_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
que veio a soccorrer seu filho_.
Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo
diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em
memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis
Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e
vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era
do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á
Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta
feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta
da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum
tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o
Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.
O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo
comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de
Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de
Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta
feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando,
tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e
combater o palanque.
Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres
dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós.
Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso
seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos
em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não
foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o
palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em
todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer,
então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal
medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes
dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do
Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se
chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles
grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.
Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor.
Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém
por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca
Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e
destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram
Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se
partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.