_De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
escritas_.
Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por
tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia
de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o
Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na
Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos
postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção
de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
tempo.
Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a
segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que
todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que
mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação,
sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas
vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra
os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou
por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do
culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo
aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não
tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.
E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao
Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de
enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em
orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui
amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e
outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de
Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não
contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
fortes, e grandes.