_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.
Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás
trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria.
Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez
outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma
das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de
outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de
cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves,
que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço
Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.
Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus
nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado,
e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos
resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem,
não havia poder maior que os não temesse.
Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e
grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor,
nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e
honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa,
que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles
disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós
consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para
peleijar». Respondeo elle e disse:
«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por
sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me
contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não
são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui
esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé
somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará
vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é,
será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos:
«Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua
graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito,
e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei,
e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que
pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o
levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real,
por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil
cento e trinta e nove (1139).