_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.
A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal
modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar
de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que
o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na
mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais
devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre
porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,
porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.
Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja
louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão
póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio
que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de
Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então
neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em
mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim
que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo
Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu
geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso
que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as
fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?
Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,
por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como
é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste
mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se
conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo
condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei
fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e
conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os
similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que
não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,
por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não
nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.