e deu o grande impulso ao

extraordinario movimento geographico do seculo XV; graças aos seus

esforços tornou possivel o conhecimento do mundo, até então em grande

parte velado aos olhos dos homens da Europa; pessoal e directamente

dirigiu o descobrimento da extensa porção da costa africana e das ilhas

que povoam o Atlantico septentrional; por esta fórma desenvolveu a arte

de navegar e a construcção naval; abriu novos horisontes ao commercio

portuguez; deu logar á manifestação do espirito colonisador dos nossos

antepassados; augmentou o poder da Ordem de Christo; alargou o ambito da

religião do Crucificado; n'uma palavra poz a pedra fundamental no

edificio do Portugal maritimo.

Tal foi a obra portentosa que o Infante D. Henrique realisou.

* * * * *

Vasta é hoje, senhores, e complicada a sciencia do homem do mar. Quem

sabe a serie de disciplinas que ao presente se exigem aos officiaes de

marinha, os longos e aturados estudos de mathematicas e sciencias

physicas que para ellas são preparatorios, mal poderá imaginar a

simplicidade e rudeza dos conhecimentos de que dispunham os primeiros

navegadores. Procurando cumprir o programma que deliniei, vou tentar

resumir o muito que a este respeito haveria a dizer.

A historia dos diversos passos dados pelos Portuguezes na _arte de

navegar_ durante o periodo em que elles primaram na carreira dos mares,

póde, parece-me, dividir-se em tres principaes capitulos, que marcam

outros tantos progressos.

O primeiro mostra a adopção das cartas planas, pondo-se de parte as

geographicas. O segundo apresenta a invenção do astrolabio ou o seu

aperfeiçoamento, e com elle a determinação da latitude pela altura do

sol. O terceiro inclue a descoberta da variação da agulha e as

tentativas para por meio da sua determinação achar a longitude. Se a

isto accrescentarmos a descoberta do phenomeno dos ventos regulares e

das monções, as primeiras investigações feitas sobre as correntes

maritimas ou _rilheiros_, como lhes chama D. João de Castro, e ainda

sobre outros assumptos, facil é de ver que todas as maravilhas da

physica do mar e todos os problemas da navegação foram primordialmente

tocados pelos mareantes portuguezes. Se lhes faltou a determinação das

longitudes pela comparação das horas, prova-se por muitas passagens dos

auctores que elles não ignoravam a theoria, mas apenas careciam do

instrumento que podesse medir o tempo com a necessaria exactidão; e de

todos é bem sabido que essa delicadeza de construcção só muito

modernamente foi attingida nos chronometros, que aliás são instrumentos

sujeitos á influencia de diversas circumstancias perturbadoras.

* * * * *

Sem remontar aos tempos anteriores á era dos descobrimentos, direi

apenas qual era o estado dos conhecimentos nauticos na epocha do Infante

D. Henrique.

Azurara, citando as invectivas do Infante contra as hesitações dos

primeiros navegantes mandados a descobrir, falla nas opiniões de «quatro

mareantes, os quaes, como são tirados da carreira de Flandres ou de

outros alguns pontos para que commummente navegam, não sabem mais ter

_agulha nem carta de marear_»[2]. Com estas breves palavras fixou

Azurara o estado dos conhecimentos de navegação no começo dos

descobrimentos. E mais de um seculo depois João de Barros escrevia: «No

tempo em que o Infante D. Henrique começou o descobrimento da Guiné,

toda a navegação dos mareantes era ao longo da costa, _levando-a sempre

por rumo_; da qual tinham suas noticias por signaes de que faziam

_roteiros_, como ainda ao presente usam em alguma maneira, e para

aquelle modo de descobrir isto bastava»[3].

Vê-se, pois, que a navegação dispunha de dois instrumentos apenas--a

_agulha_ e a _carta de marear_.

Da primeira tem sido até hoje baldado esforço dos investigadores

determinar a verdadeira origem e data de invenção. Basta que saibamos

que ella era geralmente conhecida na Europa na segunda metade da idade

media e pelo menos desde o seculo XII. Quanto ás cartas, reproducção

graphica do contorno das terras e da situação dos logares, se a idéa

d'este artificio veiu, como é certo, desde a antiguidade classica, foi

tambem só na segunda metade da idade média que ella se desenvolveu,

quando os estados mareantes do Mediterraneo recomeçaram as navegações.

Foram principalmente os Catalães e os Malhorquinos que a esse, como a

muitos outros ramos das sciencias navaes, deram impulso; ácerca d'este

assumpto póde dizer-se que o nosso visconde de Santarem, nos seus

grandiosos trabalhos sobre a prioridade dos descobrimentos dos

Portuguezes, quasi esgotou a materia.

Mas os mappas e portulanos empregados ao tempo em que o Infante D.

Henrique começou a dedicar o seu espirito aos problemas que o occupavam,

eram mais propriamente o que hoje chamâmos cartas geographicas do que

cartas hydrographicas ou maritimas. É certo, que, mal definida ainda, e

por muitos negada, a verdadeira fórma da terra, eram tambem por ventura

desconhecidas da maioria dos cartographos quaesquer das theorias das

projecções, a que hoje obedecem os diversos methodos do construcção das

cartas geographicas. Estas reduziam-se, portanto, a um debuxo levemente

approximado da realidade; mas com isto se contentava a navegação do

tempo, visto que ella se fazia quasi absolutamente á vista das costas.

Que, a bem dizer, tudo nos leva a suppôr que n'esses primeiros arreboes

da navegação moderna, os mareantes apenas applicavam a pratica das

_conhecenças_ das terras, sem se auxiliarem de qualquer conhecimento de

caracter scientifico.

Mas, começados os descobrimentos do Infante D. Henrique, e conhecida a

necessidade de dirigir o rumo para logares situados no meio do Oceano,

como as ilhas da Madeira e os Açores, viu-se que aquella navegação por

successivas _marcações_ de terras conhecidas, como hoje diriamos, não

podia servir. D'ahi surgiu a necessidade de fazer cartas que, embora não

reproduzissem com rigor as dimensões relativas das terras, permittissem,

comtudo, determinar por linhas rectas os rumos a que se devia navegar

para demandar certas paragens; e aqui temos como o Infante D. Henrique

foi levado ao uso das _cartas planas_. Durante muito tempo se affirmou

ter sido elle o seu inventor; hoje presume-se que ellas já eram

conhecidas antes do tempo do Infante; mas foi certamente dos

descobrimentos portuguezes que derivou a necessidade do seu uso e por

conseguinte o seu aperfeiçoamento. Escusado é lembrar o nome de mestre

Jacome, Malhorquino, que foi, como quem diz, o cartographo do Infante D.

Henrique.

* * * * *

Os mareantes portuguezes «depois que quizeram navegar o descoberto,

perdendo a vista de terra e engolfando-se no pego do mar, conheceram

quantos enganos recebiam na estimativa e juizo das singraduras, que

segundo seu modo em vinte e quatro horas davam de caminho ao navio,

assim por rasão das correntes como de outros segredos que o mar tem, da

qual verdade de caminho a altura é mui certo mostrador. Porém, como a

necessidade é mestra de todas as artes, em tempo d'el-rei D. João II,

foi por elle encommendado este negocio a mestre Rodrigo e a mestre

Joseph Judeu e um Martim de Bohemia, natural d'aquellas partes, o qual

se gloriava de ser discipulo de Joanne de Monte Regio, afamado astronomo

entre os professores d'esta sciencia. Os quaes acharam esta maneira de

navegar por altura do sol, de que fizeram suas taboadas para declinação

d'elle; como ora se usa entre os navegantes já mais apuradamente do que

se começou, em que serviam uns grandes astrolabios de pau... de tres

palmos de diametro, o qual armavam em tres paus, á maneira de cabrea,

por melhorar segurar a linha solar, e mais verificada e distinctamente

poderem saber a verdadeira altura d'aquelle logar; posto que levassem

outros de latão mais pequenos, tão rusticamente começou esta arte que

tanto fructo tem dado ao navegar»[4].

Assim se exprime o Livio portuguez no logar de que ha pouco fiz outra

citação. Por estas palavras se vê que a determinação da latitude por

meio da altura do sol constitue o segundo facto importante na historia

da nossa arte de navegar. No trecho de Barros vemos indicados os nomes

dos tres mais notaveis mathematicos que D. João II consultava sobre os

assumptos de navegação; alem d'esses convem lembrar os do licenciado

Calçadilha, bispo de Vizeu, e de Diogo Ortiz, bispo de Ceuta, os quaes,

reunidos com os outros formavam a celebre _junta_ que dava parecer sobre

as mais importantes questões relativas aos descobrimentos.

Começou-se, pois, a usar o astrolabio para determinar a altura do sol. O

que fosse esse instrumento, de que tendes presente um exemplar, já muito

aperfeiçoado, do principio do seculo XVII[5], é de todos vós bem sabido;

a altura tomava-se fazendo enfiar os raios solares pelos orificios das

duas pinnulas collocadas nas extremidades da alidade (ou _declina_, como

então se dizia), e lendo depois no limbo o numero de graus; as fracções

de grau eram estimadas até um sexto, isto só pelos observadores mais

destros.

É lição corrente entre quasi todos os escriptores nacionaes, e até entre

muitos estrangeiros, a começar pelo celebre padre Fournier[6], que o

astrolabio fosse invenção portugueza da epocha de D. João II. N'estes

nossos tempos de critica rigorosa não me parece que seja licito fazer

com absoluta certeza tal asserção, pelo simples motivo de que se não

encontra a esse respeito documento positivo, e antes se sabe que já os

geographos da antiguidade dispunham de um instrumento para determinar a

altura dos astros. Mas, se o astrolabio não foi invenção portugueza,

foram com certeza Portuguezes que primeiro o applicaram no mar, e que

por isso mesmo o aperfeiçoaram para facilitar essa applicação.

Quando Vasco da Gama foi a descobrir o caminho por mar para a India,

parece que ainda levava um dos toscos e desconformes astrolabios de pau,

de que falla João de Barros, e tanto assim que, desconfiado das

indicações que elle poderia dar a bordo por causa do balanço do navio,

logo que aportou em terra africana, na bahia de Santa Helena, o seu

primeiro cuidado foi _pesar o sol_ para saber onde estava. E mais tarde,

já nos bons tempos do astrolabio de metal, todos os cosmográphos

recommendam muito que se procure o logar junto ao mastro grande, onde a

nau _dê menos balanço_.

Para provar que o astrolabio bem depressa se aperfeiçoou entre nós,

basta lembrar uma differença que no seculo XVI já era corrente entre os

astrolabios portuguezes e os estrangeiros; pois, ao passo que estes eram

graduados tendo 0° no horizonte e 90° no zenith, os nossos tinham a

graduação invertida, o que, como se vê, dava logo a distancia zenithal,

facilitando assim a _conta_, como então se dizia[7].

Alem do astrolabio, e como simplificação d'elle, havia tambem o

_quadrante nautico_, que parece ter sido invenção portugueza ou pelo

menos adaptada pelos Portuguezes ás observações no mar, visto que

escriptores estrangeiros lhe dão o qualificativo de _lusitano_.

Consistia o instrumento, como o seu nome indica, em um quarto de circulo

graduado no limbo em 90°, e tendo nas duas extremidades de um dos lados

do angulo recto duas pinnulas (_furos_), por onde se enfiava o astro; do

vertice do mesmo angulo saía um fio de prumo, o qual ía determinar na

graduação do limbo um arco igual á altura do astro. Como se vê, o

quadrante nautico fundava-se n'um theorema conhecido ácerca da igualdade

dos angulos; o seu uso era recommendado sobretudo para a observação da

lua e das estrellas, cuja luz, menos intensa que a do sol, permittia ser

affrontada directamente pela vista do observador.

Quanto á declinação do sol, era dada por tábuas, _taboadas_, como então

se dizia, das quaes as primeiras publicadas em Portugal parece terem

sido as de Abraham Zacuto, que foi chronista e astronomo, ou melhor

cosmographo, de D. Manuel, em um livro, hoje rarissimo, intitulado

_Almanach perpetuus celestius motûs_, impresso pela primeira vez em

Leiria em 1497, e do qual houve mais edições; no texto explicativo das

tábuas mostra-se o seu uso por modo mais simples do que anteriormente.

Este Zacuto era judeu portuguez, e parece que tambem tinha feito parte

da junta de mathematicos de D. João II; sendo assim, poderá dizer-se que

o seu _Almanach_ representava a sciencia astronomica da junta. Pouco

tempo depois, ao que se cuida, apparecia, já impressa em portuguez,

outra obra em que se tratava da determinação da latitude. É a traducção

do _Tratado da Spera do Mundo_ do celebre mathematico João de Holywood

em Inglaterra, de onde tomára o nome de Sacrobosco, e publicada, segundo

affirma um nosso investigador, por Alvaro da Torre, que ao mesmo tempo

publicou _O Regimento da declinação do sol_, traduzido de Zacuto por

Gaspar Nicolas, ao que parece, e o _Regimento da estrella polar_. A

edição d'esta obra attribue-se ao anno de 1519[8].

Sacrobosco e João Muller Regiomontano (outro nome alatinado, derivado de

Königsberg, patria de Muller) foram por assim dizer os Dubois e os

Norie[9] do seculo XV, se bem que com maior merecimento, se attendermos

á epocha em que viveram. Um escreveu sobre o que hoje se chama a

astronomia applicada á navegação; o outro foi o auctor dos primeiros

almanachs ou ephemerides astronomicas, de que n'esta occasião tendes

presente um exemplar de uma edição do começo do seculo XVII[10]. Ora,

assim como Gaspar Nicolas seria o primeiro traductor da obra de

Sacrobosco em portuguez, assim Abraham Zacuto, provavelmente instruido

por Martim de Behaim, seria o primeiro introductor em Portugal das

tábuas de Regiomontano.

Mas ambos aquelles estrangeiros escreviam mais para a theoria da

astronomia do que para a pratica da navegação, a qual nos seus

respectivos paizes era ainda pouca e rude. Foi, pois, em Portugal que

aquelles elementos indispensaveis da navegação astronomica começaram a

tornar-se praticos, despindo-se das concepções superiores que não

estavam ao alcance da singeleza dos pilotos da epocha.

Convem aqui dizer o que eram os _Reportorios dos tempos_, que tanto

emprego tiveram entre os mareantes do seculo XVI. Os _Reportorios_ eram

livros em que se compilavam as regras praticas da arte de navegar e se

davam as tábuas de declinação e outros elementos necessarios para a

navegação, referidos, em geral, a alguns annos a seguir ao da publicação

do livro; juntamente traziam outras indicações proprias dos actuaes

almanachs ou reportorios, e muitas que os preconceitos da astrologia,

cada vez mais desacreditada, ainda tornavam interessantes. Póde, pois,

dizer-se que, em relação á navegação, os _Reportorios dos tempos_ faziam

o serviço das actuaes _Ephemerides_ e _Almanachs nauticos_.

Uma das provas mais cabaes do muito que entre nós se trabalhou em

assumptos de navegação, é o grande numero de _Reportorios_ que se

publicaram. Disputam os bibliographos qual fosse o primeiro. Segundo as

mais recentes investigações parece que seria um, editado talvez em 1521

por Valentim Fernandes, e do qual houve diversas edições; cita-se,

porém, a lembrança de outro publicado em 1519. Estas compilações, ao

principio traduzidas do estrangeiro, foram depois ampliadas, vindo a ter

o caracter essencialmente portuguez; pela rapidez relativa com que se

succediam as edições, conclue-se o consumo que o livro tinha. D'elle

tendes presente um exemplar, de Manuel do Figueiredo, impresso em

1603[11].

Achado o meio de determinar a latitude pela altura dos astros, foi este

o modo quasi exclusivo de navegar durante o periodo das nossas gloriosas

viagens no seculo XVI. A _estima_, no sentido que hoje tem esta

expressão, não se fazia, não só por não ter chegado ainda ao campo da

pratica a resolução dos triangulos, pois que a algebra e a trigonometria

estavam na infancia, mas ainda por outra razão, qual era a falta de um

instrumento que désse com approximação a velocidade do navio. A

_barquinha_, que hoje nos parece o mais rudimentar instrumento da

navegação pratica, não estava ainda inventada, e só o foi, segundo Jal,

no começo ou talvez meado do seculo XVII, apesar de que, se me não

engano, nenhum dos nossos escriptores d'este seculo falla n'ella. Certo

é que Humboldt, citando um trecho do Pigafetta, attribue ao nosso Fernão

de Magalhães o invento de um instrumento, fundado no mesmo principio da

actual _barca patente_, para determinar o andamento do navio; mas, se

porventura o circumnavegador o empregou, o seu uso não foi generalisado.

Avaliava-se então o caminho andado só pela pratica, pelo ruido da agua

deslisando ao longo do costado do navio; e comtudo, conforme

recentemente se escreveu a respeito de Colombo, alguns mareantes tinham

tão bom habito d'essa observação, que em pouco se enganavam. Nas longas

singraduras, porém, e sobretudo se sobrevinham temporaes, os enganos

eram grandes; e das _differenças_ de estimativa entre diversos pilotos

da mesma armada estão cheias as narrativas das primeiras viagens.

Vêde, senhores, com que difficuldades luctavam então esses homens

destemidos que se chamavam Diogo Cam, Bartholomeu Dias, Vasco da Gama,

Alvares Cabral e os Corte-Reaes! As cartas faziam-n'as elles; a estima

era o que acabo de dizer; a approximação do _ponto_ determinado pelo

astrolabio podeis imaginar o que seria.

E assim se percorreu o Atlantico e se chegou ao Oriente!

* * * * *

Foi com Pedro Nunes que a arte de navegar assumiu entre nós uma feição

verdadeiramente nacional. Até então os fundamentos scientificos das

praticas dos nossos mareantes podem dizer-se derivados de fontes

estrangeiras, se bem que já muito aperfeiçoados por Portuguezes,

sobretudo no que dizia respeito à observação dos phenomenos physicos do

Oceano, como manifestamente devia acontecer, visto que eram Portuguezes

quem mais longe n'elle navegavam. Mas com Pedro Nunes ha positiva

originalidade, e por isso o seu nome é por tal fórma notavel e

preeminente na nossa historia scientifica, que bem merece que n'elle nos

detenhamos um momento.

Nasceu o grande mathematico em Alcacer do Sal em data não averiguada ao

certo[12], sabendo-se apenas que tomou o grau de doutor em medicina na

Universidade, que então era em Lisboa, e n'ella era em 1530 lente de

_Artes_. Foi depois, em 1554, lente da nova cadeira de mathematica da

Universidade já estabelecida em Coimbra, e n'ella veiu a jubilar-se em

1562. Em 1547 fôra nomeado cosmographo-mór, sendo já anteriormente

cosmographo de D. João III. No exercicio d'essas funcções frequentou a

côrte, e assim teve occasião, como professor ou em conversas, de tratar

das questões de navegação com pessoas taes como o famoso infante D.

Luiz, irmão de D. João III, o infante D. Henrique, depois rei, o

principe D. Sebastião, o grande D. João de Castro, Martim Affonso de

Sousa e muitos outros que d'esse convivio com o mestre receberam ensino

ou augmento de conhecimentos.

A obra fundamental de Pedro Nunes em relação á arte de navegar consta de

um conjuncto de escriptos publicados em 1536, começando por uma tradução

do _Tratado da esphera_ de Sacrobosco, ampliado e corrigido, e

encerrando differentes outros trabalhos, traduções e originaes,

avultando entre estes o _Tratado em defeza da carta de marear com o

regimento da altura_[13]. Mas alem d'essas obras, Pedro Nunes escreveu e

publicou muitas outras, nas quaes tocou todas as altas questões das

mathematicas puras e applicadas á astronomia por fórma a bem merecer o

qualificativo que lhe dá Stockler de «o maior geometra que as Hespanhas

tem produzido, e incontestavelmente um dos maiores que no seculo XVI

floresceram na Europa».

Pedro Nunes foi principalmente um theorico, pois não consta que tivesse

navegado. Como, porém, era um espirito esclarecido, de uma esphera muito

elevada, as suas elucubrações nos diversos pontos da arte de navegar

produziram resultados valiosos, que depois poderam ser applicados por

homens praticos como D. João de Castro. D'esses estudos, os que mais

principalmente chamaram a sua attenção, foram o aperfeiçoamento dos

methodos para obter a latitude e a mais exacta determinação da variação

da agulha, não devendo tambem deixar-se de mencionar a sua theoria da

navegação pelo circulo maximo, que elle estabeleceu completa e perfeita.

Já sabemos que a latitude era determinada pela altura meridiana do sol

ou das estrellas e principalmente da Polar, tomada com o astrolabio ou

com o quadrante portuguez. Pedro Nunes, attendendo, porém, á

impossibilidade frequente de _apanhar o sol_ ao meio dia, e ainda á

difficuldade de determinar com exactidão a sua maxima altura por causa

da marcha vagarosa do astro quando d'ella se approxima, inventou um

apparelho denominado _instrumento de sombras_, o qual dava os elementos

para um processo destinado a obter a latitude pela observação das

alturas do sol antes e depois do meio dia. Não é aqui o logar apropriado

para explicar o processo, cuja pratica se póde ver nos _Roteiros_ de D.

João de Castro; apenas chamarei a vossa attenção para a importancia do

problema, cujo enunciado basta para dar idéa do valor scientifico de

Pedro Nunes. Lembrarei tambem que Pedro Nunes inventou o _annel

graduado_ instrumento de uso mais facil que o astrolabio, e destinado

aos mesmos fins, cujo emprego se generalisou rapidamente.

Quanto ás agulhas de marear alguma coisa mais julgo dever dizer.

Tem-se escripto e repetido que foi Christovam Colombo quem primeiro

descobriu o phenomeno da variação da agulha. Assim será, posto que no

meu espirito haja a tal respeito muita duvida. Que, se o facto fosse

verdadeiro, em nada diminuia a importancia das descobertas nauticas dos

Portuguezes, porque, senhores, a verdade é esta: Colombo foi um

navegador da escola nautica de Portugal; nem mais... nem menos.

Mas conhecida a variação, imaginou-se que ella era constante em cada

meridiano, e isto, que aliás não era exacto, deu logar a um artificio

essencialmente portuguez, que bem mostra quanto os nossos navegadores se

apressavam em aproveitar para a pratica as descobertas dos phenomenos

naturaes. Refiro-me á construcção das agulhas portuguezas no principio

do seculo XVI, as quaes tinham «os ferros aos dois terços da quarta de

nordestear»; quer dizer, que se corrigia ou compensava a variação

nordeste, que então o era, collocando a agulha em um angulo com a linha

norte-sul da rosa igual a essa variação. _Nordestear_ significava, como

vêdes, ser a variação oriental; _noroestear_ significava o contrario;

são expressões que reputo essencialmente portuguezas. E aqui temos como

o problema da compensação das agulhas, ainda hoje tão incompletamente

resolvido, foram Portuguezes os primeiros que o atacaram!

É claro que essas agulhas assim compensadas só podiam servir na

navegação ao longo da costa de Africa, onde então a variação era

nordeste e tinha approximadamente a grandeza que se julgava; póde bem

imaginar-se que fóra d'aquella navegação, feita quasi pelo mesmo

meridiano, as indicações das agulhas haviam de ser erroneas. Outra causa

concorria para esses erros, e era a propria rudeza da fabricação. As

primitivas agulhas portuguezas tinham verdadeiramente a fórma de uma

grande agulha de alfayate, e eram fabricadas de ferro e não de aço; em

cada extremidade havia duas pontas, e eram estas que se _cevavam_, isto

é, que se tocavam com a pedra iman. Por este processo rudimentar era de

pequena intensidade a força magnetica das agulhas; d'ahi a necessidade

de as _cevar_ frequentes vezes, operação considerada a mais mysteriosa e

sublime que os pilotos tinham de realisar durante a navegação.

Ora bem depressa foi reconhecido não só que a variação mudava com o

decorrer do tempo, mas ainda que ella variava para os differentes

logares da terra, e por isso Pedro Nunes, reprovando o uso das agulhas

que chamaremos compensadas, inventou novos methodos para determinar a

variação, os quaes D. João de Castro foi encarregado de experimentar nas

suas viagens. Foi d'essas experiencias, feitas por um homem altamente

apto para as realisar, que resultaram grandes progressos no conhecimento

das leis do magnetismo, e entre elles a descoberta do phenomeno do

desvio local, ácerca do qual não posso furtar-me ao prazer de citar o

respectivo trecho do Castro. «Este dia, mandando vir algumas agulhas

para as cotejar com o instrumento, achei-as tão desconcertadas que foi

cousa espantosa, porque onde uma fazia o leste, a outra mostrava o

norte. Isto me teve muito suspenso, até que entendi a causa, e foi um

berço (peça de artilheria) que estava no mesmo logar onde eu queria

fazer as operações, o ferro do qual berço chamava a si as agulhas e as

fazia desvairar d'esta maneira; do que tirei que uma operação que fiz a

30 de junho... a qual achei que me vinha muito desconcertada, e assim

algumas outras... onde achei notaveis differenças, que foi por as fazer

perto de onde estava alguma peça de artilheria, ancoras, ou qualquer

outro ferro, como me passava a todas as partes da nau, buscando logar

conveniente a esta obra[14]».

E aqui, senhores, permitti-me que interrompa o fio da narrativa para vos

repetir uma consideração já tantas vezes feita. Os Portuguezes foram

excellentes em muitos ramos das sciencias. Os nomes dos nossos sabios

que as honraram, foram por vezes conhecidos lá fóra. Mas quantas foram

elles desprezados, e os seus trabalhos ignorados ou postos acintemente

de parte! Assim aconteceu com Pedro Nunes, que tendo inventado o

conhecido _nonnio_, que de seu auctor tirou o nome, vemos por toda a

parte attribuido o invento a um estrangeiro. Assim com tantas outras

invenções ou descobertas, como esta do desvio local das agulhas, a qual

pertencendo, como acabaes de ver, ao nosso Castro, é por todos referida

a outro estrangeiro[15]!

* * * * *

O phenomeno da variação da agulha deu muito que pensar aos nossos

mareantes, e originou uma idéa, que por muito tempo occupou o espirito

tanto dos theoricos como dos praticos.

Como já tive occasião de lembrar, a maior difficuldade da navegação

d'aquelles tempos era a determinação da longitude ou da _longura_, como

se dizia ainda no seculo XVI, por opposição a _ladeza_ ou _altura_,

synonimo de latitude. Um dos methodos scientificos mais rigorosos era

sem duvida a observação dos eclipses; conhecida a hora em que o

phenomeno se dave sob certo meridiano, e determinada a hora em que elle

fosse observado no meridiano do logar, a differença do tempo reduzida a

graus daria a longitude. Mas, alem de que o phenomeno, pela sua pouca

frequencia, não podia servir para as necessidades da navegação, a grande

difficuldade estava em determinar a hora do logar com uma approximação

que désse resultados praticos. O processo empregado consistia em

determinar bem o meio dia pela altura maxima do sol, e desde então em

diante ir virando _relogios_, isto é, ampulhetas d'areia, até ao momento

do eclipse. Basta dizer isto para mostrar a rudeza da operação;

succedendo alem d'isso que a imperfeição das ampulhetas, as quaes eram

de meia hora, dava logar ás mais extraordinarias differenças entre

ellas.

Por isso os navegadores serviam-se pela maior parte de indicações

tiradas da pratica, e entre estas, quando se achavam proximos de terra

(que era o momento mais para receiar) da observação das diversas

especies de sargassos e algas, peixes, e sobretudo de aves, que lhes

appareciam, taes como entenaes, feijões, mangas de veludo, gaivotões,

borrelhos, calcamares, rabi-forcados, garajaos e garajinhas, e outros de

que, nos falla o bom Pimentel, não esquecendo os cagalhos que pela

singularidade do nome não percam. Já se vê que os nossos mareantes

precisavam de ter um curso completo de ornithologia.

Ora, todas estas difficuldades pareceram desapparecer quando se começou

a attender no phenomeno da variação da agulha. Suppoz-se que esta em

determinados meridianos _feria directamente o polo do mundo_, e depois

ía nordesteando ou noroesteando até chegar a um ponto onde o augmento da

variação cessava, passando então a diminuir para depois chegar a outro

meridiano onde a variação era igual a zero. Sendo isto assim e havendo

constancia no phenomeno, se se podesse conhecer quaes os meridianos sem

variação, e qual a regra do seu augmento e diminuição de um a outro

d'esses meridianos, bastaria determinar a variação do logar para por

ella se conhecer a longitude, praticando assim a _arte de leste a

oeste_, como então se dizia.

Tal era a theoria. Segundo os pilotos portuguezes do seculo XVI, a

agulha era _fixa_, isto é, não tinha variação alguma, em quatro pontos:

no meridiano a oeste da ilha do Corvo, no Cabo das Agulhas (que d'esse

facto tirou o nome), na Pedra Branca junto a Malacca, e em Carthagena na

America.

Com estes dados trabalharam muito investigadores, entre elles um Filippe

de Guilhem, castelhano, a quem o nosso D. Manuel deu uma tença e o

habito de Christo, apesar de ser a sua doutrina refutada pelo portuguez

Simão Rodrigues, e um italiano domiciliado em Portugal, o jesuita

Christovam Bruno ou Borro, a quem a fatalidade do appellido fez que

escriptores estrangeiros transformassem em Burro, o que elle decerto não

merecia. Este trabalhou muito no assumpto, indo de proposito á India

para fazer observações durante a viagem; formou um mappa com as linhas

magneticas ou isogonicas, como hoje diriamos; e foi a Madrid solicitar

do Filippe, que então reinava, o premio de 50:000 cruzados proposto para

quem resolvesse o problema; não o obteve. Tão notaveis talvez como o

Bruno, ainda que menos conhecidos, tinham sido os portuguezes Luiz da

Fonseca Coutinho e Gaspar do Couto, que muito se dedicaram a este estudo

no principio do seculo XVII. Couto foi mandado á India em 1608 na

esquadra em que ía o conde da Feira, nomeado vice-rei, e levava

minuciosas instrucções, ou _regimento_, como então se dizia, para fazer

um roteiro, observações astronomicas e sobretudo as relativas á

agulha[16]. Citarei finalmente o nome do nosso Antonio de Mariz

Carneiro, que foi cosmographo-mór nos ultimos annos da dominação

castelhana, o qual tanto scismou no caso que mereceu aos seus

contemporaneos a alcunha de _O Agulha fixa_; e ainda os de Jeronymo

Osorio da Fonseca e José de Moura Lobo, que no tempo de D. João IV

trabalharam no problema.

A theoria era errada, como hoje sabemos, pois as linhas isogonicas nem

coincidem com os meridianos terrestres, nem são constantes no tempo. Mas

o pensar-se n'ella mostra cabalmente que os Portuguezes procuravam

resolver os problemas do mar do melhor modo possivel.

E comtudo, convem dizer, parece que Pedro Nunes não dava muito credito á

hypothese, o que mais uma vez prova a superioridade d'aquelle grande

espirito.

Nós que sabemos a quasi superstição com que os marinheiros ainda hoje

contemplam a agulha, o respeito com que a tratam, a afflicção que por

vezes se apossa d'elles quando a vêem endoidecer em occasião de grandes

balanços, bem podemos imaginar o que seria n'essas epochas de rudes

conhecimentos, em que da agulha tudo se esperava, e dos seus desvarios

tudo se temia. E, lançando um ultimo olhar de respeito a esses esforços

da intelligencia nautica dos nossos antecessores, nós para quem hoje a

navegação parece um brinco, tantas são as facilidades dos processos

modernos, tão exactas as approximações a que podemos chegar nos

calculos, lembremo-nos de que ainda ao presente a determinação da

variação e sobretudo do desvio é, porventura, o maior cuidado do

navegador.

* * * * *

Muito mais poderia dizer-vos, senhores, ácerca da arte de navegar

portugueza, para vos mostrar á saciedade como se progrediu immensamente

desde os escassos conhecimentos dos mareantes do Infante até aos fins do

seculo XVI. Teria que fallar ainda do successivo aperfeiçoamento das

cartas, do _tronco das leguas_, destinado a corrigir o inconveniente da

equidistancia dos parallelos, como podereis ver na carta do Atlantico,

de Gaspar Viegas, que tendes presente[17], do uso da _balestilha_, que

parece remontar entre nós aos fins d'aquelle seculo, dos processos de

sondar, dos levantamentos das costas e barras, da determinação dos

ventos geraes e das correntes, das differentes derrotas para a India

_por dentro ou por fóra_ da ilha de S. Lourenço, da famosa questão de

Molucas que tanto agitou os theoricos e praticos do tempo de D. João

III, de muitos e variados pontos que todos concorreriam para confirmar a

minha these[18].

Mas baste o que já tenho dito. O tempo corre, e, tendo fallado tanto da

arte de navegar, é bem que diga alguma cousa a respeito dos que a

praticaram.

* * * * *

Quando o Infante D. Henrique começou a mandar _a descobrir_, empregou

n'esse serviço homens que, á dedicação pelas novas idéas e aos desejos

de bem merecer, juntavam conhecimentos das diversas partes da marinharia

e por conseguinte da _arte de navegar_. Póde, pois, suppôr-se que

Gonçalves Zarco, Tristão Vaz, Gil Eannes, Baldaya, Nuno Tristão, Gonçalo

de Cintra, e tantos outros, eram ao mesmo tempo _commandantes_ dos

navios para os fins politicos dos descobrimentos e seus _pilotos_ para

fazerem a derrota e _arrumarem_ as novas terras.

Mais, tarde, porém, e sobretudo a datar da viagem de Bartholomeu Dias,

começa a historia a individualisar os nomes dos pilotos que d'aquelle

segundo serviço eram especialmente encarregados nas expedições

maritimas. Depois, quando a carreira da India passou a ser annualmente

frequentada pelas armadas, quando, attingido o objectivo no Oriente e no

Atlantico, se tratou mais da conquista que do descobrimento, os capitães

das naus e os capitães-móres das armadas eram por via de regra tirados

de entre os filhos da nobreza, a quem se queria adiantar em fortuna,

posto que quasi sempre depois de já terem dado provas de valor militar e

saber politico, ou nos serviços da metropole ou na defeza das praças de

Africa. Succedia então que aquelles chefes, por vezes, ignoravam os

rudimentos da manobra e da arte de navegar, e por isso estes serviços,

até certo ponto reputados inferiores em comparação com o nobre exercicio

das armas, eram das attribuições exclusivas dos mestres e pilotos.

D'estes embarcavam ordinariamente n'uma nau de carreira um piloto, um

sota-piloto, por vezes um piloto de sobresalente. Nas armadas havia

quasi sempre um piloto-mór, que embarcava na capitania. E, alem de todos

esses, havia frequentes vezes em cada navio um ou mais marinheiros que

_carteavam_, provavelmente homens que se preparavam para passar a

pilotos, _praticantes_, como hoje se diria; assim na nau _Grypho_, que

D. João de Castro commandava quando foi pela primeira vez á India,

havia, incluindo o capitão, nove pessoas capazes de tomar alturas.

O Infante D. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes · 第 1 / 3 段