EPIGRAFE.

_Rebus angustis animosus as que

Fortis appare._

Horat. Od. 7. liv. 2.

Se póde hum mocho, piador nas selvas

Brancas plumas cobrar, surgir de noite,

E dos pios colher vozes sonóras,

Tendo assumpto sem par, Heróes cantando!

Não sou ave infeliz, odeio as trévas;

Minha essencia mudei; encaro o dia,

O dia, que nasceo na luz d'Elmano.

Ó tu Dominador, de quem domina

No medonho poder d'escuro pégo,

Onde morre o Vulgar, existe o Grande;

Em que ufana de Ti a Eternidade,

Dos limites sahio, mandou soberba

Aos Futuros pasmar, tremer aos Fados;

E nos Livros ao tempo sobranceiros

O teu nome esculpir, dar vida ás letras;

Que sedentas té'li de iguaes talentos,

Sem a mira lançar a mais, ou tanto,

Novo campo não dão a novo entalhe.

Accolhe os versos meus, os meus louvores,

Que o pêjo suffocou; mas cede o pêjo

Á voz da Gratidão, que em mim resôa.

Que inaudito prazer me surge n'alma!..

Elmano, Elmano meu, do Mundo gloria,

Quando penso que os sons adormecidos

Da Lyra (que em temor céde á vontade)

Vão dos Astros romper luzente Espaço,

Indo aos Numes levarão, que he dos Numes

Esta empreza, que os Ceos no seio acolhem,

De que hes justo crédor, que humilde off'reço,

Hade a Jove aprazer, durar em Jove.

Se ao jugo dos Mortaes, se ao Fado, á Morte

Inda liga tua alma a terrea massa,

Se em tormentos, se em ais, se em dor, se em pranto

A substancia languece, que te anima,

E de humano a pensão (dever custoso)

No continuo pular do sangue ardente[1]

Encaras com temor; temor não tenhas!

A morte para o Sabio he gosto, he vida.

Assim o grão Camões, de Lysia esmalte,

E das grandes Nações portento, espanto,

Na desgraça morreo, viveo na morte!

E o Nume atroador de Pólo a Pólo,

Por cem aureos canaes fendendo os ares,

Inda o nome do Heróe espalha ufano,

Inda alentos lhe dá, vida mais nobre.

Quebradas as prizões aos ser terreno,

Que te véda subir de Vate a Nume,

Hade os tubos encher com sôpro estranho,

E teus versos mandar ao Ceo da Gloria.

Não julgues, que se, Heróe, zombas da morte,

Encarando teu mal desdenho o pranto

Hade Lysia chorar, darão os Lusos

Do pranto, que a razão sanar não sabe,

Grossas agoas ao Téjo caudaloso,

Que dos limites seus fugindo irado,

Vá ao Ganges levar, levar ao Nilo

A noticia cruel, que humanos punge:

E Josino (que a vida assás molesta

Nos hombros lhe suppeza alonga os dias

Que, d'Elmano vivendo assim distante,

Hãode o manto roubar á noite escura!)

A tristeza dará da morte o premio.

Revive, Elmano, pois no Ethereo Reino;

Que eu, em quanto tiver vitaes alentos,

Heide em ti prantear d'Amigo a falta,

E de Vate, e de Heróe ceder ao pasmo.

_José Joaquim Gerardo de Sampaio._

[1] Alludo ao aneurisma, huma das principaes molestias, que o

atormentão.

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, achando-se o A. molesto._

*EPISTOLA.*

O Sabio não vai todo á sepultura,

Na memoria dos homens brilha, e dura.

_Rim. du Bocag. T. a._

Hum triste, hum infeliz, da Sorte avêssa

Tragando o fel dos ais, o fel da vida,

Saúda hum triste, que abraçar não póde,

Penhóra em letras, mensageiras d'alma,

Os effluvios da candida amizade,

Os saudosos gemidos, que te envia,

Elmano, que em soluços te evapóras,

Que atroppelado pela dor intensa,

Sóltas dos lumes teus acerbo pranto,

Que em vão te banha as faces enlutadas,

Que tenta em vão desenrugar teus Fados.

Mas ah! cobra valor; constancia, Amigo:

Esforçada razão represe as mágoas,

Que a horrenda fantasia, nebulosa

Avulta em quadros, em que tudo he negro.

Se ella dá brilho, se a existencia affaga,

Debuchando na idéa deleitosa

Glorias, prazeres, jubilos, encantos;

Tambem nos males nos accurva a mente

Com duplicados, horridos pavores.

Baldar o sentimento ao corpo afflicto

Não quero, Elmano, que tambem sou homem.

Se Zêno, se Platão sorrindo em ancias,

Não mostrárão na face a côr do medo,

Que erão diremos corações de bronze?

Sentirão, que a desgraça a todos punge;

Porém soffrêrão com tenaz constancia,

Engolfados na sãa Filosofia.

Se qual vivêrão, tal morrêrão lêdos;

Porque não seguiremos os seus passos?

Forão d'outra materia, que não somos?

Forão d'outro talento, que não tenhas?

Quem da convulsa natureza, opressa

Falsêa em parte os horridos embates,

He sobranceiro á morte em gloria firme:

Se tu com ella nos degráos luzentes,

Librado sobre os extasis divinos,

Nectar libaste na Apollinea Mêza;

Porque tremes das soffregas voragens,

Em que se abysma a Natureza toda?

Que saudades do Mundo te acompanhão?

Por quantos males se não comprão ditas,

Que bem qual o relampago se esváem!

Que te valeo na Patria modulando,

Da bocca deslizar thesoiros d'alma;

Ora cantando de Marilia a face,

Aonde se remóça a florea Gnido;

Ora abrazado em ralador ciume,

Praguejando o rival de teus amores;

Detestando a cruel, a fementida;

Ora carpindo a[1] flor cortada em breve,

Que acordava o botão medrando em risos;

Enriquecendo em fim a Patria, o Mundo

Nos vivos quadros da Moral prestante?

Se horrorosos baldões o premio forão;

Se isto se diz viver... se o Mundo he isto...

Não tens que suspirar; esquece a Terra!

Não succumbas ao pêzo da desgraça:

Se te borbulha hum Deos na mente acceza,

Quem 'sta cheio d'hum Deos não teme a Morte.

_De Pedro José Constancio._

[1] Alludo ao Idyllio da Saudade Materna, feito pelo Senhor Bocage.

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._

_Tu ne cede malis; sed contra audentior ito,

Quam tua te Fortuna sinet......_

Æneid. 6. vers. 95.

He nos revézes que apparece o Sabio,

Que d'hum peito atravéz, que a Dor crucîa,

Reluz hum coração, virtudes todo:

Nunca d'Athenas o lustroso esmalte,

O Mestre da Moral, o Deos dos Sabios,

D'alma heroica mostrou mais nobres rasgos,

Que ao entrar na prizão com rosto alegre,

E ao beber a cicuta airoso, e forte.

De Roma nos Annaes, que o Mundo assombrão,

Não teve cabimento Heróe mais claro,

Que hum Séneca, fiel ás leis sagradas

Da Virtude, e Dever , aos pés calcando

Cruas perseguições, desterro iniquo,

Sobranceiro ao rigor dos Ceos, da Terra.

Nem sómente entre as horridas refregas

Do procelloso mar, ou nos combates

D'alma forte resumbra ardor valente:

Da virtude he tambem theatro o leito;

Neste mais de huma vez provou-se o Sabio:

Encara com desdem o Sabio a morte,

Certo que a preço tal se merca a vida.

Temos mui nobre, e remontada Essencia,

Viemos povoar Terraqueo Globo

De mui alto lugar; e a prova, Elmano,

Em nós mesmos se dá, julgando escassa

Humilde habitação, d'arte os portentos,

De Arquitectura, e luxo assombros claros,

Que hum leve sopro esbrôa, esmaga, e prostra;

Não temendo largar tão baixa esfera.

He das dores crueis o termo a morte!

Entre desgraças mil sempre vagando,

De molestias sem fim alvos constantes;

Bem como acontecer deve aos que aberrão

Do seu clima natal, e estranho habitão.

Só depois de existir puras substancias,

Despidas do grosseiro, e terreo manto,

Gostaremos prazer sadio, estreme.

Filosofia, és tu, quem dás ao Homem

Do sepulcro despir-lhe o medo, o tédio;

Por ti (qual déstro nauta exp'rimentado,

Que rasgado o velame, os mastros rotos,

Co'as ruinas da náo prosegue a rota),

Não succumbe o Mortal da morte á face,

Não lhe desbóta do semblante as côres,

Da constancia o vigor não lhe entorpece

Buido ferro, que centelhas vibra;

Da vida o termo com sorriso encara,

Como se alheio fosse, e não seu termo.

Genios transcendentaes, que o mundo honrárão,

Não temêrão largar barrenta capa,

Que mesquinha entorpece os vôos d'alma:

Do divino Platão, o Sol da Grecia,

Ouve attento o clamor, no peito o encerra:

"O espirito do Sabio anhéla a morte,

Nella medita, e a quer: sempre que tende

Fóra de si; taes são seus appetites."[1]

Quanto ao summo chegou do fim jaz pérto:

Fructo, que sazonou co'a Primavera,

Do Outono na estação não orna as mezas!

Quanto mais clara resplandece a chamma,

Tanto mais prompta affraca, e se amortece:

Taes os Engenhos; quanto mais sublimes,

Tanto mais breves são; que he perto o Occaso,

D'onde falta o lugar ao crescimento.

E pois, Elmano, te guindas-te ao cume

Do Horizonte, onde és Sol de Lysia aos Vates,

Cujas centelhas dão calor aos Genios,

Dão brio, dão vigor para ir á gloria,

Postergando montões de vis insectos

De ephemerico ser, d'aspecto ingrato;

Não deves estranhar, que Atropos dura

Se antecipe a cortar-te o fio á vida;

Ella, que sem respeito ao Môço, ao Velho,

Se apraz de encher de lucto, e pranto o Mundo.

Ah! Se a vozes de dor se move a Parca,

Se do Destino as leis transtornos soffrem,

Verás, Elmano, decorrer teus dias

A par dos de Nestor, Tu, que o semelhas

No mel, que vertem teos divinos labios.

Lysia, desfeita em ais, banhada em pranto,

Ante as aras de hum Deos mil preces sólta

Pela conservação do seu esmalte,

Do seu Genio melhor, da Gloria sua,

E aos de Lysia Filinto une os seus votos.

_Fr. Francisco Freire._

[1] _Sapientes animum tetum in mortem prominere, hoc velle, hoc

meditari, hoc semper cupidine ferri in exteriora tendentem._

Senec. Consol. ad Marciam.

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._

*EPISTOLA.*

Ruindo lá do Bárathro medonho

Lúgubre som, motivador do pranto,

Que as faces mólha de enlutada Lysia,

De ti, ó Vate, reclamava o feudo;

Já lá do Abismo horrendo as furias torpes,

Por ordem de Plutão na terra surgem;

Da vil materia, do que he pó, que he nada,

Opaco manto de endeosados genios,

Rabidas rompem o ordenado todo.

"Murchas esp'ranças mais a mais fraquejem,

Sentimento mortal, tristeza baça

Nos Lusos corações a dor espalhe;

Apenas cinza, o que já foi Elmano."

Esta do Averno a voz, a lei da Morte,

Que ás funeraes Irmans o Monstro intima!

Do Sena pelas margens saborosas,

Pelas praias do Ganges, do Aureo Téjo,

Assustadas de horror as Ninfas clamão;

A lei maldizem, que lhes rouba a gloria,

Carpindo o mimo, que as honrava tanto.

Os alumnos de Apollo ao nume envião

Entre cortados ais, sentidas vozes,

Votos provindos do profundo d'alma,

Quaes os da Gratidão, e os da Verdade:

Co'as mentes cheias de saudade infinda,

Teu nome, ó caro Elmano, a Jove lembrão;

No fogo ardente de sonóros Hymnos,

Escudados da candida amizade,

Da justiça, é dever, da gloria Tua,

Hum Nume Creador, que uniu os Entes,

Hum Deos, hum justo Deos piedoso dobrão.

Eis de repente na brilhante Esfera

Risonho assoma o dia, a noite fóge;

Raia alegre o prazer, somem-se as trévas;

Abrem-se as portas do sulfureo Averno,

E á feia escuridão as Furias tornão.

Esforça-se a razão, estudo, e arte

Das garras a salvar a prêza excelsa:

Angelico tropel ao leito adeja;

Da Sacra Região baixando os vôos

Do Vate aos lares, a melhora guia.

No Olympo os Numes a harmonia prézão,

Affeitos a escutar da terra os Vates.

Oh como de prazer exulta o peito!

E mano, Elmano vive, oh Ceos, oh dita!

Por elle a gloria, e honra em Lysia abundão;

Cisne do Téjo, que trespassa a méta,

Licita a raros de adejar cançados.

Fadem teus dias fortunosos lances.

Praza aos Ceos compassivos, que inda eu possa

Ver-te immune ao mal, que te consterna;

Porque possas tambem dar vida á Fama

De deslizado Heróe, que a cobardia

Pendura nos portaes do Esquecimento;

E as azas desprender em canto altivo,

(Dos Voltaires, Camões, dos Tassos digno)

Em lustres de Varão, que immortalizes.

Virente louro não me cinge a frente;

Tolhem meus gressos as varedas ínvias

Ao bipartido Cume, ao sacro asilo

Dos almos Genios, onde entrar não posso:

A ser-me dado, intrepido verias

Em duravel engaste, em Padrão d'oiro

Ir assomar teu nome além dos Evos;

A ardentes Vates, que o Porvir esconde,

Engenhos como Tu, mover-lhes pasmo;

Mostrar-te como exemplo ás Plagas Lusas,

Disparando o trovão, vibrando os raios,

Imagens vivas, que dão alma ás pedras;

Em quanto as graças em Gertruria bella

Co'os doces folgazões amores brincão;

Quando surge da Estancia a torva invéja,

Ou trilhas sem desdouro o Lacio augusto:

Do filho de Sulmona unindo a cinza,

Fazendo-o reviver com pompa egregia

Em veste alheia; mas tão nobre, e rica,

Que equivale ao valor dos proprios trajes.

Quizera agora ter o dom de Elpino,

Invadir com teu nome a Eternidade......

Mas ah que delirei: oh mente louca!

Não precisas de quem de ti precisa:

Rite, rite de mim, ó grande Elmano

Mas dos desejos não, dos sãos desejos.

_De João Galvão Mexia de Sousa Mascarenhas._

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._

*EPISTOLA.*

Vate, que adoro, portentoso Elmano,

Imagem do Saber, do Pindo gloria,

Apollineo Cantor, Cantor divino

Dos Jardins, onde impéra a Natureza;

Escuta os versos meus, escuta os versos,

Que dicta o coração, dicta a amizade.

Depois, com que pezar o pronuncio!

Que entrei na estancia triste, onde succumbe,

Aos impulsos da Dor, Razão, Constancia,[1]

Diluvio amargo de saudoso pranto,

Me innunda as faces, me consterna o rosto.

Já mais hum só instante, ó caro Elmano,

Se minóra a tristeza, que me opprime;

Meu activo pezar, minha amargura,

Bem não podem narrar toscas palavras:

Excede a dor humano soffrimento!

Saudades que a minha alma afflicta sente,

Podem-se imaginar; mas não dizer-se.

Ah quando penso em ti, eu me arrebato:

Futuras producções imaginando,

Não césso de chorar a falta, a perda,

Que as Bellas Letras, Seculos vindouros

Chorarão, como eu, se a morte horrivel

Inda em flor decepar teus caros dias.

Deste asilo da lúgubre Tristeza,

Onde os dias, ás noites semelhantes,

Eu passo envolto em luto, envolto em pranto,[2]

Te envio tristes ais, ternas lembranças,

Que meu peito fiel a ti consagra;

Escuta-as, se he possivel, (pois o triste,

Com as queixas do triste se consola,)

No meigo coração grato as acolhe;

E conhecendo a dor, que assim me fere,

Pondéra as mágoas, que supporta, e sente

Falmeno, que sem ti vive morrendo.

Sugeito ao mando teu por lei, por gosto,

Te envio (como amargo talvez util)

O Folheto de meus insulsos versos:

Quem quer escravo ser de teus preceitos,

Sem já mais hesitar, deve cumprillos

Embora o Zoilo vil louco me chame,

E pura sugeição julgue vaidade.[3]

Adeos, meu caro Elmano, adeos amigo,

Os teus ais, aos meus ais unidos sejão;

Unidos vão soar na azul esfera,

Augurando amizade além da morte.

[1] Alludindo á exasperação em que o vi lutando, na occasião em que

excessivas dores muito o atenuavão.

[2] A grave molestia do Amigo, e o proximo falecimento da minha Mãi, me

inspirou os tres versos acima, em tudo conformes aos meus sentimentos.

[3] Já mais me atrevera a enviar o Folheto dos meus insipidos versos a

tão abalizado Mestre, se a sua determinação me não obrigasse a tanto: as

desculpas que exijo, e as causas que allego no Prologo do dito Folheto,

não bastão a evitar a critica, que na verdade merece a publicidade de

semelhantes Poesias, ás quaes ao presente não dou valor algum.

* * * * *

*SONETO.*

Nesta horrivel morada da saudade,

Onde chóro, e lamento o teu Destino,

Dirijo preces mil ao Ser Divino,

Que dicta o coração, dicta a amizade.

Fiel inclinação, pura verdade

Repete ardentes votos de contino:

Tranquillo supportára o mal ferino,

Se podésse escusar-te a Enfermidade.

Quanto fôra feliz, meu caro Elmano,

Se a vida, que te offerto, vida escura,

En teu lugar soffrêra o cruel dano;

Então com gosto olhára a sepultura;

E resgatando o Heróe, alegre, e ufano,

Meus dias entregára á Morte dura.[1]

_Por Felisberto Ignacio Januario Cordeiro._

[1] Se os versos dos dous tercetos parecerem affectados, e excessivos;

para se pensar de modo contrario, baste a lembrança, de que o homem

verdadeiramente Filosofo, que tem huma existencia triste, e pouco

interessante, não terá nunca dúvida (sendo possivel) em sacrificar a

sua vida á duração da dos homens sabios, uteis, e necessarios á

Republica das Letras, e á Sociedade Civil.

A virtude laureada Drama Recitado no Theatro do Salitre · 第 7 / 8 题