_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
Condado com certas condições_.
Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que
assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira
dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que
não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão
louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu
esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto
cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado
pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são
por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado
recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui
devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas
santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França,
e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste
Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei
Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
El-Rei D. Affonso recebidos.
Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não
menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo
El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que
depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D.
Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello
de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique
o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse
um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de
cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados
perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não
querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
aprouvesse, como de cousa sua propria.