_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
passou_.
Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:
«Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,
e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:
«Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a
grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo
era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal
em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a
espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»
querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com
elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este
Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:
«Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois
assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou
cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me
queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa
mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que
descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem
prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis
uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós
por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui
não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe
aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e
ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e
disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o
serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado
ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
«Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e
para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o
Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão
seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo
faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em
que lugar.
Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais
encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião
delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a
esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de
Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com
El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não
pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro
nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o
Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu
lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós
vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,
ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o
seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando
a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado
por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe
outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.
E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.
Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.