_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
Guimarães_.
Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei
estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua
molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se
todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço
onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então
D. Egas Moniz, e disse.
«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu
Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na
Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se
lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos
cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa
desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que
vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver
por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e
por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago
tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de
muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me
pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se
diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».
Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão
de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita
honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua
molher, e filhos tornar para Portugal.