CAPITULO XXII

_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso

Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.

A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques

assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu

naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella

prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de

exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal

modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar

de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que

o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha

de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na

mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada

Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso

faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda

que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem

nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais

devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre

porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,

porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.

Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para

muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja

louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão

póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer

assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio

que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as

gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua

navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de

Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então

neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre

Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em

mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim

que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo

Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois

lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os

bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu

geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso

que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as

fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem

mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao

misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e

constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever

com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?

Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,

por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo

Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja

por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como

é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve

cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e

prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos

por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que

por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste

mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se

conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se

fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo

condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei

fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e

conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os

males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os

similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei

D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que

não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,

por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não

nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 57 / 113 题