CAPITULO LI

_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora

guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com

os Mouros peleijasse_.

Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o

Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais

folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que

se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de

Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e

passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a

cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que

chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e

todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por

sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar

folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros

nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,

pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou

chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia

as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam

tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de

gente, que para sua defensão lhe fazia mister.

O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados

de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)

e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram

de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os

Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,

contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e

Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui

desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de

Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar

tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e

pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os

Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando

muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir

contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e

outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos

amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço.

Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão

aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o

Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa

com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu

ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas

tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,

pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de

menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar,

que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade

fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e

que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,

e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que

soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei

por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo

vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N.

Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle

que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos

encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer,

nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram

de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam

todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos,

não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram

todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos

somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto

em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua

ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai

logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em

que lugar ha de ir, e estar».

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 86 / 113 题