CAPITULO XXIV

_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal

escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle

passou_.

Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:

«Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,

e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:

«Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a

grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo

era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal

em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e

como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a

espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»

querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com

elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este

Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:

«Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois

assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou

cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me

queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa

mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que

descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem

prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis

uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja

excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós

por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa

Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui

não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe

aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e

ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e

disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o

serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado

ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se

todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:

«Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu

houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que

tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e

para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito

mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o

Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que

El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão

seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo

faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em

que lugar.

Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais

encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião

delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal

pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este

escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a

esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de

Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com

El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,

e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe

reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não

pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro

nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o

Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu

lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós

vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,

ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o

seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando

a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado

por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe

outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a

El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui

honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois

este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas

que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.

E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra

quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu

escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 59 / 113 题