CAPITULO XXVII

_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.

Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.

Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por

Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento

quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo

já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito

que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,

por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a

milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da

parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a

fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por

elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao

meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte

contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual

falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado

assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui

magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e

não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a

Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro

estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto,

era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que

os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do

outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente

fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos,

com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que

lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e

temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á

morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte

do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre

chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli

haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não

menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e

aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma

maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de

muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D.

Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,

que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus

lugares.

Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a

grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe

El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a

outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se

podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era

tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a

pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem

Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que

parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa

foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como

quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia

tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta

cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande

perigo, e receo.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 62 / 113 题