_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra_.
Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não
queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D.
Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em
que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta
fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse
vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe
podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para
o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali
esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e
sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se
levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que
os tinham.
Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro
veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de
todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias
combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda
de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em
quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se
perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).